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Hoje foi meu antepenúltimo dia de estágio no Tribunal de Justiça Santa Catarina, após dois anos de aprendizado prático-profissional no gabinete de uma desembargadora. E esse poderia ser o relato de uma quase ex-estagiária na acepção menos trágica do termo, mas na verdade, descrevo aqui, como quase vítima de terrorismo, o episódio que marcou boa parte dos noticiários ao cair da tarde de hoje: uma ameaça de bomba em pleno pátio do TJSC.
Apenas para afastar imprecisões sensacionalistas de algumas redes sociais, é necessário esclarecer que os prédios não foram evacuados e ninguém se feriu, o acesso à rua foi bloqueado por força policial, que cercou a área do suposto artefato explosivo. Narro essas informações como pessoa que estava lá dentro, na segunda torre do Tribunal quando, em meio ao estudo de um agravo de instrumento impugnando uma decisão interlocutória de declínio de competência, eu soube pela minha colega da mesa ao lado que a casa da segunda instância judiciária catarinense estava sendo ameaçada por um dispositivo deixado nas imediações, e que exigiu uma força-tarefa do Batalhão de Operações Policiais Especiais, inclusive com o uso de um aparelho robótico para o manuseio do objeto não identificado.
Estarreci diante da notícia, com uma incredulidade que não deixou de me acometer, mas que foi apaziguada pela curiosidade maior ainda e pelo espírito de aventura com o qual aqueles que trabalham com o Poder devem ser naturalmente munidos. No momento, eu não sabia se seria mais seguro aguardar no gabinete enquanto o pessoal especializado fazia a remoção daquele objeto que mais parecia uma maleta ou então se eu deveria sair o quanto antes e evitar ser vítima de uma grande detonação que poderia ocorrer a qualquer momento, ainda mais hoje, 30/01, dia da saudade, e por coincidência, aniversário de falecimento de minha avó materna, que se despediu da vida nessa mesma data há treze anos.
Deixei minha família avisada, e até então, eu não poderia conceber com precisão os motivos pelos quais as torres ainda não tinham sido evacuadas, cheguei a cogitar que não havia muito o que ser feito em se tratando de segurança, já que dentro ou fora dos prédios, a bomba poderia destruir tudo o que estivesse em seu raio. Da perspectiva utilitarista, e valho-me da frieza necessária após um episódio interessante como esse, que o estrago humano não teria sido o pior: sextas-feiras são os dias mais vazios e talvez esse seja um fenômeno comum a boa parte do funcionalismo público brasileiro. Além disso, muitos servidores já tinham sido dispensados mais cedo em razão de uma cerimônia de posse de um novo desembargador… que certamente foi bombástica!
Cheguei a me perguntar se esse ato tinha alguma correlação com a recente suspensão da lei estadual que proibia cotas raciais nas universidades, e sobre o assunto, sou literalmente muito suspeita para falar, e não posso falar mais que isso, embora eu quisesse. Ou, excluindo a hipótese de algum ultraconservador doente e inconformado, se teria sido em razão da manifestação ocorrida ontem em prol do cachorro “Orelha”, que foi comportada e devidamente contida. Mas a verdade é que me preocupei à toa, sendo que eu não tinha o direito de me distrair tão longamente nessa reta final de trabalho, em que minha supervisora, querendo aproveitar ao máximo meus conhecimentos, me encheu de afazeres.
Dois anos no Tribunal de Justiça se passaram tão rápido quanto o estouro de uma bomba-relógio, e a um só tempo, com a serenidade silenciosa dos segundos que precedem a explosão. Quanto ao objeto, e a essa altura vocês já devem saber o desfecho sem que meu relato pessoal pretenda ser informativo, mas não havia bomba alguma, e sim uma caixa de sapato sem nada de perigoso em seu interior, deixada por uma moradora de rua psiquicamente transtornada e que foi conduzida para acompanhamento em uma unidade de saúde.
A mobilização dos serviços de segurança foi comovente, e o episódio registrado deixou marcas de humor e excesso de zelo àqueles que presenciaram o ocorrido, evidenciando uma vez mais a seriedade da desconfiança humana e o medo diante do desconhecido. O objeto pertencia a um outro mundo, cruel, mas real. Por vezes, é só assim que conseguimos enxergá-lo, quando ele provoca a Justiça e nos retira da inércia fundamental, que é pressuposto basilar do Poder Judiciário. Esse mundo tão estranho e peculiar se encontra logo depois do muro que faz a separação entre os julgadores e a sociedade, com fácil acesso de ida e sempre à espreita.
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