Login
E-mail
Senha
|Esqueceu a senha?|

  Editora


www.komedi.com.br
tel.:(19)3234.4864
 
  Texto selecionado
A Beatitude como ato de rebeldia
Flora Fernweh

Na última quinta-feira, fui visitar minha madrinha na praia do Campeche, chegando em sua casa, ao entardecer, ela não se encontrava. Eu já sabia que ela estava com visitas e havia me convidado para o jantar, que seria, na ocasião, robalo com legumes gratinados. Como são exuberantes os fins de tarde no verão da ilha, decidi ir à praia, onde pude deixar-me salgar pela maresia e pelo som inconfundível das ondas quebrando na areia. Molhei os pés e permiti que o vento colasse os finos grãos em minha pele. Após, não resisti a uma ida à sorveteria, famosa na região pelos seus gelatos artesanais de sabores brasileiros exóticos, cujo nome escuso-me de mencionar aqui.

Retornei com o passo explorador de garota universitária que mora em um paraíso litorâneo e intocado, mas que vive na região mais urbana e agitada da cidade. Chegando novamente na casa de minha madrinha, não me surpreendi que ela ainda estivesse fora após meu breve passeio que durou uma hora e meia, mas seu marido me recebeu com a cordialidade de sempre e me fez sala. Não demorou e ela logo apareceu, juntamente com as visitas. Conheci H., que já me conhecia mais do que eu poderia imaginar, de forma indireta, a partir do que tanto tinha ouvido de minha madrinha, e seu filho, jovem autista, mas muito bem educado.

Notei em H. o brilho intenso que emana do olhar das pessoas extraordinárias, e percebi seu encantamento comigo quando começamos a conversar sobre nossa área de estudos em comum, o Direito. Conectamo-nos de forma repentina, e pude sentir a verve batalhadora de uma mulher como ela, negra, feminista, jurista, professora, pessoa de bem e esclarecida, consciente de suas origens e com os pés no chão que o Brasil de hoje exige daqueles que são munidos de um mínimo de racionalidade.

Também fui apresentada ao marido dela, professor de química e aspirante à médico. Ele foi o gastrônomo da noite, e ao chegar, atracou-se na cozinha, iniciando os trabalhos pela sobremesa, um delicioso crème-brûlée à moda Amélie Poulain, mas sem a camada de açúcar queimado por cima. Enquanto isso, nós, mulheres, nos aconchegamos no sofá da sala, em uma dinâmica de inversão de papéis que deve se tornar mais recorrente no tempo em que vivemos. Infelizmente, M. não compartilha desse pensamento progressista, e é em torno de uma característica dela que esse relato gira em torno.

M. é nordestina, jovem de minha idade e filha de H. Estudante de Letras/Francês na USP, ela nos apresentou um vídeo produzido em grupo para o trabalho de conclusão de curso da faculdade, com cenas gravadas no tempo em que morou em Lyon, na França. Tive a impressão de ser uma mulher jovem, mas madura, simpática e agradável, não fossem as informações que obtive depois, por meio de minha madrinha, que não tem filtros para os rumores.

Descobri que M. era virgem e se orgulhava de sua condição íntima no auge de seus 22 anos, cultivava um namoro santo com um moço que conheceu na igreja, além de ser pertencente à Opus Dei e frequentar um grupo de mulheres que buscam a santificação e se debruçam em estudos de como ser uma boa esposa e uma boa mãe, como se portar e ser uma mulher servil, entre outras asneiras do gênero.

Minha madrinha havia se desculpado comigo por não estar em casa para me receber naquela noite, sob a justificativa de que M. pedia que parassem em toda igreja que encontravam no caminho. Devido à colonização açoriana na região, o estilo português domina a arquitetura da parte histórica da cidade e das pequenas igrejas, mantidas pelo tempo como resquícios de uma espiritualidade eminentemente católica que atravessou o Atlântico e depreciou de forma violenta as práticas mágicas pertencentes aos povos nativos e que hoje fazem parte do folclore ilhéu.

H. comentou com minha madrinha que certa vez adentrou o quarto de M. e se deparou com a filha e seu namorado rezando o terço. Mal deve saber M. que esse comportamento ritualístico acompanhado desse fanatismo são fonte de preocupação para qualquer mãe e pai, que antes prefeririam ter flagrado a filha e seu namorado entregues aos atos libidinosos. Mas é sabido o modus operandi de um namoro santo, e também se sabe que embora a fé esteja presente de forma bastante aflorada, a cena primordial vem inculcada no instinto humano de perpetuação da vida na Terra, e é mais forte que qualquer crença ou mitologia. Quando naturalmente se eleva o desejo do casal em fazer sexo, a atitude recomendada e obrigatória, segundo as diretrizes cristãs mais fundamentalistas é prostrar-se de joelhos, com o rosário em mãos e proferir o terço.

Além disso, eu soube que M. se enfeia para ir às missas, cobrindo parte considerável de seu corpo com roupas antiquadas, e que segundo ela, os momentos mais felizes de seus dias acontecem quando comunga com seu Transcendente a partir da hóstia, e do vinho, ou seja, com o corpo e o sangue de Jesus Cristo. Todo o meu deslumbramento ocorre pela surpresa que tive ao conhecer alguém como ela, que vive em uma realidade bastante distinta da minha, de forma que ela nem imagina o quanto me encantou.

O jantar foi servido tarde, mas a noite foi ótima e regada a boas conversas e a vinho francês… não poderia ter sido diferente. Como eu já disse em outras oportunidades, há algo de devoto na alma nordestina que ainda não identifiquei de maneira precisa, como se houvesse um vazio essencial, uma propensão desértica que buscasse o sublime para além das superficialidades da existência corpórea, e M. personifica em literalidade essa descrição.

Me intrigou a razão por M. ser assim, se seria apenas uma fase mais conservadora em busca da construção de sua identidade e de seu lugar no mundo ou, por uma explicação mais plausível, um sentimento de revolta típico da adolescência tardia em ir na contramão dos costumes prezados pelos pais, entendendo como profana a ideologia de seu legado. H. é inegavelmente uma mulher empoderada que não teria criado sua filha para ser uma mulher submissa, muito pelo contrário, ouço a combatividade nas entrelinhas de cada palavra proferida por ela.

Então o que teria levado M. a se tornar uma verdadeira beata?
Insurgir-se contra os valores impostos é revolucionário, mas nesse caso, a imposição de um pensamento feminista desde cedo guiou a filha pelo caminho do anti exemplo daquilo que é caro à mãe. Questionar o que nos foi ensinado é um ato rebelde, e do jeito como as coisas estão invertidas, concluo que ir à missa e temer a Deus é a mais ascética forma de revolta!


Biografia:
Sobre minha pessoa, pouco sei, mas posso dizer que sou aquela que na vida anda só, que faz da escrita sua amante, que desvenda as veredas mais profundas do deserto que nela existe, que transborda suas paixões do modo mais feroz, que nunca está em lugar algum, mas que jamais deixará de ser um mistério a ser desvendado pelas ventanias. 
Número de vezes que este texto foi lido: 30


Outros títulos do mesmo autor

Crônicas A Beatitude como ato de rebeldia Flora Fernweh
Frases Afeto Flora Fernweh
Crônicas A Poética do Sentir Flora Fernweh
Crônicas Triste lira dos 20 anos Flora Fernweh
Crônicas A mulher grávida Flora Fernweh
Haicais Por amor se sofre Flora Fernweh
Sonetos Amor que escapa Flora Fernweh
Cartas O amor é um salto para a eternidade Flora Fernweh
Crônicas Ao calor do incenso Flora Fernweh
Crônicas O problema do professor institucionalizado Flora Fernweh

Páginas: Próxima Última

Publicações de número 1 até 10 de um total de 455.


escrita@komedi.com.br © 2026
 
  Textos mais lidos
O ensino brasileiro na educação básica - Marciana Caciano Damasceno 67814 Visitas
Ressignificar Quântico em Porto Alegre - Terezinha Tarcitano 67144 Visitas
AA-XVI - Antonio Ayrton Pereira da Silva 67001 Visitas
A Abelhinha Jurema - JANIA MARIA SOUZA DA SILVA 66599 Visitas
Papel de Rabiscar - José Ernesto Kappel 66566 Visitas
O que e um poema Sinetrico? - 66377 Visitas
CRONICA - BENEDITO JOSÉ CARDOSO 66355 Visitas
Parada para Pensar - Nilton Salvador 66310 Visitas
AMIZADE - Derlânio Alves de Sousa 66227 Visitas
O pseudodemocrático prêmio literário Portugal Telecom - R.Roldan-Roldan 66118 Visitas

Páginas: Próxima Última