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Tenho um compromisso recíproco com a escrita: somos eu e ela cúmplices do sentimento. Enquanto ela me permite o retorno à minha existência, sou eu o canal pela qual ela reverbera. Ouso dizer que sou a mais beneficiada nessa equação, embora a poesia nada seja sem o instrumento que a coloca no mundo, pois reflexa é a poesia, de alma em alma, no ricochete infinito que ecoa desde os tempos mais remotos, quando o homem, iniciado no raciocínio transcendente de seus costumes terrenos, passou a buscar a sua verdade.
Mas sou apenas uma transmissora daquilo que sinto, sem aversão à minha instrumentalidade, que é inerente à quem tão devotadamente escreve, ante o imperativo categórico que é a palavra. E o que é sentir senão interpretar aquilo que até então era externo? Ensimesmo-me, e o sentir ganha forma, não é mais um fenômeno alheio de mim ou reduzido à sensorialidade do corpo, mas sim um ato que vem a agregar o espírito pela elaboração pessoal daquilo que ele representa e faz nascer.
A um só tempo, escrever me aproxima de aspectos profundos daquilo que sou, e me torna distante da indiferença que povoa a mediocridade destituída de criação. Escrever é o meu norte e o meu contratempo, é meu impulso vital, é minha razão e o meu chamado. Basta a palavra e o sentimento se perfectibiliza, mas para o sentir, a palavra não basta, as letras fogem, a poesia se dissipa, e o que resta é a sensação invadindo o pensamento. Pensamos porque escrevemos, ou escrevemos porque pensamos? A resposta é simples, a escrita precede o pensamento, porque é a escrita uma forma de pensar, a primeira e a última.
O pensamento racionaliza o sentimento que passa rente à pele, bem como o sentimento que nos atravessa como flechas. Pensar é sentir, e o vício na inércia daquilo que passa pela mente é sinônimo de fatalidade. É preciso, pois, criar o que se pensa, e isso apenas se alcança com o senso empírico fundamental de uma existência plena. É preciso, sobretudo, submeter-se à intensidade que a vida exige de quem dela busca algo além, como quem persegue a morte e quase a encontra. Escrita, sentimento e pensamento, eis a tríade. Se escrever é o mais nobre e pensar é o mais cobiçado, sentir é o mais fino.
O sentimento nos individualiza, porque cada um o vive à sua maneira, embora universalizável pela poesia que dele decorre. Sentir é abrir espaço para que a escrita encontre a brecha necessária para subsistir, porque embora ela seja anterior ao pensamento, a poesia é posterior ao verbo, que no princípio, tudo era. A escrita é composta de matéria bruta lapidada pelo esmero de uma mente livre, unindo o objeto ao dom. Se sentir me torna grande, escrever me torna imensa. E se escrevo, é porque muito sinto, se tanto sinto, é porque escrevo. Sinto muito!
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