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Me atordoam as coisas que não têm um fim em si mesmas, especialmente quando se trata de formação humana. E assim tem sido nos últimos tempos o ensino médio no Brasil, apto a “educar” uma legião de adolescentes para o enfrentamento dos vestibulares mais concorridos do país, ao invés de zelar por um ensino capaz de estimular a apreensão de conteúdos efetivamente relevantes e que permanecessem com os jovens por um pouco mais de tempo que as cinco horas destinadas à resolução do ENEM, como lições de ética e cidadania para o desenvolvimento de habilidades sociais e interpessoais.
Essa desoladora tendência de creditar maior confiança às escolas que se pautam em um critério meramente quantitativo de aprovações, se consolida como uma aplicação prática do embate entre os imperativos hipotético e categórico de Kant. Enquanto o imperativo categórico é, em síntese, um agir condicionado à busca de um objetivo ou finalidade, o imperativo categórico é o núcleo da moral, sendo expresso por um mandamento absoluto que, contido na Crítica da Razão Prática, vislumbra na atitude humana o princípio de uma legislação universal.
O que se tem visto ultimamente na imensa maioria dos colégios, especialmente nas instituições de ensino privadas que se dizem as melhores e que medem seu grau de qualidade pelos acertos que seus clientes mirins têm em uma prova, é um exemplo que lembra a noção de imperativo hipotético, ou seja, de três anos de preparação intensa em busca de um único propósito: uma vaga na universidade. Isto sem mencionar as lacunas que os vestibulares costumam ter: não são exatamente provas de conhecimentos, ou que permitem a aplicação de um raciocínio aprendido, mas sim de informações e de averiguação da extensão da memória.
Costumo dizer que as melhores provas não são exatamente as difíceis, embora seja com elas que mais aprendemos, nem aquelas que gabaritamos, porque se exauridas, não se apresentam como um desafio. As melhores provas são aquelas que nos permitem aprender enquanto as respondemos, ou então, após, no momento mais importante de uma avaliação em termos de aprendizagem, que é a correção e revisão dos erros. Os erros não devem ser ignorados, eles são um termômetro do que deve ser aperfeiçoado. O ideal, certamente, é progredir, isto é, aumentar a quantidade de acertos a partir do treino incansável de questões, limitadas pelos subjetivismos interpretativos ou então por regras e procedimentos que são irreais na vida lá fora.
Infelizmente, as consequências das expectativas que recaem duramente sobre os jovens são alimentadas pelos pais, que fazem girar as engrenagens desse novo modelo de ensino, mais objetivo e direcionado àquilo que dizem realmente importar. Não raro, os moldes desse tipo de educação levam ao desenvolvimento de transtornos psicológicos e estafa precoce nessa idade tão delicada, na qual as atitudes do adolescente são altamente influenciadas pelo ambiente em que ele vive, pelas projeções da família e pelas companhias que escolhe.
Esclareço que não sou partidária da ideia de que as escolas não devam preparar seus estudantes para os exames, até porque um futuro bem-sucedido pode estar condicionado a isso, mas jamais unicamente a isso. Existem tantas outras variáveis no conceito de sucesso e que fogem ao pragmatismo da instrução voltada ao vestibular, tão importantes quanto, ou até mais, eu diria. Mas o que se vê é a massificação do conhecimento, tratado como mercadoria instrumentalizada sob a forma de “cursinhos” para o atingimento de fins diversos daqueles que a última etapa de formação básica tem o dever de proporcionar, em nítida contramão do imperativo categórico kantiano.
Nutri desde sempre a esperança em um mundo melhor a partir da educação formal, e ainda sinto que os caminhos da vida um dia me levarão à sala de aula. É um sonho que parece ousado e estranho para quem conhece minimamente a labuta pedregosa de um educador em nosso país, mas, apaixonada por causas perdidas, creio ser uma de minhas vocações. Ainda que a abordagem do conhecimento que pretendo transmitir seja enviesada pelos valores de uma instituição de ensino, não me restringirei às pretensões das provas para ingresso no ensino superior, se já vivemos em um ensino médio inferiorizado e destituído de razão de ser, à sombra de um futuro incerto e seletivo.
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