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O peso dos títulos*
AUDRE CRISTINA ALBERGUINI

Algumas palavras soam como desafio. No início da minha pós-graduação, uma pesquisadora experiente, ex-atleta profissional, proferiu as palavras que iriam acompanhar minha trajetória acadêmica: “A mulher, quando sai da graduação, está com o corpinho perfeito. Quando termina o mestrado, já está fora de forma. No final do doutorado já não tem mais conserto. É irrecuperável”.   

Isso não podia ser verdade. Eu não deixaria que isso acontecesse comigo. Logo eu, amante dos livros e dos doces. Mostrar que ela estava errada tornou-se uma pesquisa à parte para mim. Faria com que minha experiência pessoal provasse o contrário.

Tornei-me, então, objeto do meu próprio estudo. Como pesquisadora iniciante e interessada, prendi-me aos fatos. O meu ponto de partida foi o álbum de formatura da faculdade. Na foto do baile, lá estava eu, magrinha, miúda, quase um pontinho no meio do brilho dos vestidos e de outras garotas bastante exuberantes. A primeira hipótese foi comprovada.

Ótimo, qualquer mudança seria facilmente perceptível. O mestrado trouxe uma mudança radical na rotina. Não via mais os amigos do curso, não tinha que correr para cumprir a agenda atribulada de trabalho e estudos nem fazer as aulas de Educação Física para cumprir os créditos da faculdade. Por outro lado, havia muito tempo para leitura – que era bem mais relaxante na posição horizontal – e outro tanto sentada em frente ao computador. O cardápio diário era o mesmo, mas, passar mais tempo em casa tornava as visitas à geladeira muito mais freqüentes.

Dois anos depois cheguei à defesa do mestrado e a um peso inédito: sete quilos a mais. Para meu desespero, a segunda hipótese também havia sido comprovada. Os dados eram precisos. A balança não mente e a foto de comemoração não deixava dúvidas – eu estava rechonchuda.

Não tinha mais volta. Ou desistia da carreira acadêmica – porque havia grandes chances de a terceira hipótese se concretizar em mim – ou encarava o desafio e tocava em frente rumo ao doutorado. Resolvi encarar.

Comparado ao mestrado, o doutorado exigiu muito mais dedicação. A quantidade e a densidade das leituras foram multiplicadas por mil. Isso significou muito mais tempo na posição confortável para adquirir conhecimento e uma maior exposição às tentações da geladeira.

O doutorado tornou-se, então, o motivo, o pretexto e a desculpa para fugir das atividades diárias. “Ir ao supermercado? Não, tenho que fazer a tese. Por favor, mãe, compra as coisas da lista.” “Fazer caminhada? Não posso, esse tempo é precioso demais.” “Limpar o apartamento minúsculo? Não dá pra perder tempo com faxina.” “Academia? Só depois de terminar a tese.”

Por outro lado, o fantasma da terceira hipótese me assombrava. O jeito era manter a boca e a geladeira fechadas. Dieta rigorosa foi minha única arma. Comia pouco para compensar o tempo que ficava sentada em frente ao computador. Na geladeira, só água gelada e margarina light. Na despensa, biscoito água e sal.

Ao longo de quatro anos aos quais me dediquei à tese, perdi peso. Quase voltei ao manequim da época da faculdade. Na defesa, bingo! A terceira, tirana e avassaladora hipótese não foi comprovada. O pesadelo não se concretizou.

Entre a notícia de que uma colega de turma do mestrado fez lipoaspiração e outra que, depois de uma severa dieta, disse que retornou ao peso de antes de doutorado, notei que o resultado que obtive não foi o mesmo do de outras colegas pesquisadoras. Portanto, tive que relativizar minhas conclusões.

Mas não me importava mais. Havia terminado a pós-graduação com o IMC de 19,92. Isso me bastava. A rotina da época do doutorado foi mantida mesmo depois do trabalho concluído. Passei a comer mais, retomei velhos hábitos e adiei outros, mas mantive o peso conquistado junto com o título de doutora. Foram muitos ganhos de conhecimento, além do bom usufruto do plano de saúde, das dores nas costas e da lesão por esforço repetitivo no braço direito que ainda me acompanham. Dessa trajetória, fica a pergunta: qual o custo real – para a saúde física e mental – de se manter a forma física às custas de dietas severas e sem acompanhamento e de uma rotina estressante sem atividades físicas?

Hoje, professora universitária, enfrento outros desafios, que se tornaram mais pesados por causa da tese. Um deles é subir os lances de escada que separam as classes quando os elevadores estão lotados. Quando chego à sala de aula, ofegante, o jeito é pedir um tempo, praguejar contra o tamanho do prédio, tomar fôlego e justificar, com a tese, o precário condicionamento físico atribuído pelos alunos à professora doutora.

* Texto extraído do livro Corpos estéticos.
www.revistagriffe.blogspot.com
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Biografia:
E CRISTINA ALBERGUINI - Doutora em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo. Professora de Jornalismo.
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