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Terra de ninguém (e de todos)
(Boca de lobo, o rapper Criolo e a destruição da pátria)
Roberto Queiroz

Mais uma vez o rap nacional vem à público para afrontar a verdade nacional e suas distorções políticas, conservadoras, mórbidas e acachapantes. Não faz nem um mês que mostrei aqui uma reflexão sobre o último clipe do rapper Gabriel, o pensador, Tô feliz (matei o presidente)2 e agora seu concorrente musical, o pernambuco Criolo, entorna o caldo de vez com Boca de lobo.

A premissa é ótima: criaturas assustadoras (ratos, cobras, porcos, morcegos, abutres, "tucanos") invadem a nação e destroem nosso status quo básico, roendo e corroendo as esferas sociais. No meio da rua, numa manifestação pública cujo horror é multiplicado à milésima potência, o povo grita, ruge, corre, sobrevive como pode, enquanto os oportunistas professam sua fé, seu ritual da enganação, com a clara intenção de roubar nossas últimas esperanças.

O clipe é escuro e obscuro e precisa ser dessa maneira. Chegamos a um ponto no país em que não dá mais para pôr a mão na cabeça desses homens e mulheres que vivem de tornar a nossa vida pior dia-a-dia.

Diferentemente de Gabriel, o pensador em seu clipe, aqui Criolo opta por não aparecer. O que se vê dele durante todo o vídeo é apenas sua voz dura, cheia de farpas, o sotaque acentuado, engajado, cheio de ironias, melindres e desabafos. E cá entre nós: prefiro assim. Tenho certeza que os "metidos a burgueses" e os infames classe média, caso vissem sua imagem encheriam as redes sociais de comentários do tipo "começou o chororô de comunista", "cai fora, babaca!", "esquerdopatas que se lixem", entre outros "elogios" mais ácidos.

Pergunto-me onde foi que erramos, por que tantos choram, por que a minoria abastada não para de enriquecer às custas da miséria humana, e o que se vê durante toda a canção, misturada que está às imagens fortes e desoladoras, é um grito de desespero, um sentimento de que não aguentaremos mais um ano, um mês, sequer mais um dia disso que aí está.

Boca de lobo explora nossos sentimentos mais negativos, mas em contrapartida oferece uma fúria libertadora, uma coragem, uma vontade de mudar na marra, de querer invadir aquele lugar (vocês sabem bem de onde falo!) armado até os dentes e gastar até o último projétil naquela corja infame. Precisamos disso. Mais do que simplesmente acordar, precisamos tomar uma atitude.

"Já passou da hora de tomarmos as rédes da situação", é o que parece gritar o rapper pernambucano mais influente do momento (e que já mostrou ao longo da curta mas intensa carreira, ser versátil, e entender de samba e até mesmo de Tim Maia).

O mais revoltante, penso eu durante todo o clipe, é saber que nós, quando eleitores, criamos esses monstros que aí estão, verdadeiras múmias sagradas, que não largam o osso da impunidade um minuto sequer, nem mesmo quando estão doentes ou inválidos. Até quando seremos burros novamente?

Criolo é corajoso até a raiz do cabelo e pode ter certeza que sofrerá críticas abissais sobre sua postura. Espero que esteja preparado para a guerra (leia-se: enxurrada de comentários preconceituosos e vazios sobre o seu trabalho). No mais, uma certeza: ainda há pessoas com culhões na nossa MPB.

Pena que ela nunca mais ganharam espaço de verdade nas mídias que fazem a diferença...

Tirem suas próprias conclusões vendo o desabafo do rapper no link:
https://www.youtube.com/watch?v=jgekT-PEb6c


Biografia:
Crítico cultural, morador da Leopoldina, amante do cinema, da literatura, do teatro e da música e sempre cheio de novas ideias.
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