Login
E-mail
Senha
|Esqueceu a senha?|

  Editora


www.komedi.com.br
tel.:(19)3234.4864
 
  Texto selecionado
Um pouquinho de Brasil
(reinterpretando Navalha na carne, de Plínio Marcos)
Roberto Queiroz

Vocês já ouviram o trecho em que o cantor João Gilberto canta em isto aqui o que é? a frase "isso aqui ô ô é um pouquinho de Brasil"? Pois é... Esqueçam João - que, aliás, vive dias terríveis, isolado em seu apartamento - e coloquem o dramaturgo Plínio Marcos na roda. Isso mesmo. Se há um dramaturgo que falou a verdadeira língua do país, língua desbocada, suja, travessa, direta, foi Plínio.

E para minha alegria e a de muitos fãs de sua obra somos duplamente recompensados com a maravilhosa notícia de que o Teatro Oficina (de mestre José Celso Martinez Corrêa) traz pela primeira vez ao Rio de Janeiro sua obra-prima, Navalha na carne.

Navalha na carne tem todos os elementos de um escândalo em forma de peça. E nenhuma outra, podem acreditar, explica tanto o país atualmente como ela. Se durante o período militar foi sumariamente proibida; agora, em tempos de Bolsonaro, conservadorismo ganhando força, misoginia, homofobia e racismo declarado nas ruas, ganha ares de incompreensão da parte da legião de ignorantes que acredita ser capaz de eleger o novo (e ético) presidente do país.

Como não faço parte da ignorância coletiva que rege estas terras nos últimos anos (leia-se: 2014 pra cá) fui conferir a montagem realizado no Teatro Nelson Rodrigues. Resultado: meu Deus! Obrigado por me proporcionar tal nível de ousadia!

Marcelo Drummond, diretor do espetáculo, vive Vado, gigolô violento, sarcástico, cruel, que humilha a todo momento Neusa Sueli (Sylvia Prado), prostituta envelhecida e decadente, que já teve seus dias de glória e agora limita-se a viver do passado (cultura essa típica de nosso país, que adora títulos de nobreza, pompas, usar nomes de famílias tradicionais para justificar seu caráter deturpado). Para completar a tríade, Veludo (Tony Reis, brilhante!), homossexual que faz as vias de empregado da casa, mas que mantém uma rivalidade sórdida com Norma, a ponto de várias vezes jogar na cara dela ter sido muito melhor amante do que ela.

A combustão provocada pelos duelos envolvendo essa trinca de personalidades febris é um caos declarado e desmedido (e nesse ponto a luz produzida pela dupla Luana Della Crist e Pedro Felizes deixa um clima de desamparo e angústia muito óbvio).

Interpretação livre de minha parte, confesso: Navalha na carne é o retrato visceral da falência de um país que se sonhou grande, mas nunca teve competência para viver o presente, que dirá o futuro, e agora se esconde atrás da falácia de um discurso vazio e mentiroso chamado "erramos em algum momento do caminho".

Vado, Norma Sueli e principalmente Veludo (digo: nos dias de hoje, com todo o discurso de diversidade sexual e LGBT em voga) são agentes falhos de uma nação perdida - será que é nação mesmo? sempre tive minhas dúvidas - que utiliza-se de subterfúgios e esconderijos para esconder o que realmente são sob o verniz da hipocrisia, elemento fundador dessa pátria adorada salve, salve.

Saio do teatro destruído, mas uma destruição mais do que necessária. Precisamos implodir estruturas se quisermos sobreviver a mestre Plínio Marcos e, claro, a esta terra de Macunaímas e Zé pereiras, fenômenos hedonistas, nossa versão Peter Pan tropical.

Não foi ver? Mesmo?

Então depois não reclama dos seres pensantes que acham que a vida não se resume a McDonald's e novela da Globo.

Certas verdades são indigestas. E precisam ser ditas e vistas doam a quem doer.


Biografia:
Crítico cultural, morador da Leopoldina, amante do cinema, da literatura, do teatro e da música e sempre cheio de novas ideias.
Número de vezes que este texto foi lido: 45


Outros títulos do mesmo autor

Artigos Legalize it!!! Roberto Queiroz
Artigos O que andam chamando de MPB Roberto Queiroz
Artigos A tv de papel Roberto Queiroz
Artigos Uma aula de etnia Roberto Queiroz
Artigos Se eu quiser falar com Deus Roberto Queiroz
Artigos A mentira nossa de todo dia Roberto Queiroz
Artigos A lenda dos quadrinhos Roberto Queiroz
Artigos O homem que inventou as matinês Roberto Queiroz
Artigos A banda que definiu a minha geração Roberto Queiroz
Artigos O país que gostamos de inventar de tempos em tempos Roberto Queiroz

Páginas: Próxima Última

Publicações de número 1 até 10 de um total de 129.

  Envie este texto por e-mail
Digite seu nome:
Digite seu endereço de e-mail:
Digite o nome do destinatário do e-mail:
Digite o endereço de e-mail do destinatário:

escrita@komedi.com.br © 2019
 
  Textos mais lidos
The crow - The Wiki World - The Crow 55666 Visitas
A Arte De Se Apaixonar - André Henrique Silva 52864 Visitas
haicai - rodrigo ribeiro 39218 Visitas
OS ANIMAIS E A SABEDORIA POPULAR - Orlando Batista dos Santos 34166 Visitas
PÃO E CIRCO - Tércio Sthal 33358 Visitas
Amores! - 32938 Visitas
Desabafo - 32530 Visitas
Reencontro - Jose Andrade de Souza 31631 Visitas
Faça alguém feliz - 31383 Visitas
Minha namorada - Jose Andrade de Souza 31063 Visitas

Páginas: Próxima Última