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VOX FEMINA
Coslei

- Cardoso, meu velho, você devia procurar uma companheira, um cobertor de orelha. Já é hora, já está passando da hora, meu irmão.

Mendonça ressuscitava a mesma ladainha com uma periodicidade semanal, preocupava-se ao ver o amigo taciturno e concentrado, após o término do expediente, nas planilhas e gráficos do Excel.

Cardoso assentia com a cabeça, mas sequer reconhecia as palavras de quem o alertava. Há tempos que não conferia atenção à falação solta do Mendonça. Deixava a repartição muito além das 17h, quando terminava o seu horário comercial, conferia e rechecava todos os dados imputados. Tinha obstinação pela qualidade do seu serviço, era elogiado pelos seus superiores e orgulhava-se do posto que ocupava naquela Unidade da Receita Federal em Vila Isabel.

Pelas 19h:30, trancava as gavetas, desligava seu equipamento e saía em passos largos pela Rua Pereira Nunes até o Ponto de Táxi da esquina, fazia a baldeação para o Metrô da Saenz Peña e desembarcava na Estação Siqueira Campos, em Copacabana. O trajeto até o prédio no alto da Santa Clara, próximo ao Bairro Peixoto, lhe custava esforço e alguns minutos andando, mas ele apreciava a caminhada.

Entrava calmamente em casa e inspecionava o serviço realizado pela Diarista que faxinava o seu apartamento. Era obcecado por simetria e limpeza. Morava sozinho, mas não abria mão de quem tirasse o pó dos móveis antigos e organizasse o imóvel herdado da mãe. A faxineira tinha que seguir rigorosamente as suas instruções.

Sua paixão era o xadrez e o centro da sala era ocupado por um tabuleiro de cristal ornado por peças entalhadas em marfim. À noite, dedicava horas nas partidas com o computador, era o seu hobby e a sua solidão.

Alcançou os cinqüenta anos sem nunca ter casado, não teve filhos e o contato com os minguados amigos era muito restrito. Depois do falecimento da mãe, sentiu uma ausência nos seus hábitos. A velha senhora havia consumido muito da sua dedicação antes de morrer.

Acordava cedo, vestia-se para o trabalho, caminhava até a Av. Nossa Srª de Copacabana, bebia uma água-de-coco num carroceiro de calçada e pegava o ônibus que o transportava a Vila Isabel.

Cardoso era um metódico e a rotina a sua religião.

Na segunda-feira ele chegara em casa um pouco mais tarde, custara a pegar o Metrô, uma pane numa das estações atrasara todos os trens, fatos como esse desestabilizavam sua frieza sistemática.

Fez sua vistoria minuciosa por todos os cômodos, ajeitou um porta-retratos desalinhado, retirou a poeira de um dos quadros expostos na sala (Cardoso era um colecionador de quadros comprados numa Feira de Pintores na Av. Atlântica) e foi sentar-se para mais um desafio enxadrista com o seu PC.

O telefone toca e o interrompe quando estava prestes a fazer uma jogada decisiva.

- Alô? – Ele atende.

- Boa noite, Júlio, aqui é a Beatriz! Por que você sumiu?

- Perdão, não é o Júlio quem está falando, minha Senhora. É engano. – Responde sempre naquele seu tom linear e contido.

- Deixa de ser cretino, Júlio! Eu sei que é você!

Cardoso pensou em desligar, mas ficou prisioneiro do tom jovem da voz feminina do outro lado da linha.

- Por que você sumiu depois daquela noite em que nos conhecemos, à noite em que ficamos juntos, Júlio? Estou tentando ligar há dias, mas nunca atendem.

- Para qual número ligou, Senhora?

- Para o seu, Júlio, é o número que tenho anotado por você no papel que me deu: xxxx-xxxx. Não é esse?

- Senhora, eu lamento dizer, o número está correto, mas não tem Júlio aqui.

- Pára, Júlio! Estou reconhecendo a sua voz.

- ...

- Não posso falar muito aqui do Telemarketing, ficam de olho e escutam conversas, ligo novamente amanhã às 21h. Por favor, me atende, preciso muito falar com você. O que está fazendo agora, Júlio?

- Senhora, não sou o Júlio. Mas, se lhe interessa, estou no meio de uma partida de xadrez.

- Xadrez? Eu gosto! Deixa eu jogar com você, Júlio! Podemos jogar pelo telefone. Eu digo meus movimentos e você me passa os seus. Eu fico com as Brancas. O que acha?

- ...

- E, se não conseguirmos nos falar, deixo minha jogada na sua Secretária Eletrônica. Eu ficava ouvindo a sua voz gravada nela quando ligava e ninguém atendia. Você pode me responder pelo MSN. Tem MSN?

Apesar de não estar à vontade com a situação, Cardoso forneceu seu MSN, a idéia de jogar com uma mulher o atraiu e ele se deixou levar.

No dia seguinte, Mendonça estranhou quando viu Cardoso abandonar a mesa antes do fim do dia.

- Está passando mal, meu velho? – Inquiriu Mendonça.

- Preciso ir. – Cardoso responde da maneira seca que lhe era peculiar.

Ele queria chegar logo em Copacabana, queria aguardar o telefonema de Beatriz, ansiava pelo prometido jogo de xadrez.

Assim que adentrou em casa, percebeu que havia uma mensagem na Secretária.

“Julio, é Beatriz.Ligo novamente às 21h. Meu primeiro movimento vai ser: Peão E4.”

Cardoso sentiu uma leve excitação, o suficiente para estilhaçar seu gelo interior. Movimentou o Peão branco conforme a indicação da voz metalizada pela gravação e respondeu o seu movimento pelo [b]MSN.

Pontualmente, às 21h o telefone toca.

- Júlio, senti saudades de ouvi-lo durante o dia...

- Senhora, estou aceitando atendê-la com a melhor educação, mas não sou o Júlio. Por favor, creia! Não sou o Júlio.

- Preciso dizer uma coisa: eu me apaixonei por você naquela mesma noite em que nos conhecemos e dormimos juntos. Pode parecer absurdo, mas eu amo você. Vai insistir com esta brincadeira de dizer que não é o Júlio?!

Cardoso nunca havia vivenciado a experiência de escutar uma declaração de amor de outra mulher que não fosse sua mãe. Ficou abalado com a afirmação de Beatriz, não sabia mais o que pensar, o que dizer. Porém, sabia que não queria perder o contato, decidiu assumir a identidade de Júlio.

- Não irei mais dizer que não sou o Júlio. – Responde num tom baixo e trêmulo – Enviei meu lance pelo MSN conforme combinamos.

- Que bom que aceitou jogar comigo, Júlio. Vou vencê-lo, você vai ver. – Diz rindo.

- Acho improvável, jogo todos os dias.

- E eu jogo bem! – Novamente, retruca Beatriz com uma risada suave – Tenho que desligar. Verei sua resposta pelo MSN e amanhã ligo novamente para conversamos com calma. Eu amo você, Júlio.

- Obrigado. Você pode me deixar seu número? – Cardoso estava desorientado, mas queria ter uma ponte com a dona da voz.

- Você sabe que sou casada, Júlio. Prefiro ligar para você.

- Entendo... – Era a primeira pista que Cardoso recebia sobre Beatriz.

Quarta-feira, Cardoso acordou atrasado, dormira mal na noite anterior. Vestiu-se e pegou um táxi para a repartição. Chegou suado e afoito. Mendonça reparou na inquietude do colega.

- Tem mulher na área, não tem, meu velho?

- Apenas me atrasei, Mendonça.

Novamente, Cardoso deixou a mesa antes do fim do expediente, largou processos e papéis sem despachar. Estava ficando acorrentado àquela voz feminina e entusiasmado com a idéia de estar jogando xadrez com uma mulher desconhecida.

Entrou correndo pelo apartamento e sorriu em êxtase ao ver que havia uma nova mensagem na Caixa Postal do telefone.

“Júlio, jogue Rainha F3 pra mim, ta? Mais tarde quero ouvir você”

Cardoso moveu a peça e contra-atacou pelo MSN.

Às 21h, como esperado, o telefone anuncia a ligação

- Júlio, não vou poder falar muito, o meu Supervisor está no meu pé. Liguei pra dizer o quanto o amo e pra você saber que nunca o esqueço ou esquecerei. Recebi sua jogada e irei responder. Beijos, amor!

Cardoso não conseguiu dormir, estava obcecado pela voz, não conseguia pensar em mais nada, seu raciocínio estava trancado.

Quinta-feira, ele chegou ainda mais atrasado ao trabalho e foi embora ainda mais cedo do que nos outros dias. Os processos acumulavam-se sobre a mesa.

Subiu pela Santa Clara num só fôlego, escalou os andares pelas escadas, percorreu a sala sem verificar o serviço da Diarista e ligou a Secretária.

“Júlio, meu amor, Bispo C4. Na hora de sempre, eu ligo.”

Sem analisar, ele enviou sua defesa pelo MSN.

Beatriz não se atrasava, o telefone tocou.

- Júlio, vamos nos encontrar! Preciso vê-lo, beijá-lo. Vamos marcar amanhã, você pode?

Cardoso estremeceu diante da possibilidade de materializar aquela voz, temeu tornar real aquela entidade e lembrou que ele mesmo era um impostor naquela história.

- Não sei se devemos marcar um encontro, você é casada. – Cardoso tenta esquivar-se.

- Não pense nisso, eu amo você. Não suporto mais nem que meu marido me toque.

- Não sei... Talvez, você nem me reconheça, talvez eu não seja bem o que você viu naquela noite...

- Quero você, Júlio. Preciso de você!... Estou apaixonada pelo homem com quem falo todos os dias.

Marcaram sexta-feira e Cardoso escolheu não ir a repartição naquele dia. Estava ansioso e apreensivo. Combinou que trajaria um terno cinza e levaria uma surpresa para Beatriz na mão esquerda; ela disse que vestiria um tailleur branco e usaria um arco prendendo os cabelos. O encontro seria às 16h, em frente a C&A, na Nossa Senhora de Copacabana.

Nem um segundo a mais ou a menos, Cardoso estava postado de pé em frente à porta da loja exatamente às 16h, carregava um buquê de flores na mão esquerda, seria a surpresa para Beatriz. O terno cinza estava impecável.

Movia-se de modo a ficar bem próximo da entrada, o ar-condicionado trazia alívio para o calor sufocante da tarde. Ele tentava não transpirar para evitar desconstruir sua aparência engomada com desvelo.

Esperou por uma hora e meia, suas pernas ardiam de cansaço, muitas mulheres de tailleur branco passaram por ele sem que demonstrassem reconhecê-lo, as flores se transformaram num amontoado murcho em sua mão. Capitulou e retornou para casa, estava desolado.

Havia uma mensagem na Secretária, tinha sido deixada logo após ele ter saído para o encontro, teve esperança de que tudo se explicasse...

“Júlio, estou indo para Copacabana, não é longe e chegarei rápido. Encontro você onde marcamos. Anote meu último movimento, acho que você perdeu: Rainha F7.”

Cardoso pulou para o tabuleiro e deslizou a peça para as coordenadas fornecidas, seu Rei ficara encurralado. Fincou os olhos no enigma, imaginava poder decifrar a esfinge e libertar seu Rei...

Manteve-se colado ao tabuleiro até às 21h. Beatriz não se atrasava...

O telefone não tocava e ele permanecia inconformado, sugado pelo tabuleiro e pelo dilema do Rei Preto. Sua mente dissolvia-se na inconsistência do sono.

“Por que Beatriz não liga? Ela nunca atrasava.”

Deitou-se no sofá; continuava pensando, perto da inconsciência, numa impossível solução para o impasse do seu Rei. Beatriz não ligou.

“O que poderia ter acontecido? Ela jamais atrasou...”

Adormeceu quase num desmaio. Tudo cessou, menos o silêncio oco do apartamento e o brilho vítreo das peças de marfim sobre o tabuleiro de cristal.

Xeque-Mate!...


Este texto é administrado por: Alexandre Coslei
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