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A palavra Áurea, que vem do latim Aurum, é uma expressão de uso simbólico para significar "feito de ouro", brilhante, magnífico, nobre ou "de muito valor" e luz. Por força deste sentimento, o dia 13 de maio era considerado data cívica no Brasil.
O decreto de 14 de janeiro de 1890, estabeleceu um feriado nacional em 13 de maio, declarando-o "Consagrado a comemoração da fraternidade dos brasileiros", mas foi extinto em 15 de dezembro de 1930, revogado por Getúlio Vargas, que desconhecia a verdadeira importância deste dia (triste e feliz) para o povo brasileiro, em compensação “no ano de 1934, Getúlio Vargas, em ato presidencial, retirou a capoeira e outras manifestações como o candomblé do Código Penal brasileiro.” (CARNEIRO, 1937, p. 159-160).
Apesar de serem cidadãos, os negros continuavam sem os direitos nescessários para a liberdade real, assim, mesmo considerados livres, para onde ir? Quando eram escravos ao menos tinham comida e teto. Um dos primeiros equívocos dos governantes brasileiros foi não montar uma extrategia pós Lei Áurea! Com a liberdade, os novos brasileiros ficaram à mercê de um Brasil egoísta, que de imediato foram substituidos por imigrantes que chegavam ao país a procura dos mesmos ideais daqueles que já estavam aqui, e não tiveram a oportunidade, tanto quanto os outros. Foram trocados como se não tivesem contribuído com o nosso país, não lhe ofereçeram nenhuma oportunidade para garantir o pão de cada dia e tampouco um espaço para cultuar suas crenças. Pessoas tão sofridas por uma escravidão vergonhosa e derradeira que mutilou o país, deixando um rastro de corvadia e trairagem dos diversos governantes.
Segundo a previsão do Conselheiro Antônio Prado, “decretada de afogadilho a “Lei 13 de maio”, seus efeitos foram os mais desastrosos. Os ex-escravos, habituados à tutela e curatela de seus ex-senhores, debandaram em grande parte das fazendas e foram "tentar a vida" nas cidades; tentame aquele que consistia em: aguardente aos litros, miséria, crimes, enfermidades e morte prematura. Dois anos depois do decreto da lei, talvez metade do novo elemento livre havia já desaparecido.”
De herança deste ato irresponsável, desumano e macabro, brasileiros ao relento sem direito à nada. O Brasil agoniza até agora com fileiras de pessoas a procura de qualquer vaga de tabalho, sem alimentação, teto, saúde e educação. Hoje estamos vivendo em um verdadeiro caos, o desemprego atinge 13,5 milhões de brasileiros embalando a violência generalizada, sem nenhum referencial politico, aguardando um herói, um nome, sabe lá quem para nos ajudar a combater a má fé dos nossos representantes, que estão unidos com um único objetivo: tirar a nossa dignidade, nossos sonhos, roubando tudo que encontram pela frente, verdadeiras ratazanas! Com todo respeito ao instinto dos animais. “Pobre do povo que precisa de herói” (BRECHT)
Depois de 7 anos de assinada a Lei Áurea pela “Redentora”, a Princesa Isabel, em março de 1895, o Brasil reata as relações diplomáticas com Portugal. Em Abril do mesmo ano aconteceu o primeiro jogo de futebol, o esporte bretão na Várzea do Carmo na cidade de São Paulo. Foi quando nasceu Manoel Henrique Pereira, filho de Maria José Haifa e João Matos Pereira, conhecido como João Grosso, baianos da cidade de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo baiano.
Figura mitológica da capoeiragem teve a sua imagem deturpada, sendo comparado aos malandros e vadios. Por conta da negritude, sua vida não tinha valor nenhum, confirmando o que paira sobre a ordem do crescimento intelectual do brasileiro (branco e com recursos), a desconstrução da imagem do negro, fato lamentável para uma nação de mestiços metidos à bestas. Besouro não tinha medo de polícia nem de patrão, e principalmente de valentão, por isso foi tratado como fora da lei, descriminado por falta de classe.
Manoel Henrique aprendeu capoeira com o mestre Alípio, que foi cativo do Engenho Pantaleão, onde levou boa parte de sua vida no sofrimento da escravidão, até ser beneficiado com a Lei de 1888. Tio Alípio conheceu Manoel ainda menino no bairro trapiche de baixo, um dos mais pobres da cidade, os ensinamentos aconteciam no descampado entre plantações e canaviais durante o período de abundâncias da cana-de-açúcar em Santo Amaro, terra da capoeira que teve importante papel no cenário econômico baiano, a produção era escoada através das embarcações que navegavam pelo rio Subaé até as águas da baia de todos os santos, levando as mercadorias até o porto de Salvador.
Com apenas 13 anos de idade, Manoel Henrique saiu de casa para enfrentar a vida de frente, aprendeu as profissões de vaqueiro e amansador de burro brabo, e depois foi servir no Exército Brasileiro. Durante o desenvolvimento de sua precoce vida exercia, além da prática da capoeira, o jogo de faca e facão e fazia reza forte, a mesma lhe protegia dos perigos, conforme o aprendizado de seu mentor Tio, mestre e babalorixá.
Quem treina capoeira recebe apelido do mestre, que fica pra vida toda, sendo o nome de guerra, e o de Manoel Henrique é Besouro Mangagá. Desde pequeno que Manoel achava interessante aquele bicho cascudo poder voar, com o passar do tempo, vem os registros policiais e a certeza das pessoas que diziam que ele, quando se encontrava acuado, transformava-se em bananeira ou saía voando, legitimando assim a sua habilidade. Falavam que ele tinha poderes sobrenaturais, como se fosse uma mutação, “não penetrava no seu corpo metais tipo bala de revolver e nem lâminas de punhais, facas e facões, Besouro era protegido de Ogum, orixá ligado a Exu, senhor do ferro e carregava um patuá! Tinha o corpo fechado”.
Dentre os familiares de Besouro, tem o seu irmão, o Barbeiro, pra contar suas histórias, e também o seu primo, que se destacou no cenário da capoeira, mestre Cobrinha Verde, do qual tive o prazer de conhecer em 1980 durante o 1º Seminário Regional de Capoeira de Salvador, na Biblioteca Municipal dos Barris. “Quando eu era rapaz, lá em Salvador, participei de um seminário, que teve muito valor,conheci muitos mestres, teve um que se destacou, seu apelido era Cobrinha, Cobrinha Verde sim senhor”, (PRADO, Otrivial da Capoeia 1998).
Fazíamos parte do mesmo grupo de trabalho chamado de gt2, que durante as nossas conversas Mestre Cobrinha Verde me falou “Alípio, apelido tio Alípio, era africano e foi o mestre de Besouro o capoeirista mais famoso de Santo Amaro que era seu primo carnal e irmão de leite e de criação e que seu Mestre de capoeira foi Tio Alípio, Chegou acorrentado pra trabalhar no engenho pantaleão”. Aluno e irmão de leite da “lenda”, Rafael Alves França recebe o apelido de Cobrinha-verde de Besouro, devido à sua soltura e sagacidade com as pernas, um dos poucos conhecedores do jogo de “Santa Maria”, nesse toque de berimbau os capoeiras jogavam com navalhas nos pés. Aluno de Besouro mangangá Cobrinha Verde, viveu entre 1917 e 1983, e foi um dos mais temidos e respeitados capoeiristas de sua época.
“Quando eu morrer me enterre na Lapinha
Quando eu morrer me enterre na Lapinha
Calça, culote, paletó, almofadinha (...)
Adeus Bahia, zum-zum-zum, cordão de ouro,
Eu vou partir porque mataram meu Besouro” Paulo César Pinheiro.
Com o passar do tempo o nome Besouro tornou-se uma representação única da capoeira, Ficou respeitado por todos os capoeiristas, seis anos depois da sua morte foi referenciado nos anos 1930, década de grandes acontecimentos capoeiristicos, inclusive o período serviu como divisor de águas na história da capoeira, foi quando o Rio de Janeiro saiu do cenário capoeiristico, dando espaço para a Bahia, que assume o comando literalmente! Dessa data em diante, principalmente pelo fato do novo, a Regional Baiana do Mestre Bimba, que ditou a seguinte regra involuntariamente: “quem não fosse da Regional baiana transformou-se em Angoleiro”, neste contexto, Besouro marcou e continuou marcando presença em todas as rodas através das cantigas, quadras, corridos e ladainhas com o seu nome como esta de Domínio público: “Ô me dá meu dinheiro, Ô me dá meu dinheiro valentão, (…) porque no meu dinheiro miguem poe a mão, (…) que lhe dou uma rasteira e derruba no chão.”
Sendo cantado em todas as rodas e terreiros do Brasil, ainda por volta de 1930 a capoeira se expande mundo a fora, mesmo sem estar pronta para ser exportada, foi enlatada e vendida para os estrangeiros, e começou a ser “ensinada” em outros países. Meio à estes acontecimentos, já era fato o zum zum zum! Já se ouvia falar no Tal de Besouro Mangangá.
Na conjunção da existência de Besouro com 29 anos de idade e 16 de capoeira, era contemporâneo de Siri de Mangue, Canário Pardo e Doze Homens, e outros com destaque fundamental para o capoeira, Vicente Joaquim Ferreira, o mestre Pastinha, que recebeu posteriormente o título de guardião da capoeira Angola. Ele foi marinheiro, segundo Dr. Decanio, “mestre Pastinha, foi o primeiro capoeirista popular a analisar a capoeira como filosofia e a se preocupar com os aspectos éticos e educacionais de sua prática”.
O xará de Bezouro (nomes de origem portuguesa?), Seu Manoel do Reis Machado, o Mestre Bimba, que neste momento estava desenvolvendo a Regional baiana:
“Após nove anos de capoeira, o mestre Bimba em 1920, com 21 anos, começou a elaborar e a organizar o seu estilo. Isso quer dizer que o mestre Bimba levou mais ou menos 10 (dez) anos para desenvolver a regional baiana com todo método de ensino, usando a capoeira que se fazia naquela época” [...] (PRADO, Otrivial da Capoeia, 1998).
Assim como a maioria dos capoeiristas da época (Negro, pobre e macumbeiro), com Besouro não poderia ser diferente, o mesmo tinha problemas com a polícia. Existem registros sobre os confrontos entre Besouro e militares, como o ocorrido em 1918, quando ele teria ido à delegacia policial no bairro de São Caetano em Salvador. A prática da capoeira era proibida, Besouro tinha 23 anos nesta conduta. Entre outros pertences, foi aprendido um berimbau, intrumento proibido à época .
“Aos dez dias de setembro de mil novecentos e dezoito,nesta capital do estado da Bahia (…) Argeu Cláudio de Souza, com vinte e três anos de idade, solteiro, natural deste estado, praça do primeiro batalhão da brigada policial (…)foi interrogado pelo doutor delegado que lhe perguntou o seguinte:como foi feita a agressão de que foi vítima no posto policial de São Caetano? (…) Ali apareceu um indivíduo mal trajado,e encostando-se a janela central do referido posto,durante uns cinco minutos, em atitude de quem observava alguma coisa,que decorrido este tempo, o dito indivíduo interpelando o respondente,pediu-lhe um berimbau que se achava exposto juntamente com armas apreendidas”…. (PIRES, UFT, 2002)
Doutor Zeca, fazendeiro, querendo vingar a surra que seu filho Memeu teria levado de Besouro, aproveitando que o vaqueiro era analfabeto, lhe deu a missão de levar um bilhete até o administrador da usina Maracangalha, cujo nome é Senhor Baltazar, que após ter lido os escritos, percebeu que na verdade se tratava de um pedido para dar cabo da vida do mensageiro. Então avisaram Besouro para pernoitar por ali mesmo. A resposta só foi dada no dia seguinte. Lógico, já sabendo das habilidades do rapaz, seria preciso de um tempo para preparar a emboscada.
No outro dia, quando Besouro foi receber a resposta do bilhete, já foi recepcionado por vários capangas que atiravam de todos os lados, mesmo assim conseguiu se livrar dos tiros como já era esperado, quando foi surpreendido pelo senhor Eusébio da Quibaca, traiçoeiro e conhecedor das rezas e das mandingas, aplica pelas costas com um golpe certeiro de faca confeccionada com tucum (um tipo de madeira cuja utilidade é matar homem que tem o corpo fechado). Besouro, mesmo ferido, fugiu de barco até à Santa Casa de Misericórdia em Santo Amaro, episódio que foi visto por várias pessoas.
As últimas horas de vida de um homem valente que se transforma em uma lenda. A mãe do cantor e compositor, CaetanoVeloso, Dona Canô, presenciou Besouro sendo levado ao hospital ensanguentado. A certidão de óbito de Manoel Henrique Pereira encontra-se guardada no arquivo Público da Prefeitura Municipal de Santo Amaro da Purificação – BA.
Trechos do documento: Manoel Henrique, mulato escuro, solteiro, 29 anos, natural de Urupi, residente de Santo Amaro, profissão vaqueiro, entrou no dia 8 de Julho de 1924 às 10 e meia horas do dia, falecendo às sete horas da noite, de um ferimento perfuro-inciso do abdómen.
Mangangá se foi mais deixou o seu legado: “Cobrinha verde grande mestre, ensinou a um cidadão,conhecido como mestre Gato do engenho velho da federação, passando pra Macelino o que lhe foi ensinado: reza forte, jogo de santa maria, mandigas, Com mestre Marcelino Três amigos foi fundado, ensinvam a capoeira, como era feita no passado”. (PRADO, Otrivial da Capoeia 1998).
Além dos seus discípulos espalhados pelo Brasil e à fora, Besouro teve e vem recebendo várias homenagens, inclusive extra capoeira: filme brasileiro de outubro de 2009, que retrata a passagem de sua vida, Huen Chiu Ku, coreógrafo em Kill Bill, é o responsável pelas cenas de luta do filme, Se eles tivessem usado a capoeira na sua totalidade não seria necessário tantos efeitos especiais.
“Depois que ficou de corpo fechado as balas e os punhais não o feriam e apesar de ser inimigo da polícia não era bandido. Besouro era honesto e trabalhador, Nunca foi preso por roubo, furto ou atividade criminosa” “Jorge Amado o retratou no livro “Mar Morto”, publicado nos anos trinta. Elis Regina o imortalizou com sua voz e João Daniel Tikhomiroff lançou um filme contando a vida deste herói que aprendeu capoeira na Rua do Trapiche de Baixo” (FILHOS INLUSTRES DA BAHIA).
O filme conta fatos interesantes da história do Brasil, a mesma ensinada em nossas escolas, mostrou a capoeira: criada em terras brasileiras com a nescessidade de direitos de igualdade para o povo pobre, nossa primeira atividade de prazer, seja no lúdico ou no esporte. “Quem nunca ouviu falar no Besouro mangangá?”, agora viu e ouviu a passagem de um dos nossos guerrreiros, representando o nosso povo, que durante muito tempo sofre com a insistência de “quererem” que o pobre continue pobre e o rico mais rico ainda, se não bastasse a escravidão, matança do negro e do índio. Passamos por uma limpeza que suja nossa moral, tanto nos cofres públicos quanto nos políticos. Chega de tanta coisa ruim para nossa gente! Basta de descriminação, e ainda temos que aturar esse bando de ladrões.
As palavras se ajudam, Lei Áurea e Cordão de Ouro, com o mesmo significado que simboliza o graduamento máximo dos capoeiristas, sendo um título de honra. Inclusive, a Confederação Brasileira de Capoeira faz uso do título máximo dentro do seu Conselho Superior de Mestres, que foi ofertado aos saudosos Mestres Bimba e Mestre Pastinha.
Se passaram 98 anos que Besouro se foi, e até hoje se ouve falar na sua história, com desconfiança da sua real existência, acreditam que ele foi uma lenda. Manoel Henrique faleceu com 29 anos. Pense num Cabra valente, forte, ágil, certeiro, confiante e inteligente, com “agravantes”: Capoeirista, Ogum na proteção, e usava um Patuá. Foi um homen que a história relata que teve o corpo fechado.
Salve Besouro Preto!
Quanto a lei Áurea são 129 anos e não temos o que comemorar, principalmente pela situação que o país viveu nestes anos: problemas na educação, saúde, transporte, alimentação, moradia e desemprego… somando estas mazelas, as mesmas formam um quadro de miséria que atribuímos boa parte à responsabilidade dos políticos larápios, indicados pelo próprio povo, que com o passar do tempo fica mais pobre. Lamentável.
Quem pode mudar este quadro somos nós mesmos, através da família, educação e luta pacífica e coesa, porém altamente determinada em transformar realmente o Brasil no País do futuro.
Bibliografia
REIS; dos Santos, Fábio Josué Souza (org). Recôncavo da Bahia: Educação, Cultura e Sociedade. Bahia: UFRB, 2007, pág. 47 e 48
PIRES, António Liberac Cardoso Simões. Bimba, Pastinha e Besouro de Mangangá. Três personagens da capoeira baiana. Goiânia/Tocantins: UFT, 2002, pág. 32
PRADO; Paulo César Almeida do. O Trivial da Capoeira. Araújo Gama Editorial,1998, 144p. Aju, SE
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa - Significado de Áurea». Consultado em 4 de maio de 2017
PEREIRA DE SOUZA, Everardo Vallim, Reminiscências em torno do Antônio da Silva Prado, jornal O Estado de S. Paulo, 26 de fevereiro de 1940, transcrito em 1.º Centenário do Conselheiro Antônio Prado, Editora Revista dos Tribunais, São Paulo, 1946.
FILHO, Angelo A. Decanio. A herança de Pastinha a Metafisica da capoeira comentarios de trechos selecionados do mestre – 1996.
Economia - iG @ http://economia.ig.com.br/2017-03-31/desemprego-dados-ibge.html
Brazil-Portugal O Paiz (17 de março de 1895). Ano XI, n° 3819
Página oficial de "Besouro, o Filme" www.besouroofilme.com.br
PortalCapoeira.com; Naturais de Santo Amaro; Brasileiros Mortos.
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