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O que tenho, não precisa me roubar...
Todo dia, quando acordo, lanço ao ar
as palavras que desadormeceram,
ainda virgens de pó e fuligem;
saem como borboletas envaidecidas
pelo som da vida
a lhe andar nas veias,
se lançam
mesmo que à volta aranhas teçam teias...
O que tenho não é meu...
É só um fio de luz que estendo
entre o silêncio e o canto,
como fosse uma ponte
entre a placidez e o espanto...
O que possuo me possui
como fosse eu uma parede erguida sem prumo,
buscando a alma do navio que passa,
sua rota, seu desejo de ir, seu fumo...
O que tenho me foi dado em comodato,
é como comida no prato
que se vai
depois que a fome chega,
fome de quem me criou,
o viver mágico,
última ceia...
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