Login
E-mail
Senha
|Esqueceu a senha?|

  Editora


www.komedi.com.br
tel.:(19)3234.4864
 
  Texto selecionado
Barroco Mineiro
Cláudio Thomás Bornstein

Barroco Mineiro

“Eu sou um homem rural!” A expressão soava meio deslocada nos corredores da repartição, pilhas de papeis sobre as mesas, arquivos, pastas e computadores. Depois explicou melhor. Vinha de uma cidadezinha pequena nas cercanias de Ouro Preto. E com o olhar saudoso falou da mãe, dos irmãos, do antigo casarão, do velho armazém de secos e molhados, do jogo de bola de gude no pátio do colégio e dos cochichos do padre com a viúva no confessionário.

Barroco mineiro foi como eu o apelidei pelos volteios da conversa, pelas sinuosidades do pensamento. Ele não gostou. Devia preferir-se gótico, mais para cardeal do que para Aleijadinho. Falava palavras difíceis, expressões empoladas, frequentemente arcaísmos e ficava olhando de lado, estudando o efeito. Gostava de sentir-se centro, gostava que se lhe reconhecesse a importância e era dado a mesuras, rapapés e reverências. Tudo que dizia se enchia logo de esplendor. Como se acreditava de esquerda, procurava ressaltar o seu lado simples e popular, mas fazia-o com tal pompa que água transformava-se em champanha e areia em ouro em pó.

Uma vez, nas minhas andanças por Minas Gerais, tive oportunidade de visitar a cidadezinha onde o Alves tinha se criado. Achei que ia propiciar-lhe uma alegria não só pela deferência, pela lembrança e pela atenção como também pelas notícias e novidades que eu ia trazer de lá. Na parte velha da cidade, que se resumia a uma colina coroada pela igrejinha, fui fazer a minha busca. Infelizmente não consegui encontrar a viúva nova e bonita, nem o padre, mesmo porque talvez os dois já devessem estar longe e juntos, ou, mais realisticamente, já devessem estar a muito separados, espalhados por aí, cada um por um canto, mas no pergunta daqui, pergunta dacolá, acabei descobrindo o velho armazém. Estranhei a porta meio encostada, mas bati assim mesmo. Uma voz mandou-me entrar. Na penumbra demorei a enxergar os dois velhinhos sentados em tamboretes de madeira, debruçados sobre o balcão. As prateleiras estavam quase vazias. Aqui e ali, garrafas de refrigerante, pinga, conhaque, embalagens de biscoito e batata frita. Uma geladeira devia ter cerveja, mas não abri para conferir. Apresentei-me, falei o nome do amigo, mas torpor, modorra e silêncio pouco foram afetados pelas palavras. Eu olhava em volta, as prateleiras empoeiradas, teias de aranha pelos cantos, a penumbra e o cheiro de mofo misturado com creolina. Eles devem ter sentido o incômodo, porque só depois de uma longa pausa foi que surgiu o comentário: “É, deve estar no bem bom lá no Rio de Janeiro. Há muito que não aparece. Na certa se esqueceu de nós.” Fiquei sem jeito e a conversa acabou morrendo. Restou um silêncio incômodo e resolvi me despedir não sem antes perguntar pelo velho casarão. Um irmão ainda morava por lá.

A conversa com o irmão não foi muito melhor e também o velho casarão não devia estar em melhor estado que o armazém porque o irmão nem mandou entrar. Ficamos conversando na soleira da porta. Não serviu café, não ofereceu bolo, nem ao menos uma fatia de queijo. Nas entrelinhas, nas pausas e nos silêncios ia se esgueirando o ressentimento, o azedume e o acabrunhamento.

De volta ao Rio procurei o Alves. Achei que ao menos ia ficar contente com a deferência e a atenção. Mas o Alves não era bobo. Às primeiras palavra percebeu o descompasso e a desproporção entre sonho e realidade. A cabeça foi baixando, o sorriso amarelou e as costas foram se encurvando, sob o peso dos pensamentos.


Biografia:
Para mais informações visite o blog CAUSOS em www.ctbornst.blogspot.com.br. Querendo fazer comentários, mande e-mail para ctbornst@cos.ufrj.br
Número de vezes que este texto foi lido: 65000


Outros títulos do mesmo autor

Contos Amante e cunhado (segunda versão) Cláudio Thomás Bornstein
Crônicas Xarope de guaco e caos Cláudio Thomás Bornstein
Crônicas Sobre os limites da passividade Cláudio Thomás Bornstein
Crônicas Brasileiro Cláudio Thomás Bornstein
Crônicas Faixa de ginástica Cláudio Thomás Bornstein
Crônicas Ame o seu próximo Cláudio Thomás Bornstein
Crônicas Tirem-me daqui! Cláudio Thomás Bornstein
Crônicas Mondo Cane Cláudio Thomás Bornstein
Crônicas Motorista de Uber Cláudio Thomás Bornstein
Crônicas Disparates na sapataria Cláudio Thomás Bornstein

Páginas: Próxima Última

Publicações de número 1 até 10 de um total de 92.


escrita@komedi.com.br © 2026
 
  Textos mais lidos
MEU DENTE CAIU - ELÁDIA CRISTINA TEIXEIRA DOS SANTOS 69706 Visitas
SONHANDO EM ALFA CENTAURO - Luciane Vasconcellos Néglia 69577 Visitas
Vivo com.. - 69536 Visitas
A RIMA DO REINO ANIMAL - Simone Viçoza 69397 Visitas
MENINA - 69260 Visitas
Lamparina - P Corrêa 68460 Visitas
Namorados - Luiz Edmundo Alves 67634 Visitas
X Congresso de Direito Tributário - Terezinha Tarcitano 67587 Visitas
O pseudodemocrático prêmio literário Portugal Telecom - R.Roldan-Roldan 67495 Visitas
Você nunca vai saber - Roberta Yoshino 67400 Visitas

Páginas: Próxima Última