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A vida não é um conto de fadas
Cláudio Thomás Bornstein

Huginho, Zezinho e Luizinho certamente aprontaram. Na longa-curta vida armaram muitas e boas, outras não tão boas assim. O Huginho, por exemplo, já se foi faz tempo. Morreu de AIDS, ou então, foi overdose, crack na veia ou pico.

A guisa de explicação eu diria que foram criados sem amor, mas sinceramente acho que isto nada mais é do que um estereótipo. Aliás, preconceito é este negócio de ter que dar explicação, encontrar a causa, botar a culpa. Se a Benedita era só gritos, palavrão e descompostura isto prova o que? É muito fácil culpar a mãe. Vá você criar seis filhos, roupa lavada, conseguir comida para o almoço e a janta, arrumar a casa, levar os filhos na escola, e ainda por cima, ser carinhosa, ter paciência e tempo para as crianças.

Morava todo mundo num quarto e sala com a televisão ligada dia e noite. Dormiam espalhados pelo chão.

Benedita gostava de homem bonito, desempenado, de preferência claro, mais claro do que ela. Teve muitos. Com cada um fez um filho que era para levar alguma coisa de recordação. O último eu conheci bem. Morreu na praça, num banco de jardim. Era chegado a um baseado e "otras cositas más".

Zézinho e Luizinho andaram sumidos. Deviam estar em uma destas crackolândias, sem coragem para voltar. Ou então estavam em um centro de detenção ou recuperação, compondo o círculo vicioso que alterna a droga livre com a droga confinada. Droga livre conseguida no espaço confinado e droga confinada no espaço livre. Triste paradoxo!

Para garantir o dinheiro das pedrinhas, andavam praticando pequenos furtos. Até meu filho eles pegaram e o encostaram num canto da Praça Tiradentes. “Poxa Zezinho, sou teu vizinho. A gente se conhece.” “Não tem conversa, passa o celular”. E ameaçava com o caco da garrafa quebrado. Mas a amizade deve ter valido para alguma coisa porque deixaram a mochila e uns trocados.

Na vizinhança também andaram aprontando. Em uma casa escalaram o muro, na outra forçaram a porta. Na minha casa, facilitei demais. Deixei a porta aberta e até que para a bobeira, levaram pouco: duas bicicletas e uma máquina fotográfica.

O lance mais interessante foi com o Luizinho. Andava ele e o irmão de braços dados com o crack, noite e dia. De longe a gente via as pequenas faíscas das pedrinhas, o isqueiro emborcado sobre a tampa perfurada de Guaravita, a cabeça inclinada sobre o copo, a boca sorvendo o fumo inebriante por um canto levantado do alumínio. A nóia, o constante olhar em volta, em cima, em baixo, de um lado e do outro, a cabeça quase dando nó de tanto círculo, já denunciavam, de longe, o que eles procuravam esconder, de perto. Estavam nesta vida, quando, um dia, Luizinho apareceu com um travesti. Era bem mais velho do que ele, pouco vistoso, já estava meio gasto pela vida. Seja como for, Luizinho e o travesti andavam grudados se agarrando e era clara a tara, o rapaz-moça freqüentando a casa do menino, Benedita aceitou, tinha mais um ajudante para empurrar o carrinho de comida que ultimamente garantia o sustento da família e a moça-rapaz, que acho que era manicure, ou pedicuro, por uns dias até montou salão de beleza na nova casa.

Luizinho largou o crack. Andava penteado, perfumado, roupa estalando de nova, celular na mão, tênis limpo, pisando firme. O que não faz o amor, foi o que eu pensei. Dois marginalizados, à toa, pisados pela vida, desprezados por tudo e por todos. Aí vem o amor que tudo pode, e une e salva. Que lindo!

Puro romantismo. A vida não é um conto de fadas e as coisas são mais complicadas do que aquilo, pouco, que cabe na cabeça de um intelectual. De tórrido, o amor passou a quente, depois morno e, finalmente esfriou. Ficaram os negócios, os dois servindo cachorro quente na barraca da Benedita. Depois, sem o cimento do amor, vieram as desavenças, o negócio terminou e voltou tudo à forma antiga.


Biografia:
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