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NO RIO ANTIGO, O BONDE
Rubemar Costa Alves

Era devagar, devagarinho, num tempo de menor pressa, mas sempre chegava ao seu destino.
          Recentemente, as novelas LADO A LADO e JÓIA RARA fizeram saltar o coração saudoso dos usuários ‘daquele tempo’, o tempo do ser feliz ainda sem muita briga e muita bronca. Nunca se escutou falar de violência e matanças envolvendo condutores e passageiros, comuns hoje em dia.      
          Bom, me contaram uma estória. Linha 66, da praça XV, no centro, a Tijuca, menina morava em Catumbi, pegava o bonde no meio do trajeto, chegou atrasada na escola, bateu no portão, o bonde atropelara um burro da carroça de lixo e houve demora na remoção do ‘cadáver’. Pronto, foi educadinha em explicar e falou difícil – não deixaram entrar. “Ótimo!” (ELA teria terríveis-temíveis aulas de educação física, matemática e......... latim.) Num outro dia, bonde atropelou um cavalo do quartel da polícia militar, mesmíssimo local – deixaram entrar! “Ótimo!” (Teve deliciosas aulas de português, inglês e francês!!!)
        Piada carioca de que “tudo na vida é passageiro, menos o cobrador e o motorneiro”.
        Batalhas de confete, namoro começado no bonde e quedas ao descer com o veículo em movimento.
          A menina cresceu, primeiro emprego, resolveu voltar para casa de bonde para ler um livro com calma. Muita gente esperando, mas havia um intervalo entre as pessoas, o bonde dela veio, tropeçou numa trouxa enorme de roupa no chão, caiu, foi xingada por uma lavadeira profissional, custou a levantar e ir junto com a multidão... perdeu “aquele” exato bonde, horário certinho para a radionovela noturna em casa.
          Bondes inspiraram músicas: “Seu condutor”, de Murilo Alvarenga (da famosa dupla Alvarenga & Ranchinho) e Herivelto Martins – “O bonde São Januário”, de Wilson Batista e Ataulfo Alves.
          Quase cem linhas de bonde, delicioso veículo democrático sobre 400 quilômetros de trilhos, desativadas gradativamente até 1967. Numa pesquisa, li que em 1962 havia 600 bondes e um total de 84 mil quilômetros de trilhos em toda a cidade. No Rio de Janeiro, terra do super verão (inverno com média mínima em torno de 15 graus!), eram abertos, cortininhas suspensas e amarradas nos dias sem chuva. Explode, coração: dava para flertar e namorar. Dizem que, no começo do século XIX, havia para as moças a linguagem das flores e para os rapazes a linguagem da posição da bengala, mesmo subindo ou dentro do bonde.
          Virada de urbanidade. A cidade evoluía, agora urbanização maior nas áreas menos povoadas, em paralelo novos trilhos para nova linha de bonde – antigas chácaras loteadas... surgiam novos bairros.
          Tudo começou em 1859, com a Companhia de Carris de Ferro da Tijuca estreando uma viagem de bonde entre o largo do Rocio (atual praça Tiradentes, centro da cidade) e um local próximo à Usina, no bairro da Tijuca (zona norte), veículos ingleses com tração animal; em 1892, a Companhia Ferro Carril do Jardim Botânico, que tinha linhas pela zona sul, substituiu os burros por energia termelétrica, usina geradora de vapor no bairro do Flamengo, perto do centro; em 1905 /dia 30 de maio/, a Light se instalou no Rio, construiu a Usina Hidrelétrica de Fontes e dois anos depois distribuiu energia à cidade e eletrificou todos os bondes: medo das pessoas, mas não, não dava choque nem causava danos à saúde! Inicialmente apenas um carro (como apareceu nas novelas televisivas em cenário de Rio Antigo), depois outro e um reboque. Havia os chamados “bondes ceroulas” porque os bancos eram cobertos por capas de brim branco para não sujar as roupas elegantes dos frequentadores do antigo Teatro Lírico e do Municipal; os “bondes caradura” eram de segunda classe e mais baratos; o “taioba” era o bonde-bagageiro, assim como havia o “bonde-assistência”, o “bonde-correio”, o “bonde para casamento” e outros. Anos passaram, em 1938 aumento para 980 bondes circulando na década de 40, um milhão de passageiros por dia – a integração das linhas era na (extinta) Galeria Cruzeiro, no Hotel Avenida (hoje Edifício Avenida Central), quem vinha da zona sul pegava outro bonde para a zona norte.
          Assim como o povo, MACHADO DE ASSIS encantou-se em 1883, quando pela primeira vez viu um bonde elétrico – gracejou em sua característica ironia, e elaborou 10 regras bem humoradas de como se comportar dentro do veículo.
          No carnaval, bondes ficavam superlotados com foliões fantasiados. Consta que o início foi em 1928, batalha de confete em homenagem a um veterano motorneiro do bonde São Januário, quando então surgiu a frase de “tudo na vida é...............” – “Justo, muito justo, justíssimo”, como diria o ‘santeiro’ JOSÉ WILKER.
          Nos anos 50, início do declínio do serviço de bondes, mais lentos e dificultando o tráfego no centro da cidade – ônibus surgindo, novo meio de transporte coletivo. A despedida simbólica foi no dia 1/3/63 com um carro da linha 13 (Ipanema) na última viagem, ao som de Cidade Maravilhosa pela banda da Polícia Militar, na presença de intelectuais, artistas, boêmios da zona sul e interessados – num curto período, trólebus (ônibus elétricos) ainda aproveitaram os cabos de energia elétrica, circulando pela turística e atraente zona sul. Na zona norte, pelo motivo de “400 anos” da agora cidade-estado, inauguração em janeiro de 1965 de um serviço turístico de bondes entre a praça da Bandeira e o Alto da Boa Vista, dez carros com bancos longitudinais, pintados de prateado e azul, logo ’cariocamente’ apelidados de Rita Pavone, cantora italiana de muito sucesso que usava suspensórios – extinção desta linha em dezembro.
          Aposta no Rio. Existe ainda a idéia romântica e saudosista de bondes modernos e leves sobre os trilhos, no mínimo como atração turística.
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NOTA DO AUTOR:       
O BONDE influiu até na linguagem, surgindo expressões populares como “comprar um bonde, pegar o bonde andando, pegar o bonde errado, puxar um bonde, saltar do bonde em movimento, perder o bonde da história”...
FONTES:
“Quarenta anos depois, bondes ainda resistem na memória dos cariocas” – Jornal O GLOBO, Rio, 24/9/06. // “Trilhos que fizeram história” – Revista NÓS DA ESCOLA, número 52/2007.

                   F I M





Biografia:
PARVUS IN MUNDUS EST. (O MUNDO É PEQUENO DENTRO DE UM LIVRO) Ser dedicado, paciente, ousado, crítico, desafiador e sobretudo enlighned são adjetivos de um homem cosmopolita que gostaria de viver mais duzentos, ou quem sabe trezentos anos para continuar aprendendo e ensinando. Muitos de nós acreditam que uma vida de setenta, oitenta anos é muito longa, contudo refuto esse pensamento, pois estas pessoas não sabem do que estão falando. Sempre é tempo de aprender, esquadrinhar opiniões, defender, contestar ou apoiar teses, seguir uma corrente filosófica (no meu caso, a corrente kantiana), não necessariamente crer num ser superior, mas admirar e respeitar quem acredita nele. Entender a diversidade de costumes e culturas denominados de forma polissêmica nas diferentes partes do mundo, falar um ou dois idiomas, se perguntar o porquê e tentar encontrar respostas para as guerras, a segregação racial, as diferenças étnicas, o fanatismo religioso, o avanço tecnológico, o entendimento político. Enfim, apenas estes temas já levaria uma vida para se ter uma compreensão média. A leitura é o oráculo para estas informações, é ela que torna o mundo cada vez menor capaz de se acomodar nas páginas de um livro. É por isso que se diz que não há fronteiras para quem lê. Atualmente as pessoas confundem Balzac com anti-inflamatório, Borges com azeite, Camilo Castelo Branco com rodovia estadual, Lima Barreto com laranja de determinado município paulista, Aristóteles com marca de carro e por aí vai. Embora, eu tenha dissertado sobre o conhecimento culto, os meus trabalhos publicados aqui demonstram o dia a dia das pessoas comuns narrados através de divertidas e curiosas estórias. Meu público alvo são as mulheres. É para elas que escrevo, pois são elas possuidoras de sensibilidade capaz de entender o conteúdo do meu trabalho.
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