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Trabalha, Negro, Canta e Dança
Orlando Batista dos Santos

Ninguém duvida que foram os negros quem construíram o Brasil. O trabalho, que hoje “dignifica o homem”, antigamente era tido como humilhante, condição que os “homens bons” jamais poderiam aceitar. E se o negro construiu o Brasil, construi também Minas Gerais, observação necessária, já que a História insiste em omitir, esconder a importância do negro naquele Estado que teve quilombos e uma monarquia não branca, representada por Ambrósio, tendo como súditos, negros fugidos das minas e dos engenhos, negros forros, índios “mansos”, brancos pobres (os pés-rapados) e toda uma gama de mestiços. Tal qual Palmares, os quilombos mineiros foram atacados e, tal qual Palmares, foram destruídos com vigor e crueldade.
No Brasil, além do exercício do trabalho rude, o negro desenvolveu pendores para as artes e para as manifestações rítmicas de sua alma, pois sem ritmo não há vida. E fez do canto e da dança um remédio para compensar seus sofrimentos.
Os cantos de trabalho, ainda hoje são chamados de “vissungos”, que dividem-se em “boiados”, solo tirado pelo mestre, e o “dobrado”, que é a resposta em coro dos demais. Geralmente, os próprios instrumentos de trabalho faziam o acompanhamento.
O negro cantava o dia todo. Tinha cantos especiais para a manhã, para o meio do dia e para a tarde. É dos vissungos a origem das tradições dos desafios e repentes.
As festas religiosas das confrarias de negros e pardos não satisfaziam de todo a vontade de cantar, de dançar e batucar; os cantos de trabalho limitavam-lhes a expressão corporal e a criatividade. Por isso, à noite, com ou sem autorização do “sinhô”, a maior alegria do negro era sua participação no batuque, sempre proibido, mas que nunca deixou de se realizar.
Foi na venda que o batuque criou fama. Má fama: as maiores reclamações eram sobre as desordens e brigas verificadas com muita freqüência. Embora proibido aos pretos e à gentalha, o batuque acabou chegando, ora pois, às altas rodas de Vila Rica, contrariando orientações da igreja que, via de regra, ameaçava com excomunhões; os dançadores formavam uma roda e, ao compasso de uma viola, moviam-se um dançador no centro, que, ao avançar, batia com a barriga em um integrante (geralmente do sexo oposto) que o substituía no centro da roda. Eis aí a granfinagem reproduzindo a umbigada.
O batuque sobreviveu, animando as vendas e as festas de gente pobre. Num determinado momento, passou a ser chamado, pelos ricos despeitados como “forrobodó” (forro: de forro, ex-escravos; bodó: de bode, cheiro de bode, de preto ou de cabra; cabra era o mestiçado com o negro).
Como se pode concluir, o batuque, tendo a venda como berço, com sua maravilhosa indecência, onde a fuzarca, as brigas e as insolências, as cabeças quebradas e os derramamentos de fatos (tripas) eram comuns, tornou-se um elemento precioso das raízes culturais brasileira.
Quem gosta de samba e forró (e há quem não goste?), em qualquer canto deste país, não pode esquecer da contribuição desses ancestrais dos brasileiros.


Biografia:
Estudioso do Folclore e da Cultura Popular de raízes caipiras. Autor do livro Heróis Caipiras. http://www.clubedeautores.com.br/book/119026--HEROIS_CAIPIRAS Presidente da Associação de Produtores da Agricultura Urbana de Campinas e Região. Blog: http://aproagriup.blogspot.com.br
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