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Pessoa, por pessoas
uma breve historia de amigos eternos
Luís Eduardo Fernandes Vieira

Resumo:
Os heteronimos resolvem encontrar-se para velar o corpo do poeta portugues que deixa Durban e segue para Lisboa. Uma ficção.

Pessoa, por Pessoas
Palco em Breu. Entra Andante Spianato – Chopin. Vai revelando-se pouco a pouco, num foco central, uma poltrona e por detrás desta uma mesa com uma vela sendo acesa por um Ator, sentado numa cadeira, este acende a vela, esquenta as mãos e pega uma pena. Vem entrando um Segundo Ator, o primeiro o vê e diz:

Ator 01:

O dia já vem amanhecendo, onde estão os outros?

Ator 02:

Não faço idéia, receava que estivesse atrasado! Chegou agora? (vai sentando)

Ator 01:

Sim, estava arrumando algumas coisas antigas dele... Você viu onde ficaram guardados os seus óculos?

Ator 02:

Na segunda gaveta no lado esquerdo!

Ator 01: (olha-a)

Não, não estão aqui!



Ator 02:

Mas, me conte exatamente o que aconteceu. Recebi as noticias de forma turbulenta, apenas me pediram para encontrar o Bernardo aqui e que todos já haviam sido comunicados que ele não havia resistido ao fígado!

Ator 01:

O Spleen, meu caro – algo ainda mortal, mesmo nos dias de hoje...

Ator 02: (sentando-se na poltrona)

Encontrei estas palavras em suas mãos: “Eu não conheço as promessas do amanhã...”.

Ator 01:

Gela-me a alma subir este navio! Mais um corpo, em retorno a Lisboa.

Ator 02:

Deixe de temores insípidos, sabe bem que este era seu ultimo desejo. Veja, vem chegando o Ricardo, não deve faltar muito para a chegada do Bernardo! (Breu)
Os dois Atores saem, retorna apenas um, segue em direção ao foco em meio ao Breu de todo o palco. Vem chamando de fora para dentro do palco.




Bernardo: (entra, enlouquecido)

Emilia, Emilia! Onde está você Emma? Dê-me tuas mãos, uma ultima vez, para que estes olhos – desacostumados; possam uma ultima vez senti-las. Não tenho ninguém, Emma. Ninguém em quem confiar, minha família não entende nada, nem posso incomodar meus amigos com estas coisas. Não tenho amigos íntimos de verdade, amigos íntimos é uma coisa que nunca terei, e habita dentro de mim uma multidão!

Ator 02:

Olá, Bernardo!

Bernardo:

Alberto! Companheiro, diz-me que não é verdade. Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver, diz-me que é muito cedo ainda... Não, não consigo crer nesta noticia, Alberto!

Alberto:

Crer é sentir! Mas, pensamos muito e sentimos muito pouco.

Bernardo:
Como deu-se tudo ?

Alberto:
Ele morreu no hospital onde esteve internado por uma insuficiência hepática. Tu bem sabes que era rotineiro essas visitas ao hospital. O maior de tua obra foi tolhida por suas idas ao hospital.

Bernardo:
Cada vez mais assim penso, Alberto. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a poética e contribuir para a evolução da humanidade.

Alberto:
Vamos, devemos velar o corpo... (vai levantando-se) o navio parte logo o mais.

Bernardo:
Vais tu, eu não adquiri coragem suficiente para olhar teu corpo inerte, gelado, embalado pelo mármore frio da morte.

Alberto:
Tu quem sabes, estarei no pórtico esperando os outros.

Bernardo:
(Didático) Aos 13 de junho de 1888, mesmo ano em que a abolição dos negros por cá chegava com a bucólica tarefa de enriquecer os senhores de café e aos gordos coronéis do gado; fora anunciada mas a verdade... a cruel e delirante verdade é outra! Nesse ano nasce Fernando Antonio Nogueira Pessoa no 4° andar, esquerdo, do Largo de São Carlos, n° 4 às 15 horas.
(Retorna ao personagem) Qualquer musica, ah, qualquer, Logo que me tire da alma Esta incerteza que quer Qualquer impossível calma! Qualquer musica – guitarra, Viola, harmônio, realejo... Um canto que se desgarra... Um sonho que nada vejo...
(Entra um som surdo de tambores, como marcando uma marcha fúnebre. Devaneio, como medo ou sonho)
Estão chegando. As carpideiras estão chegando. Que a morte me desmembre em outro, e eu fique ou o nada do nada ou o de tudo e acabo enfim esta consciência oca que de existir me resta.

Entra Ricardo Reis. Altivo, concentrado ensimesmado.

Ricardo:
Olá, Bernardo! Não encontrei-o a prestar-lhe as ultimas homenagens e o Alberto me disse que estavas aqui. Vá até lá, ande...

Bernardo diante da força e da atitude de Ricardo, levanta-se e sai.

Ricardo:
Sentado escuto a chama da vela acesa. Flamejando ao vento, qual vela da ultima nau, que deixou-nos por cá. E escuto notas... Sinto um tropel esfuziante e quente de propósitos-sombras, e de impulsos transbordando do cálix da consciência para cima da vida... Reencontrar a África livres do constrangimento livres da opressão livres...
Gela-me a idéia de que a morte seja o encontrar o mistério face a face
e conhecê-lo. Por mais mal que seja a vida e o mistério de a viver e a ignorância em que a alma vive a vida, pior me [relampeja] pela alma
A idéia de que enfim tudo será sabido e claro...

Entra Álvaro de Campos.

Álvaro:
Não é o horror à morte, porque raie nela o mistério em ti, nem venha nela ou o acabar-te ou o continuar-te. Não. Não é tua alma que os sineiros rebatem medos pelo que havias de ser. É a tua carne que em tua alma grita horror à morte, carnalmente o grita, Grita sem consciência e sem propósito, Grita sem outro medo do que o medo. Um pavor corporado, um pavor frio como uma névoa, um pavor de todo subindo à tona intelectual de ti.


Entra Alberto.
Alberto:
Vamos, Álvaro?

Álvaro:
Aonde, fazer o que? Vive um momento com saudade dele já ao vivê-lo... Barcas vazias, sempre nos impelem como a um solto cabelo um vento para longe, e não sabemos, ao viver, que sentimos ou queremos...

Alberto:
Demo-nos pois a consciência disto como de um lago posto em paisagens de torpor mortiço sob um céu ermo e vago, e que nossa consciência de nós seja
uma coisa que nada já deseja . . .

Álvaro:
Assim idênticos à hora toda em seu pleno sabor, nossa vida será nossa anteboda: Não nós, mas uma cor, um perfume, um meneio de arvoredo, e a morte não virá nem tarde ou cedo . . .

Alberto:
O que me importa é que já nada importe . . . Nada nos vale que se debruce sobre nós a Sorte, ou, tênue e longe, cale seus gestos . . . Tudo é o mesmo . . . Eis o momento . . . Sejamo-lo . . . Pra quê o pensamento? . . .

Álvaro:
Silencio, silencio, elas estão passando por nós! Não, cale-se... (pausa) vê o roxo de suas vestes aveludadas, vê suas faces cadavéricas e embaladas, seus olhos vermelhos e cheio de veias azuis. Como posso seguir adiante com isso... (sai)

Alberto:
A morte chega cedo, pois breve lhe é toda vida o instante é o arremedo desta coisa perdida. (sai)

Entra Ricardo.
Ricardo:
E o nome inútil que teu corpo morto usou, vivo, na terra, como uma alma, não lembra. A ode grava, anônimo, um sorriso. Antes de nós nos mesmos arvoredos passou o vento, quando havia vento, e as folhas não falavam      de outro modo do que hoje. Passamos e agitamo-nos debalde. Não fazemos mais ruído no que existe do que as folhas das árvores ou os passos do vento. Tentemos pois com abandono assíduo entregar nosso esforço à Natureza e não querer mais vida que a das árvores verdes. Inutilmente parecemos grandes. Salvo nós nada pelo mundo fora nos saúda a grandeza nem sem querer nos serve. Se aqui, à beira-mar, o meu indício na areia o mar com ondas três o apaga, que fará na alta praia em que o mar é o Tempo? Eis meu epitáfio: me despeço e apago a vela poeta... (sai)

Entra Bernardo, abraça Ricardo, olha grave ao publico:

Bernardo:
Que pena que tenho dele! Ele era um camponês que andava preso em liberdade pela cidade. Mas o modo como olhava para as casas, e o modo como reparava nas ruas, e a maneira como dava pelas cousas, é o de quem olha para árvores, e de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando e anda a reparar nas flores que há pelos campos ... por isso ele tinha aquela grande tristeza que ele nunca disse bem que tinha, mas andava na cidade como quem anda no campo e triste como esmagar flores em livros e pôr plantas em jarros.. Adeus, poeta, me despeço agora, e apago a vela.

Entra Álvaro, abraça Bernardo, olha grave ao publico:

Álvaro:
Que mais haurir pode da morta lida, da sentida vaidade de seguir um caminho, da inércia de sentir, do extinto fogo e da visão perdida, senão a calma aquiescência em ter no sangue entregue, e pelo corpo todo a consciência de nada qu'rer nem ser, a intervisão das coisas atingíveis, e o renunciá-las, como um lindo modo das mãos que a palidez torna impassíveis. Apago a vela, adeus...

Entra Alberto, abraça Álvaro, olha grave ao publico:

Álvaro:
Depois de escrever, leio... Por que escrevi isto? Onde fui buscar isto? De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu... Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?... Se assim o for, despeço-me agora poeta e apago a vela, a Nau irá partir e devemos seguir em retorno a terra dos Deuses. Adeus, poeta.
(fecha. Fim.)

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