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SOB A SENSIBILIDADE DA LEITURA E DOS ENIGMAS DA ARTE
RODRIGO DA COSTA ARAUJO

Resumo:
Arte, leitura e significação. Leitura semiológica da arte.


    O sentido emana do homem: mesmo quando quer criar o não-sentido, o homem acaba por produzir o próprio sentido do não-sentido ou do sem-sentido.
       BARTHES, Roland. A sabedoria da arte In. O obvio e o obtuso. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1990. p.166

               Os derradeiros caminhos dos conceitos do tipo: O que é arte? O que é Literatura? Têm sido deixados de lado e tem trilhado outros caminhos. O caminho, ou dizendo, o eterno caminhante caminho, daqueles que amam a arte.
               Os estudos da recepção interessam-se pela maneira como uma obra afeta o leitor, um leitor ao mesmo tempo ativo e contemplativo, pois a paixão da arte é também a ação de lê-la, decifrar seus códigos, suas esfinges, ou seja, aquilo que nos causa cegueira.
A análise da recepção visa ao efeito estético produzido no leitor, individual ou coletivo, e suas respostas, suas sensações, ao objeto de arte considerado como estímulo.
               Essas discussões remontam e confirmam a importância da leitura. As artes nesse caso devem proporcionar, instaurar um “querer ler”, um venha-me ler, um “decifra-me ou eu te devoro”. Esse é o poder da esfinge, da leitura. Da verdadeira leitura da arte do mundo.
A recepção por este ângulo vê na obra o ponto de partida para a leitura ser instaurada no receptor, nascendo esse potencial sensível concretizado pelo leitor, no momento mesmo do devir da leitura. Isto é, um processo que põe a obra em relação com normas e valores extramundo, por intermédio dos quais o leitor sensível dá sentido à sua experiência da arte.
     O leitor atento, aqui, vai ao encontro do objeto de arte com suas próprias normas e valores. E nessa troca leitor-arte, nesse encontro/ confronto ao espelho possível e fugidio, a obra de arte deixa o leitor preencher suas lacunas de mundo, a partir de suas próprias normas. É o momento do criador se encontrar com a criatura (com a criação de sua leitura).
     É a arte instaurando mudança, transgressões, cortes profundos em nossas reflexões, é o ponto de estranhamento: leitor e obra de arte. Estranhar-se eis o caminho da vida. Encontro, desencontro, estranhamentos.
     Em todos os casos, entre encontros e confrontos, as normas e os valores do leitor sensível são modificados pela experiência e poder da leitura. Quando lemos, nossa alma indicia pistas do que nós já lemos pelo mundo – não somente no objeto que lemos, mas em outros textos, com vários diálogos da vida. Pelos caminhos da vida.
     Então é chegada a hora das mudanças, dos diálogos esclarecerem ao nosso ser a reinterpretação do que já lemos, tudo que já lemos aqui e agora e em outros textos também. A leitura propicia nessa hora, a retrospectiva e passos avantes, sempre avantes, esse é nosso destino. É o momento da significação das coisas, da vida. São as relações como bem empregou na luz do termo intertexto, criado por Julia Kristeva: Todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto.
     Nesse momento começamos a entender que os sentidos são do mundo e não nos pertencem, nem ao leitor nem a obra de arte. A obra de arte, então, representa um efeito sensível, que é realizado no processo da leitura. É chegado o momento da significação semiótica da leitura. Da epifania, como traduziram a estética de Clarice Lispector.
     O sentido de tudo é, pois, um efeito no campo das experimentações pelo leitor, e não um objeto de arte definido, preexistente à leitura. Esse objeto de arte, então, vai sendo construído nos lampejos da leitura, das significações possíveis e fugidias aos olhos e sentidos do leitor.
          Trata-se de uma Obra Aberta, como bem nomeou o semioticista Umberto Eco.
uma obra de arte, forma acabada e fechada em sua perfeição de organismo perfeitamente calibrado, é também aberta, isto é, passível de mil interpretações diferentes, sem que isso redunde em alteração de sua irreproduzível singularidade. Cada fruição, é assim, uma interpretação e uma execução, pois em cada fruição a obra revive dentro de uma perspectiva original.p.40
     A arte, nesse caso, é caracterizada pela sua incompletude e se realiza nas relações leitor-obra de arte. A arte tem, pois uma existência dupla: a construída e a por construir-se.
     A arte existe e surge inocentemente “pronta”. Ela existe independente da leitura, nos museus e em vários outros lugares, em potencial, por assim dizer, mas ela se concretiza somente pela recepção. A arte autêntica é a própria interação do objeto de arte com o leitor sensível.
     O receptor, nesse caso, é sempre enganado pela arte. É a eterna arte de fingir, como bem viveu e representou o poeta Fernando Pessoa. O leitor pensa que vê e não vê tudo, ver apenas parte do todo, mas nunca consegue preencher todas as lacunas que esse todo permite deixar pelas entrelinhas das leituras possíveis. O objeto, ou a relação metonímica de leitura, vamos dizer assim, nunca esta todo diante de nossas pupilas tão fatigadas.
     A visão geral desse itinerário seria impossível, por mais que tentemos esgotar esse “real” aparente do objeto de arte. Ficam sempre vestígios, mas no fundo, no fundo, o cheiro do veneno reina em nossas narinas, proibindo-nos de toda a verdade.
     São os mistérios e os encantos da arte. É a arte que encanta, é o encantamento pleno, são os interstícios do signo, do jogo da vida. A leitura é essa caminhada de passos para trás a busca de pistas velhas recolhendo indícios, e para frente, reinterpretando todos os índices arquivados em nossa alma.
     Nesses interstícios da recepção, a noção de belo sofre mudanças, porque se desloca do objeto para o sujeito: a estética não é mais a ciência do belo, mas a apreciação estética, o sentir. É a confirmação do adágio popular: “A beleza está nos olhos de quem vê”. Logo, um objeto de arte, não é belo em si, mas belo pelo julgamento subjetivo e atribuído ao objeto como se fosse uma propriedade do receptor.
     São as constantes idas e vindas da vida, das leituras da arte, da vida, da arte da vida. Da arte de ler, ou desler tudo?
     Enfim, são os enigmas da obra aberta, como bem retrata o nome, aberta, é um signo aberto aos vários sentidos e significações do mundo, do mundo do leitor, do novo mundo criado pela arte presente no mundo. Por isso ser uma significação plural, variável e talvez infinita.
     São os princípios da natureza presentes na arte, por isso tudo muda o tempo todo no mundo, é o devir, a metamorfose ambulante. A realidade é como o fogo, já dizia Heráclito.
     Logo, a leitura entendida como processo de produção de sentido(s) se opõe aquela vista como técnica ensinada pelas escolas e com sentidos aprisionados pelas redes da obra e do receptor.
     E nesse horizonte, é possível criar um conceito para arte? Isso fica a critério das sensibilidades dos leitores em desvendar os enigmas da vida, dos signos da arte. Isso faz parte da perplexidade do leitor, é a única certeza e moral da arte. É o mistério escondido na realidade, que só pode vir à consciência humana através de um código, que simultaneamente serve para cifrar esta realidade e para decifrá-la, como bem disse Roland Barthes.
         
     
     






BARTHES, Roland. A sabedoria da arte In. O obvio e o obtuso. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1990. p.166





Biografia:
Prof de Literatura da FAFIMA- Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé e Mestrando em Ciência da Arte pela UFF/ Niterói-RJ E-mail: rodricoara@uol.com.br
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