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Grito de alerta
(Gabriel, o pensador continua matando presidentes)
Roberto Queiroz

Não é de hoje que sou fã do rapper Gabriel, o pensador e não é de hoje que o rapper incomoda certa parcela do país (no fundo, no fundo, vocês sabem de quem eu falo!) com suas canções-denúncia. Nos últimos tempos, andou mostrando a cara - e a fúria de seu discurso - em outras mídias, tais como a poesia mais tradicional e a literatura infantil (e mais: seu livro, Um garoto chamado Rorbeto, foi premiado), sem com isso deixar de lado a marca registrada que o caracterizou em músicas como "Astronauta", "Até quando", "Lôraburra", entre outros hits.

Contudo, em meio a tudo que se viu - e ouviu - em nossa pátria nos últimos quatro anos, é inegável que Gabriel chutou o balde com estilo no novo e arrebatador clipe Tô feliz (matei o presidente)2, que gravou ao lado do duo eletrônico Chemical Surf e do badalado DJ Memê.

Gabriel mostra mais ácido e direto do que nunca, desferindo todo seu desagravo aos nossos aham governantes e sua eterna mania de massacrar o povo com governos infelizes (para não dizer coisa pior). Como pano de fundo, a diversidade dá a tônica necessária, mostrando rostos e expressões que fogem do padrão Rede Globo tão amado pela maioria da população, além de imagens que muitos verão sob o prisma do "ih lá vem mais um demagogo fazendo apologia da violência" (leia-se: crianças portando armas, mesmo que de brinquedo).

Percebe-se no semblante do rapper um sentimento de cansaço com tudo o que está aí e por vir. E ele não é único. Gabriel acaba por vestir a carapuça de uma sociedade esgotada e sem rumo, rotulando de mitos e salvadores da pátria a qualquer oportunista que aparece ao ver a cadeira de presidente vaga. E pior: não há opções melhores e quem vota nulo é entreguista, babaca, covarde.

Não há razões para que o clipe não seja em preto-e-branco. Não há motivos para vermos cores alegres nessa República Federativa do Brasil de hoje. Tudo parece por demais cinza, opaco, desesperado, com medo de que tudo se torne vermelho sangue à primeira discussão por alguma tolice qualquer que esteja na moda. E acreditem: o Brasil virou um país de tolices que viram trending topics nas redes sociais...

Lá se foi o tempo em que Renato Russo alegava que "todos acreditam no futuro da nação". Hoje, o país encontra-se polarizado, movido a antagonismos, uma sociedade rachada por uma classe que nunca deu a mínima para a própria sociedade. E tem quem se vanglorie de fazer parte disso.

O negro surdo que abre o clipe nada mais é que a classe pobre, vítima deste genocídio programado contra os menos favorecidos, obra derradeira deste projeto de poder infame, brutal e escandaloso que só destroça àqueles que pagam a conta de tudo. É facilmente entendível a raiva incontida, o desrespeito e arrogância no olhar deste homem. Ele é um reles objeto, mera engrenagem na estrutura maquiavélica deste Estado atroz.

Já os mascarados e tatuados que dançam durante toda a música representam, muitas vezes, a ausência de um caminho, de uma identidade bem firmada no contexto social ou, ao contrário, o exagero no que se chama hoje em dia de ideologia (muitas vezes confundida com exibicionismo).

Ao fim do desabafo musical o tiro sai pela culatra, como não poderia deixar de ser. Temos muito a mudar, temos de acordar, vergonha na cara a tomar, largar a eterna mania do "depois da novela eu vejo", "hoje não dá, tem o jogo do mengão", "fica pro ano que vem", "fica pra depois do carnaval", etc etc etc. E, honestamente, não vejo culhões no povo brasileiro para isso. O que é uma pena.

Se Gabriel, o pensador será indiciado ou investigado pelo clipe, só o tempo (ou o politicamente correto típico de nossa nação nos últimos anos) dirá. Espero que não. Ele conseguiu, guardadas as devidas proporções, desenhar o Brasil como Childish Gambino (aka Donald Glover) fez com os Estados Unidos em This is America. E assim como a terra do tio Trump, nós também precisamos dar um chacoalhada geral. Matando ou não o presidente.


Biografia:
Crítico cultural, morador da Leopoldina, amante do cinema, da literatura, do teatro e da música e sempre cheio de novas ideias.
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