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UM DEUS, DUAS MULHERES; E A COBRA SOLTA NO PARAÍSO.
Ronaldo Passos

Resumo:
Imagine o Paraíso nos seus primeiros dias de existência. As relações, os diálogos, e a convivência entre o criador e suas mais brilhantes criaturas. Imagine então: um Deus jovem e inocente; com duas mulheres e a cobra solta no Paraíso. Essa história toda é uma sátira da qual você só pode ter uma única certeza: "Não! Você não gostaria de estar no lugar dele!"

UM DEUS, DUAS MULHERES; E A COBRA SOLTA NO PARAÍSO.
(BN – 618.235)

No palco: À margem de um curso d’água límpida e cristalina, estão O Deus, Eva, e a macieira. Onde, sentada num de seus galhos e brincando com uma maçã está A Cobra, que inicia a fala dizendo à platéia o cenário e a cena que se vê:

COBRA – Paraíso, ano zero, tarde do sexto dia! Observados por mim, Deus tem Eva de pé à sua frente.

DEUS - Ufa! (Exclama pra si mesmo). Eis que, Finalmente, encerrei minha obra com “chave de ouro”. (pausa para admiração) E aqui está Eva. Na minha frente. Linda, loira, um corpo escultural, e o mais importante: Virgem e nua. Uufff... (?) Uufff, uufff... (pausa) Olá!... Oi!?... Dona Eva?!... (outra pausa) Só tem um defeito: Não fala! - Toim, toim... (?) Senhora do bom parto que me socorra! (desesperado) O que está acontecendo? Eu conferi tudinho! Tim-tim por tim-tim! Por que é que não funciona? Toc-toc-toc... Pof - pof... (?)

COBRA – Enfia o dedo nela!... (grita para deus). No olho, no olho! Quem sabe ela não liga?

DEUS – Ah! Já sei. (bobo e indiferente à cobra) Como eu sou inocente! Trabalhei muito neste último projeto esperando tanto por este momento, que acabei esquecendo a melhor parte. (gênio) Faltou o... “tapinha na bunda.” (esfregando as mãos e lambendo os beiços maliciosamente) “Pláft!!!”

EVA – Aiii! (revida ela virando defensivamente o corpo para o lado) Tira a mão de mim seu velho sem vergonha! Quem é você? Quem sou eu? Que lugar é esse? O que está fazendo comigo? Socorro, socorro. Estupro, estupro! Estou sendo agredida. Chamem a polícia, a Dona Maria da Penha. Sou uma donzela, exijo respeito! Que quê é isso! Não se pode surgir em lugar nenhum hoje em dia, sem um tarado pronto pra atacar. Cadê o IBAMA e a Associação Protetora dos Animais que não me protegem? Ninguém toma uma providência? Quero meus direitos! Afinal de contas, onde é que nós estamos?

DEUS – Paraíso! Querida... (informa ele paternalmente).

COBRA – Ih! (interrompendo-o) Larga dessa viadagem rapaz. Trata a vaca como ela merece!

DEUS – E não precisa se preocupar. (protegendo Eva e ignorando a cobra) Você é Eva! Eu sou seu criador e você minha criação. Portanto: eis que o criador saúda a criatura, (estendendo-lhe a mão) muito prazer!...

EVA – Sua uma ova! (recusa-o) Ta achando o que? Que eu sou alguma mulher objeto ou escrava? (olhando-o de baixo para cima) E pelo visto escrava do sexo, porque estou vendo que você já está aí todo animadinho, né? (dando-lhe as costas) Pode tirar o cavalinho da chuva que eu não sou pro seu bico. Vai tomar um banho frio, assistir a gravação do desfile da Dercy Gonçalves pelada no carnaval, que eu sou: Eva! E isso aí só pode ser piada. (voltando-se para ele) Nunca viu mulher não? (olhando para o céu com desdém) Eu vou contar até dez pra você baixar o nível de testosterona: Um, dois, três, quat... (?) Para tudo! (decidida) Não, não. Dez é muito! As pessoas vão imaginar coisas muito além da realidade. Vou contar de novo com justiça ao tamanho da:... (rindo-se dele) “piada”. Um; dois. Pronto! Ta de bom tamanho.

DEUS – Você está enganada. (afoito). Não é nada disso, minha...

EVA – Sua o quê? (interrompendo-o, e passando a ameaçá-lo) Olha que eu to com a macaca hein! Ainda não sentiu o drama? Acho melhor você tratar logo de apagar o incêndio antes que se alastre. (saindo de perto) Comigo não!

COBRA – Essa aí é fogo! (afirma com prontidão) Menino você ta é frito! Não adianta. Com essa diplomacia você não vai salvar sua imagem nunca.

DEUS – Por favor, (dirigindo-se até Eva, e fingindo não notar à cobra) fale baixo. Alguém pode te ouvir e isso seria muito constrangedor para mim que sou o Deus. E mais. O que iriam dizer as pessoas? Seria eu motivo de piadas e chacotas. Eu disse foi: “Você é minha criação!” e não, “Você é minha! Criação.” (vítima) Quem me dera!... Eu não posso, e nem o papa pode! (sarcástico) E bem feito pros bispos e os padres que vivem enturmados e também não podem! Alguns até tentam dar um jeitinho e costumam ser pegos com a boca na botija... (notando que esta falando demais, conclui.) E eu ao criá-la já pensei em tudo para seu futuro. Você será a mãe de toda a humanidade!

EVA – Eu sei muito bem no que você pensou seu tarado pervertido! Barriga, uma atrás da outra. Uma filharada que não tem tamanho. É preto, branco, moreno... Mulato. E tudo catarrento e perguntando desconfiado se o pai é o mesmo. (responde acusando-o) Claro que é! Daí a algum tempo mudam o foco: (divaga): “-maeê... Essa barriga aí e quem?” ‘-É o Noé, meu filho!’ “Maeê... Essa barriga aí é quem?” ‘-É o Cabral, meu filho!’ (volta para esclarecer): Lá pelos anos 1.900, antes de cristo é claro! (divaga novamente): “-Maeê... Essa barrigada aí é quem?” ‘-Nessa são dois meu filho; o Oscar Niemayer e a Dercy Gonçalves. Mas sai de perto que ela, a Dercy, é imprópria pra menores de 70 anos!’ (volta) E eu to lá, a Mamãe Coelha, só produzindo as ninhadas. (voltando a acusá-lo) Vai chegar um tempo que, de tanto filho ninguém mais vai ter nome. Só código de barras e etiqueta: Made in Paraíso. Você não pensou numa Ferrari cor-de-rosa, num vestido Armani, num anel de diamantes. Num cartão de crédito!... (alertando-o) No seu nome, né! (volta a acusá-lo) Isso não! Isso pra você é supérfluo. Mas panela, vassoura, tanque de lavar roupa e fogão têm. Aposto que tem. Isso não pode faltar. To fora!

COBRA – Está vendo rapaz. A serpente que você criou. (acusa o réptil) E foi feita da costela, hein? Imagina só, se fosse do lombo! Mas... Não fez a cobra? Agora, engole o sapo!

DEUS – Eu não sou nenhum velhinho tarado e pervertido! (simplório e falando para Eva) E quero somente o seu bem! Olhe bem pra mim! (pausa) E agora diga: quem sou eu?

EVA – Matusalém?!... (arrisca indecisa) É o Matusalém? (pequena pausa para reflexão) Com essa aparência de velho, tem que ser alguém com mais de 900 anos! Bem que eu notei que tinha alguma coisa errada. Sem vergonha desse jeito só podia ser você seu vagabundo. (agora com intimidade) Tantos anos vadiando por aí sem eira nem beira, só podia mesmo ter dado nisso! E eu aqui, toda recatada pensando que estava falando com algum rei. Você quase me enganou com essa maquiagem ridícula sua múmia viva! (questionando-o) Você está se auto-embalsamando Matusalém?

COBRA – Há! Há! Há!... (gargalha zombando de deus) Agora, até que enfim ela deu uma dentro. Essa doeu hein?... “Meu Velho!”   
       
DEUS – Não! Eu não sou Matusalém! (odiando a cobra e controlando a ira, remete-se ao orgulho) Eu sou Deus, o todo poderoso! O seu criador! O criador do universo! Aquele que, embora invisível, estará ao seu lado o tempo todo! Aquele que tudo vê e tudo sabe! Aquele que...

COBRA – Ops! Ops! Espera aí! (interrompendo o deus e desconfiada) Então é assim é? Invisível e o tempo todo ao meu lado. (decidida): Pra depois sair fazendo fofoca por ai né? Que já me viu pelada! Que eu lambo a colher pra experimentar o tempero! Que não tomo banho todos os sábados! E por aí vai... Seu sem vergonha! Que bonito hein Deus! Parece até cena de filme pornográfico: “O vovô tarado observando a mocinha pelada se divertindo inocentemente”. Praia de nudismo? Não!... Por incrível que pareça estamos falando do Paraíso! Onde é que isso vai dar?

COBRA – É o fim da picada! (taxativa, ela ainda conclui) Aí rapaz. Por que você não esgana essa criação mais recente?

DEUS – (Mordido de raiva, e levantando os braços aos céus como se pedisse clemência) Senhor das causas perdidas, eu imploro: Dê-me, paciência..., (contando até cinco e olhando a cobra ameaçadoramente) uma forquilha, um porrete, um saco, e..., (virando-se para Eva com olhar de quem precisa de uma boa dona de casa) duas mordaças, cinco metros de corda de bacalhau, um chicote, um par de algemas de ouro; e a consagração do matrimônio.

Ouvindo tudo isso Eva sai em debandada. E vendo-a sair a Cobra se compadece de Deus.

COBRA – Meu chapa! (olhando Eva deixar o palco) Acho que Eva está desconfiada de suas péssimas intenções. Alá ó! Correu lá pras bandas do Pindorama. (voltando se para ele) Agora que você está vingado e livre da peste, por que não dá uma relaxada?

DEUS – Que desgraça! (ressentido) Que ela vá... Pro diabo que a carregue. Vá se lascar. (agora “quase” indiferente) Dane-se. Inferno! (esbravejando e impondo-se à cobra) E você, vá tomar no rego e me dê sossego! Eu estou cansado e preciso descansar. Deixa essa porra de Paraíso do jeito que está. Eu não to nem ai! (decidido) E está decretado: ponto facultativo amanhã, pois o comando aqui vai repousar. E que todos se fodam! (deixando o palco irritado) Adeus!

COBRA – Hei! Vem cá! (pulando da árvore a cobra segue-o até o limite do palco onde permanece e aumenta o tom da voz) Volta aqui! Na sua ausência eu vou agir heim! Eu vou remendar seu decreto e vou tomar o comando viu?! Não acredita não é! Quer ver? (vira-se para o centro do palco gritando) “Hei pessoal. Amanhã todos podem acordar mais tarde. E sábado! E está decretado: É feriado no sétimo dia!”

A Cobra, agora sozinha no palco, divaga ao contar como foi o sétimo dia para a platéia.

COBRA – Foi a maior orgia! A bicharada agora por conta própria caiu na farra. Batuque, festa e bebida! No calor das comemorações, Eva, que não compreendia bem o porquê daquela coisa rubra tão linda, desejada por todos, e perseguida por Deus; seduzida pela cobra (refere com maldade a si mesma) cujo encanto causava-lhe um fervor que subia pelas pernas e incendiava-a fazendo tremer todo o corpo, fugiu com ela para um plano superior e tanto fez que conheceu o pecado. Enquanto isso, liderados por Adão, doravante carinhosamente aclamado pela fauna com a alcunha de “flor do Paraíso”, aconteceu o primeiro grito por liberdade, e nele surgiram blocos independentes que clamavam pela quebra da monotonia com algo “diferente”, como: homem com homem para os mais delicados; a turma da Lílith que defendia: mulher com mulher; e até alguns radicais que cantavam numa só voz: “bicho com homem e bicho com mulher.” (opinando com desdém) O que foi um escândalo para a época!

A cobra cessa a divagação e retorna de imediato a narração à platéia.

COBRA – Não se pode atestar a veracidade dessas informações em nenhum dos testamentos já publicados, mas, quem sabe num futuro? Além do mais, existem ainda os “mistérios do céu”, que guardam segredos dos quais até Deus duvida. Certo é que, devido a estes boatos, se conheceu mais tarde:... A política, a preguiça, ‘a maçã’, o sexo, a passeata gay... Vícios que enobrecem, (ou não), a perpetuação da humanidade!

Após subir e sentar-se na árvore, a Cobra, voltando ao seu texto, prossegue narrando a cena que vai acontecer
.
COBRA – Alguns dias depois Eva volta, fingindo de boba como se nada tivesse acontecido. Imaginem só a cena: Ela, quase virgem e ainda nua, mas, barriguda, toda torta, desdentada, descabelada e cabeluda. (virando-se para afirmar à platéia) É! Cabeluda mesmo! Ou vocês acham que já estávamos no século XX? (voltando ao texto): E assim sendo... (pausa para observar Deus retornar preocupado ao palco e ver em seguida, a entrada da Eva como acaba de ser descrita)... Claro que Deus que a aguardava ansiosamente, obviamente teve uma surpresa. E assustou-se! Então ela olha pra ele e diz:

Segue a partir daqui cenas com fala dos próprios personagens.

EVA – Ta olhando o que? (indaga afrontando o Deus) Quê que você queria? A Afrodite? Vai ter que esperar muito querido. Milênios. E não é você quem vai fazer não! Ainda bem, senão ia ser outra tragédia! Afinal de contas você ta se achando o quê? (peitando-o) O Ivo Pitangui? Só por que me fez já ta pensando que é o tal? Você por acaso fez também pelo menos uma escova de dente? (pausa) Um pente, mesmo do antigo, de osso! Fez? (nova pausa) Prestobarba, ladyshave, ou alguma coisa que raspe, fez? (outra pausa) Pois é! Colocar filho no mundo é fácil. Agora eu que me vire né? Se você se adiantar à história e permitir o fogo, quem sabe eu tente me sapecar. (mostrando-se) Pela minha situação já deu pra perceber que vai dar numa fogueira terrível né? A Joana D’arc jamais será lembrada, pois não chegará nem perto de mim! (observando-o maldosamente) E você ainda fica aí todo animadinho e com esse olhar de lagartixa com filhote pra cima de mim! Outra vez?! Quer que eu conte aquela piada de novo? Depois vai ficar reclamando: que está ficando falado, que o papa pôde... Que o bispo não pôde... Que tem padre pegando as criancinhas, e que isso já é natural. Que agora eu sou “P” mas sou sua... (decidida): Pode esquecer meu filho! Nem assim! Eu não sou para o seu bico! Vai tomar outro banho frio e esquece a Dercy, que aquela danada, mesmo depois de morta ainda ta de sacanagem com você. Já disse que: comigo não! Aqui é Eva. E Eva não é Lílith! (desafiando-o) Ou você acha que nas minhas andanças por aí não ouvi falar de suas criações secretas antes de mim? (pausa para ver Lílith entrar nervosa e intimidando todos).

LÍLITH – Quem viu? Quem contou? É mentira! Eu não! Sou virgem!

COBRA – Ih! (intercede ela em favor de deus) A onça vai beber água! O que você vai fazer agora menino? Afinal. Lílith tem razão de reclamar! A história bem que podia esperar. Você não acha?

LÍLITH – O que é que estão dizendo? (interrompendo a cobra, Lílith nota a presença de Eva e passa a intimidar o Deus) E mais, quem é essa talzinha ai? O Paraíso agora vai virar novela da Rede Manchete é? Só bicho, paisagens bonitas e mulher pelada? (mudando o tom de voz): Porque o viadão ta lá ó! Até agora nada! Já dei tudo que podia dar pra ele: a maçã, a jaca com o moranguinho e tudo. Dei até catuaba! E nada! Olha que tentei começar por cima pra ver se ele não se intimidava (divaga): “Adão. Pelo amor de Deus!” (volta para afirmar à plateia): E à cobra obviamente! (segue a divagação): “Veja os mamões. De corda é claro, mas é o que se tem no momento! Aproveita que estão murchos mas ainda são 100% natural! Depois, só com silicone viu!?” (volta): Nada! Nem mexeu os olhos. Troquei a fruta: (divaga novamente): “Vai amorzinho. Se você não quer chupar, pelo menos dá uma cheiradinha na mexerica, Adão!” (volta): Foi pior, o bichinho até chorou. Só parou de chorar quando eu saí e trouxe para ele uma banana. Credo! Aí ele até levantou todo alegrinho: “-O gorila também veio? O gorila também veio?”. (saindo de perto): O escambal!

DEUS – Calma! Calma que eu posso explicar! (amenizando, passa a explicar humildemente) Eu tentei fazer o melhor que pude, e pelo visto milagres não acontecem,... “Ao deus-dará!” Parece que não era o meu dia, mas também não está tão ruim assim! Eu vou tentar melhorar! É que precisei usar as mãos, pois não tive ferramentas e a matéria prima era muito ruim, mole e gosmenta. Ou seja: (fazendo-se de vítima) A culpa não é minha. A culpa é do barro!

Eva então para pra pensar, mas, loira e inocente que é não vai muito longe, preferindo então interpelar a Deus:

EVA – Do barro? Que barro? (chegando-se a ele mostra Lílith) E o que esta fazendo aqui aquela outra? Eu não teria que ser a única? Exclusiva! Isso não vai dar confusão quando escreverem a bíblia? Olha! Olha o que o senhor está fazendo! Depois vão escrever o quê? Um segundo testamento só para explicar o inexplicável? Que não é bem assim... Que é o demônio! E etc., etc., e etc. E acabar tendo que deixar a verdade nas entrelinhas? (mimada e fazendo biquinho) E eu não quero ser do barro! Eu quero ser a única! Não é justo, não é justo; não é justo...

COBRA – Essa aí é loira mesmo hein rapaz! (conclui a cobra) E agora José? Vai dizer o que?

DEUS – Eu não agüento mais! (nervoso) Já expliquei sobre o barro e tentaria até explicar sobre a costela do Adão. Mas desisto! Minha divina paciência está para explodir. Vocês ganharam! Eu de-sis-tooo!!! (Deus vai saindo da cena principal).

Ficando livre o palco, começa o embate entre as duas. E é Lílith quem ataca primeiro, dando início a um verdadeiro barraco:

LÍLITH – Olha aqui ô, sua loira! (aproximando-se de Eva) Chegou atrasada queridinha. Isso aqui e o Paraíso não é a casa da Barbie não ta sabendo? Ta cheio de gorilas sarados por aí loucos por um colo amigo, e se você não quer dar, eu quero! Você vai ficar na fila, porque o seu Adão deu no que deu. Pode ficar com ele, afinal, está mais que provado: “o que é do homem a bicha não come!” E não comeu mesmo!

EVA – Menina... (retruca imediatamente) Assim você vai ficar mal falada hein! Vai acabar não sendo citada no novo testamento e vai perder o cachê e os direitos de imagem. Já pensou? Sem plano de saúde, cadastrada no SUS, aposentadoria pelo INPS por tempo de serviço após os 60 de idade, e só depois de 35 anos de gorilas e mais gorilas. Olha mocinha, 35 anos é gorila pra cacete viu! Vai encarar?

LÍLITH – E porque não? (minimiza) Não é tão mal assim querida. A Maria Madalena não vai roseta até a giripoca fazer bico e se dar bem? Por que é que eu também não posso dar? Eu só estou sendo a primeira da história... Lindinha! Pois a profissão já está biblicamente consagrada. Vai demorar, mas vai até ser legalizada um dia! “Profissional do Sexo!” Com carteira assinada e tudo! Só que isso é pra quem tem talento entendeu? Muito talento! Não é pra você não ô... Capa de costela!

EVA – Credo, Deus! (recorre aproximando-se dele e agora na defensiva) O que ela quis dizer com “capa de costela?”. Como pôde o senhor criar alguém como ela! Onde estava sua inspiração? Na Dona Beija ou na Hilda Furacão? Eu não quero ser como ela, feita do barro. O cheiro é tão desagradável! Sabe-se lá de onde vem esse barro! A propósito: Tem rede de esgoto aqui, ou é fossa? (pausa)

Deus leva o maior susto. De supetão as suas mãos que lhes tapavam os ouvidos protegendo-o das heresias proferidas pelas duas; como dois mísseis vão parar o mais longe possível do corpo. Depois, reabilitado do primeiro impacto, cautelosamente leva-as próximo do nariz, e um sagrado grito de ódio e verdade ecoa dele por todo o Paraíso, fazendo fugir do palco, aterrorizados, todos os demais personagens.

DEUS – Merdaaa!!!

Após a ira de Deus os personagens vão retornando ao palco. Primeiro Eva e Lílith, (temerosas), e a seguir, volta A Cobra narrando e mostrando a cena que vê: Deus, de quatro e gesticulando muito, dentro do riacho e de costa para a platéia parece lavar as mãos.

COBRA – Passados àqueles instantes de constrangimento, a história segue com o criador agora soltando fogo pelas ventas. (Indo juntar-se as outras duas que observam o Deus, ela continua) Resmungando os mais divinos palavrões, e excomungando toda a criação, enquanto, de quatro sobre o curso d’água límpida e cristalina que corre sob a árvore do conhecimento esfrega as mãos nas areias que cobrem o seu leito; ele vê no espelho d’água refletida a imagem da cobra, e esta, desperta ao se sentir observada, ressabiada apela para a consciência.

Por trás de Lílith e Eva que constrangidas fingem não estar vendo a cena bestial protagonizada pelo criador, A Cobra, interpretando à esmo, interroga à si mesma passando-se pela consciência de Deus, inclusive alterando a voz.

COBRA – Ah! Pois é! (alertando de forma crítica e bem sarcástica) Agora vai querer dar uma de nervosinho, é? Vai dar chilique, espernear; ou vai “sentir um troço?” Isso é que dá viver no ócio o tempo todo sem ter nada para ocupar a mente! A hora que resolve fazer alguma coisa, só faz coisa errada. De onde você tirou essa idéia maluca de fazer o homem? Pra que? Olha a merda que você se meteu! E ainda, de boneco de barro? Que falta de criatividade! Podia muito bem aceitar a teoria da evolução. Macaco tem e muito no Paraíso, era só esperar! Mas não. Quis bancar o herói, virar celebridade. Se você tivesse talento para isso, teria feito como o aleijadinho e procurado um material mais nobre. A pedra sabão por exemplo. Mas você não! Curtido na preguiça como é, tinha que procurar moleza, uma coisa mais leve, macia... Achou! Isso é castigo pra você aprender a não meter as mãos onde não é chamado. Só porque você é o Deus ta se achando o grande, o maioral, o sabichão. O rei da cocada preta! E pior! Ainda faz uma cópia! Sabia que clone é pecado? Bem feito!

Deus, ainda de costas para a platéia tenta explicar, e fala como se respondesse a seus próprios pensamentos:

COBRA – Estou cansado de tanta injustiça e não agüento mais essa jornada. (sendo vítima): Eu não nasci pra isso, e não sou escravo pra trabalhar tanto sem ser reconhecido. Onde está a Princesa Isabel que não toma uma providência? (procura-a no horizonte) Essa exploração precisa acabar, e a mim só resta a justiça divina que tarda mas não falha; e vejo também, nunca chega a tempo. As condições não eram das melhores e usei as mãos por não ter ferramentas. O barro... Ah! O barro!... (nervoso) E esta droga de Paraíso esta infestado por cobras. E precisava apenas uma. Quanto a você, (refere-se à própria consciência tocando com as mãos fechadas a própria cabeça) que vá pro “quinto dos infernos!”

COBRA – Cobras? (retruca o réptil ainda como se fosse a voz da consciência dele) Tira um “S” aí paizinho! Não sou eu o seu problema não. Sou a solução! Seu problema são as mulheres! Isso mesmo: As mu-lhe-res! Tava indo tão bem a sintonia entre a natureza e a bicharada, mas, na última hora, no último dia, você teve que dar ouvidos aos seus instintos. Já que tinha feito o Adão para conversar, pra que essa muiezada no Paraíso? Harém? Seu ou dele? Ou você vai admitir que seja uma para cada um? É! Porque o Adão foi feito do barro e de sua costela... Tudo devidamente anotado no livro, dentro do script como também a natureza e os animais. Mas e a Lílith? Por qual motivo ela não está no inventário? Isso sem falar no seu discutível zelo exagerado com a Magrela. Aliás! Que super produção hein? Pra dizer a verdade, acho essa história plágio de outro romance bem melhor e menos horroroso que esse: O Frankenstein! Mas, menino, você se superou. Tenho que admitir: ela ficou uma maravilha! A Lílith é que parece não ter gostado nadinha! (nesse momento a cobra é ameaçada por Lílith). Mas eu, estou encantada! Só de falar nela, como pode ver fico toda - toda. Você precisa nos aproximar!

Breve pausa para captação da mensagem pelo criador, que se assusta.

DEUS – Nãooo!!!

Grita o Deus desesperado que se denuncia ao virar de frente tratando logo de folgar a/uma cobra que tem enforcada em uma das mãos, largando-a imediatamente. E assoviando com discrição e olhando sorrateiramente para os lados; num gesto clássico de ocultar provas baixa aos pés com a outra as vestes ainda suspensas da água até a altura da cintura, demonstrando sair de um êxtase ao retomar a consciência. E, pé ante pé, disfarçadamente deixa o palco antes de ouvir a sinistra afirmação da cobra para a platéia:

COBRA – E a vida achou que até aqui seguira impunemente no Paraíso!

E indo abraçar-se às outras duas ela ainda destila mais veneno, quando, sondando a interpretação de Lílith e Eva sobre a cena que de longe, as três acabavam de presenciar, indaga maliciosamente:

COBRA – Vocês viram aquilo?

Lílith e Eva, que certamente prefeririam não testemunhar o que a história lhes confidenciava, encenam um espanto colossal.


- FIM –











Os 4 personagens:

DEUS
LÍLITH
EVA
A COBRA
































Ronaldo Passos
ronaldopassos@yahoo.com.br
Oliveira MG + Agosto de 2013.


Biografia:
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Roteiros Quem buliu no Paraíso? Ronaldo Passos
Teatro UM DEUS, DUAS MULHERES; E A COBRA SOLTA NO PARAÍSO. Ronaldo Passos
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