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Pantanal
Cláudio Thomás Bornstein

Já faz muito tempo. Foi no Pantanal, Mato Grosso. A pousada, cheia de gringos, ficava perdida no meio do nada, quer dizer, natureza por toda parte, todo tipo de bicho: cobra, jacaré, capivara, macacos e uma variedade imensa de pássaros. Para chegar lá se levava umas quatro horas, estrada terrível; quando não era lama, era um areal fofo que quase atolava o carro.

     
“O senhor é brasileiro?” a atendente tinha perguntado pelo telefone, na hora da reserva. “Sou”, respondi, ao que ela retrucou: “É que a gente não costuma receber ...”

Na frente da pousada passava um rio cheio de jacarés. Só quem se aventurou a tomar banho fui eu e um francês. “Os jacarés estão bem alimentados nesta época” tinham dito na recepção, entre sorrisos. Cobras vimos muitas, felizmente nenhuma dentro das acomodações, embora, certa vez, tivéssemos visto uma serpente grande sobre a copa da árvore perto da nossa janela.

O animal, no entanto, que mais me impressionou era um mamífero grande, corpulento e que andava livremente pelos corredores da pousada. Forte talvez tivesse sido alguma vez. Agora não, estava velho. Mediu-me de cima a baixo, olhou fixo no meu rosto e disse: “Você está forte ainda. Os músculos das coxas...Quanto ao resto...”. Fez um muxoxo. Estremeci. Tinha sido rápida a avaliação e acertara na mosca.

De noite, desligado o gerador, ficamos, o mamífero e eu, de papo na varanda, na semi-obscuridade da noite, iluminada apenas pelos reflexos da luz do céu na mata e na água. O dono da pousada estava visivelmente satisfeito de poder, enfim, conversar em português. Tinha sido da polícia, mas logo desconversou. Resolvera se aposentar para esfriar a cabeça, foi o que disse. A moçada, os baderneiros, tudo "playboyzinho", davam muito trabalho e não era possível fazer direito o serviço. A turma do "deixa disso" sempre interrompia no melhor da festa. Desconversou de novo.

Agora que estava velho e cansado o que gostava mesmo era de caçar. Reunia os amigos, os de antigamente, vinha gente do Rio e de S. Paulo e saiam noite a dentro sem hora para voltar. Contou história de onça pintada, manada de queixadas e cobra surucucu. Falava alto, gesticulava e os olhos se acendiam na noite escura. Era nítida a emoção, o entusiasmo, a sanha, tara e tiro. Não mudara de ramo, foi o que eu pensei. Ontem era caçada humana, hoje era onça.

Uma vez saímos juntos ao entardecer. Fomos num jipe grande que tinha sido do exército. Chegou num campo, abandonou a estrada e ia atravessando o capinzal. De repente parou, desligou o motor e mandou a gente calar a boca. Soprando através dos lábios, auxiliado pela língua ou talvez tivesse sido um apito, assobio, começou a fazer uns barulhos que depois nos explicou: imitava uma ave ferida. Não tardou muito para surgir da mata, de mansinho, um lobo guará, ou talvez tivesse sido um cachorro do mato. Foi se acercando de nós, cada vez mais perto. A uma dezena de metros parou. Ouviu-se um clique e acenderam-se os faróis do jipe. O animal ficou lá, parado, imobilizado, ofuscado pela luz. Este espetáculo repetiu-se diversas vezes em locais diferentes, mais frequentemente aproximando aves grandes. Às vezes fazia o ruído da fêmea tentando atrair o macho, outra vez imitava os filhotes, chamando a mãe. Era cilada, era tocaia, era armadilha e blefe, era o jogar verde para colher maduro.

Ria muito dos turistas. Volta e meia aparecia algum gringo à cata de aventura, cismando de passar a noite na mata, numa barraca, para ficar mais perto da natureza, sua mágica, seus mistérios e suas emoções. Ele "ajudava um pouco" e, num sorriso maroto, piscou os olhos para mim. Ajudava a montar a tenda, e, depois, na calada da noite, voltava munido da sua orquestra de sons. De manhã era a maior curtição olhar para a cara do turista, lívido, olheiras, noite passada em claro. Lançou um olhar de desdém e fez um ruído de desprezo com a língua no céu da boca. Era o prazer do medo, era o prazer de meter medo, orgulho de força e potência, dono de vida e morte.

Conversa maior tivemos tão somente nos primeiros dias. Depois os contatos foram rareando. Acho que passou a me evitar. Provavelmente me achou muito enxerido, muito perguntador. Ou talvez tivesse sido a minha cara de turista. Ficamos uma semana na pousada. Mais tarde, pensei em voltar, sondar com mais detalhe, apurar suspeitas, mas, confesso, fiquei com medo. Ele tinha muitos amigos no Rio e em São Paulo e depois, um jacaré daqueles, podia, de mansinho, dar o bote.

Cláudio Thomás Bornstein


Biografia:
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