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De repente decidi ir à missa, mas antes precisava voltar à república para entregar a um colega um litro de pinga que eu o havia comprado. Subi a minha rua até o número 259; depois, as escadas até o apartamento 403. Afobado, Oscar pegou a garrafa de cachaça, agradeceu-me e deu-me o troco: apenas R$3,00.
Entregue a bebida, podia ir-me, imaculado, para a celebração eucarística. Pensei em vestir calças em vez de bermudas, mas, súbito, resolvi arriscar-me a entrar no santuário com as pernas à mostra mesmo. Retirei-me e fui ao templo. Antes de subir as suas escadarias, distraí-me a admirar uma beldade e imaginar-me junto a ela. Contudo, refiz-me rápido e pus-me a elevar-me pelos degraus que, tantos eram, nos faziam sentir ascendendo ao próprio céu.
Entrei lentamente. Esqueci-me do sinal-da-cruz. Pensei em fazê-lo tardiamente – desisti. Havia gentes em demasia, enchiam todos os bancos e, por isso, mantive-me de pé todo o tempo. Geralmente, ao adentrar igrejas católicas, sou inundado por um forte espírito piedoso, mas dessa vez foi como se entrasse em qualquer outro prédio secular. Estava lá por mero compromisso religioso. A missa já tinha começado. À medida que avançava a liturgia, avançava um sentimento cristão em mim. No momento das ofertas, eu, pensando ser o da comunhão, fui até os arredores do altar. Deparei-me com a sacolinha que – mantém vivos os pobres em sua pobreza, a igreja local em situação razoável e o Vaticano em seus luxos exacerbados. Desconheço que fim tomarão as moedinhas que doei por constrangimento, mas espero que sejam enviadas à postergação da fome e da morte, caridade apelidada.
Mais tarde, houve o clímax: a inexplicável cristianização do meu ser – a comunhão. Recebi a hóstia, mesmo sem ser oficialmente um católico romano, retirei-me ao meu lugar de origem onde ajoelhei-me, fiz o sinal-da-cruz e orei, pedindo a misericórdia e a paciência divina no concernente à oscilação da minha fé. Clamei também para que a saída de Edemburgo me não cause arrependimento; que a vida nova na Nova Cidade seja próspera e digna de orgulho.
Eu precisava ir àquela missa, ouvir o padre moralista, rezar e operar todas aquelas parafernálias litúrgicas que pretendem aproximar-nos de Deus. Mas que podem facilmente tornarem-se em simples dever religioso e compromisso com uma instituição dúbia – antagônica em demasia. Afinal, o cristianismo é uma estranha sobreposição de antíteses.
(Juiz de Fora, Fevereiro de 2013)
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Biografia: Breno Ricardo (Belo Horizonte, 1995) escreve poemas, peças teatrais e crônicas, desde os 15 anos de idade. Entre Fevereiro de 2011 e Dezembro de 2012 dirigiu um grupo de teatro amador em Belo Horizonte. Possui três livros de poesias já publicados on-line. Das peças por ele escritas, Jesus nasceu no Brasil, foi o maior sucesso, tendo sido apresentada em 2011 e 2012. Mudou-se em 2013 para Juiz de Fora e, desde então, cursa História na UFJF. Publica, atualmente, crônicas no blog da Capela Anglicana do Bom Samaritano, além de poemas e pequenas reflexões em sua própria página no Facebook. |