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PARA TUDO DÁ-SE UM JEITO
ivete tôrres

Elas: Clarice e Liana. Conviviam há pouco mais de um ano e já se consideravam amigas. Confidentes até. Embora diferentes social e intelectualmente, tinham alguns assuntos em comum, como marido e filhos. A estes, todos os elogios e àqueles, quase só reclamações. Eles: Lúcio e Rafael. Como a maioria dos homens, sem muita noção. Os casais tinham apenas um filho e ambos estudavam em outra cidade.

Ainda amavam os companheiros. E por isso desejavam tornar suas vidas mais felizes, mas a tolerância estava chegando ao fim. O ciúme, até onde se sabia infundado, era a maior queixa de uma. A outra reclamava de pequenas desatenções que juntas se transformavam em grandes decepções. Falavam muito em separar. Ameaçavam até. Mas na hora agá, continuavam nas mesmas.

Um dia, de brincadeira, uma delas sugeriu que pedissem um tempo. Os maridos ocupariam uma das casas e as mulheres a outra. Começariam tudo de novo. Voltariam a namorar e assim salvariam as relações. Muitas risadas rendeu esta ideia, que se tornou um segredo só delas.

Com o tempo os casamentos ficaram mais desgastados. As discussões se tornaram frequentes. As mulheres, cada vez mais infelizes. Não demorou muito para Clarice realmente desejar a separação. E, digamos, por osmose a amiga começou amadurecer a ideia.

Quase que simultaneamente comunicaram a decisão aos interessados. As reações tiveram pontos em comum: não separariam e queriam salvar o casamento.

Eis que, cada uma a seu tempo, deu o ultimatum:

- Temos outra alternativa. Podemos viver em casas separadas e começar a namorar, como quando nos conhecemos. E depois vemos no que dá.

- A gente separa agora, ou pelo menos damos um tempo!

Não seria para sempre, e voltando àquele clima de namoro, elas acreditavam que poderia dar certo.

- Mas ficaria muita despesa! - argumenta um.

- Não posso sustentar duas casas! - esclarece o outro.

E, assim, surge a bizarra solução.

- Eu fico na casa com a Liana e vocês dois podem dividir as despesas na outra.

- Todos nos damos bem, e ainda mais que é por pouco tempo. Ou nos apaixonamos outra vez ou separamos definitivamente. Prometam pelo menos pensar, disse Liana.

Os homens, entendendo que elas estavam determinadas, prometeram. Pensaram e marcaram uma reunião para acertarem os detalhes.

Começaram um namoro cheio de carinho e atenções de todas as partes. Que incluía flores, passeios, viagens e outras tantas coisas boas que este tipo de relação oferece. Todos pareciam satisfeitos, e estavam.

Com a chegada do inverno os maridos/namorados diminuíram as visitas para mais propriamente nos finais de semana. Telefonavam várias vezes por dia, mas Clarice e Liana sentiram falta. Compreenderam, pois se elas os esperavam no calor da lareira ou das cobertas, eles é que saíam de casa no frio rigoroso!

Mas já era tarde. Seres humanos acostumam com tudo, do bom ao ruim. Mas certamente mais rápido, com o que é bom. Conversaram e decidiram propor a volta dos dois. Sentiam que naqueles meses vieram à tona os sentimentos que os uniram há tanto tempo e que também puderam corrigir os erros do passado.

Cheias de esperança e expectativa telefonaram convidando-os para jantar. Os
quartos foram preparados com o maior requinte. Estava tudo planejado. A noite prometia.

Na sala, as duas muito elegantes, esperaram o som da campainha. A ansiedade estava no ar. O toque se dá no horário combinado. Chegaram como de costume: lindos, cheirosos, cheios de sorrisos. Pareciam ansiosos também, como se já soubessem o que as meninas tinham a lhes dizer. Sentaram-se num dos sofás, e um deles se antecipou:

- Ladies first, meninas. Estamos curiosos com o que têm a nos falar.

E o outro reforça suas palavras:

- Queridas, nós dois também temos algo a dizer. Mas, Lúcio tem razão: as damas primeiro.

Dito isto, carinhosamente, afaga o rosto do companheiro.


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