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A BOTIJA
Aurimar que acabava de chegar do Rio de Janeiro, matava as saudades do velho Arisco de terras claras, o querido torrão dos Sena, seus antepassados. Quem o via agora de pés enfiados nas botas andando pela estrada, todo metido no jeans e com uma mala de napa na mão, não reconheceria nele o meninote que partira dali descalço levando as poucas roupas em um saco. O vento tangia-lhe os longos cabelos e abria-lhe a jaqueta jeans desabotoada, deixando à vista um grosso trancelim dourado que se confundia com o amarelo-canário da camiseta que vestia por baixo. Aurimar caminhava displicentemente, sobre o baldo do barreiro de águas límpidas que demarcava as terras dos Sena, sem qualquer pressa pois sentia-se em casa já. Colhia maracujás verdes com a mão livre e os atirava sobre os jabutis que boiavam preguiçosamente entre as plantas aquáticas, como costumava fazer quando menino. Da altura do baldo, ele divisava as casas brancas em meio ao verde da roça. Eram construções simples, quase todas ladeadas por uma casa-de-farinha e tendo à frente os vastos terreiros de areias muito alvas que findavam junto ao verde das bananeiras de largas folhas reluzentes ao sol, com seus mangarás muito roxos.
De todas aquelas casas de fachadas tão conhecidas suas, havia uma muito especial para Aurimar. Não era a de seus pais, demarcada pela bandeirola esvoaçante na ponta de um mastro com as figuras de São João menino de cabelos anelados com um carneirinho nos braços. Era a do seu tio Onofre. Uma casinha simples, de sapê, alpendrada na frente. Seu Onofre, como era chamado, era o mais pobre da família, porém, dotado de um coração de ouro que tudo fazia para agradar aos sobrinhos, especialmente a Aurimar. Nem o velho reconheceu o rapaz ao avistá-lo assim tão diferente. Escorado ao cabo da enxada, cumprimentou-o como faria a qualquer outra pessoa que passasse pelo aceiro do roçado:
_ Bom dia, seu moço. Vosmecê parece andar perdido por estas paragens... O senhor é ambulante ou é comprador de farinha?
_ Tio Onofre!? A sua bênção, não me conhece mais? Sou Aurimar.
_ Deus te abençoe. Ora, venha cá menino, me dar um abraço _ o velho soltou a enxada ao abrir os braços que acolheram o rapaz _ Diacho! Você não avisou que vinha... como está parrudo o meu menino, e assim cabeludo... eu não podia reconhecê-lo mesmo.
_ Oh! tio Onofre, o senhor é o mesmo, nem mais moço nem mais velho, benza-o Deus.
_ Qual nada. Trabalho de teimoso. O reumatismo me faz doer o corpo todo. _ olhando para o sol com a proteção do chapéu de palha sobre os olhos, acrescentou: _ já está meio tarde. Vamos passar lá em casa para um café, Zefa ficou com umas macaxeiras no fogo... Ela vai gostar de revê-lo.
_ Vamos sim, tio. _ O rapaz consultou o relógio. _ São só oito e meia. Tio, eu tive uma ideia: fico por aqui hoje, só quero chegar lá em casa amanhã ao acender da fogueira, na horinha do forró, ninguém precisa saber que cheguei, assim a surpresa será maior.
_ Tá bom. _ o velho foi condescendente, - pago para ver a cara de alegria deles.
Aproximavam-se da casa em formato agiralado com uma cumeeira central fazendo as quedas d'água para trás e para a frente, terminando num aconchegante alpendre. As paredes eram tapadas de um barro alvacento que ao telhado dava um esbranquiçado encardido. O rústico daquele casebre tinha uma graça quando percebido emoldurado pelo verde dos grandes cajueiros que cresciam pelos oitões. O terreirão frontiço era igualmente demarcado pelo bananal que se entouceirava com seus caules muito lisos. Bem na divisória de acesso, uma enorme goiabeira apinhada de frutos maduros fazia a festa da passarada que bicava daqui e dali, deixando as sementes rosadas à vista. De debaixo do alpendre Zefa jogava a crueira que tirava de uma cuia para as galinhas que corriam de todas as direções ao seu chamado de " ti, ti, ti, ti". Ao vê-los aproximando-se, a mulher acomodou a cuia debaixo do braço e com a outra mão livre protegeu os olhos do sol para melhor observar o estranho que acompanhava o marido.
_ Zefa, veja só quem está chegando!
_ Oxente! Isso é Aurimar? Todo tremendão como dizem nos rádios?
* * *
Tudo caminhava de acordo com os planos do rapaz que matutara uma boa desculpa para pernoitar em casa do seu tio. Não era à toa, não. Ele precisava pernoitar na casa do velho tio para poder concretizar um plano que trazia em mente. Sonhara três vezes com a falecida madrasta do seu tio lhe dando um dinheiro que havia enterrado bem no terreiro da cozinha daquela casa que, distante da dela, despistaria possíveis ladrões em uma época distante no passado. Lá mesmo pelo sul, o rapaz tivera o cuidado de anotar em um papel, as instruções fornecidas pela falecida "Vó Ursulina". Não custava nada, era só cavar no local indicado e retirar o dinheiro. Em sonho ele vira patacões e dobrões em cobre e talvez em prata que tinham algum valor quando menos enquanto antiguidades para colecionadores. Lá no Rio de Janeiro ele alcançaria bons preços.
Logo ao cair da noite, os tios se recolheram, tinham costume de dormir cedo. Aurimar deitou-se em uma rede e ficou de olhos esbugalhados a espreitar a quietude da penumbra tomando o cuidado de não pregar os olhos. A noite calma e silenciosa daquele recanto de mundo parecia interminável. Os galos do terreiro amiudaram as primeiras horas. A casa era silêncio Pensando que todos dormissem, ele levantou-se na ponta dos pés e furtou-se pelos escuros em direção à cozinha. Caminhava na ponta dos pés para não fazer barulho. De repente, explodiu um alarido de vozes do outro mundo. Eram as tentações para amedrontar a quem tentasse fazer o resgate da botija. Aurimar conhecia histórias nesse sentido e pôs firmeza, continuou, mas... Tochas de fogo alumiaram à sua frente. Os cabelos se lhe arrepiaram quando o alarido prosseguiu numa barulheira infernal que estrondou no rimbombar de um silo vazio que, em seu medo, ouvira uma trovoada do outro mundo. Atrás dele, numa claridade espectral, ao acender de um palito de fósforos, surgiu o tio Onofre em cuecas samba-canção.
_Ora, Aurimar, não precisa ter medo. São os gatos se divertindo por cima dos silos. _ Tio Onofre soltou uma boa risada e acrescentou: _ A saudade de casa parece não deixá-lo dormir direito? Pegue! Fique com esta lamparina e a caixa de fósforos. Se precisar de qualquer coisa é só bater na porta do meu camarim.
_ Tá bem, tio boa noite.
O rapaz, meio acanhado, voltou para a rede na sala de jantar, o relógio marcava doze e seis. O tio já se afastava quando ele resmungou alto em tom de desculpas:
_ Os galos me atrapalharam, pensei que já amanhecia...
Se o tio ouvira os seus resmungos, não respondeu. Ele apagou a lamparina de um sopro e cobriu-se com o lençol grosso de saco de açúcar, e ficou bem acordado.
A noite pareceu-lhe mais alongada, um cão ladrava longe, outros em seguida respondiam. Quando os galos fizeram, de fato, a cantata de uma hora, Aurimar já estava no terreiro da cozinha, levantara pouco antes para não perder a hora. ..." Da porta da cozinha, dez passos diagonais à esquerda, bem no tronco da velha aroeira..." O rapaz ficou desapontado, não havia por ali aroeira nenhuma, logo supôs que, se a falecida dissera " velha" já na sua época de viva, era possível que não mais existisse vestígios da tal árvore. Mediu os dez passos e começou a cavar. A lua era minguante, a noite estava escura. Um tropel equino se fez ouvir numa estaladeira de galhos quebrando-se na escuridão do cipoal. A quebradeira aproximava-se como se vinte ginetes bravios fossem desembocar do mato por aquele terreiro a qualquer instante, tocados pelo "pé-de-cabra".
Não conseguindo concatenar qualquer reza, Aurimar soltou a alavanca e grimpou-se ao cajueiro mais próximo para não ser pisoteado. Desembestados os animais, apenas dois, passaram em seguida tilintando os cascos na alavanca que rolou pelo chão. Bem que diziam que o tinhoso fazia de tudo para que o sujeito não conseguisse arrancar a botija, e se chamasse algum "nome" levaria a alma à perdição. Decepcionado, Aurimar desceu do cajueiro e recomeçou as escavações. Cavou, cavou e cavou em lugares diferentes. Ás quatro da manhã o terreiro estava totalmente esburacado e nada. Ele recostou-se ao tronco do cajueiro para descansar um pouco. Foi assim que o tio o encontrou.
¬¬¬¬ ¬¬_ Ora, você também? _ Cutucou-lhe no ombro ¬_ o que esperava achar nesses buracos? Tatu? Já não é o primeiro hóspede que faz essa fuzarca no terreiro, só me deixam com uma pulga atrás da orelha, não me põem a par do que procuram.
_ Desculpe, tio. É que na meninice nos enchem de histórias de botijas...
_ Ora veja! _ O tio interrompeu-o, _ quem tem dinheiro para andar enterrando hoje em dia? Se fosse em outros tempos, eu não digo... a minha madrasta, que Deus a tenha, dizem que enterrou dinheiro mesmo. Vi com estes olhos uma burrinha pequena assim... _ fez o gesto com as mãos, _ cheia de moedas antigas que na época tinham valor. Estava dando ladrão por estas bandas e ela enterrou o dinheiro que era para comprar um cabriolé. Foi o diabo! Os ladrões deram na casa dela, amarraram-na de corda com rede e tudo, deram-lhe uma surra danada, para ela dá conta do dinheiro. A infortunada fez todas as necessidades mas não abriu o bico. O medo foi tanto que ela ficou entrevada em cima de uma cama e no fim de três dias definhou como um passarinho.
_ Coitada! _ Fez Aurimar penalizado.
_ Coitada o quê? Ela deixou o meu falecido pai morrer a míngua para guardar esse dinheiro.
_ Então, tio, se esse dinheiro existe está enterrado por aqui. Eu a vi como o estou vendo agora, era uma velhota agalegada de olhos azuis muito sisudos, aparentando uns setenta anos.
_ Virgem mãe! Ela era assim mesmo _ Fez o velho admirado.
_ Pois bem, ela disse ter enterrado o dinheiro aqui no terreiro da cozinha.
_ Não é possível _ retrucou o velho _ que aquela danada velha, que Deus tape-lhe as ouças, esteja mentindo depois de morta.
_ Vosmecê, Onofre _ Interferiu Zefa que chegava e ouvira o final da história. _ não se lembra que quando nós nos casamos e viemos morar aqui, a porta da cozinha dava para o lado de lá? Lá para as bandas daquele cajueiro penso na beira do riacho? Ali assim, ficava uma aroeira velha cheia de ninhos de bacurau. Dizem que Sinhá Ursulina, que Deus não me chame por testemunha, aparecia ali feito assombração, sob os cantos lamurientos das aves. Eu mesma mandei fechar a porta que dava para lá e mandei derrubar a aroeira. Agora me dão licença, vou pegar lenha para fazer o fogo.
Os dois homens olharam-se significativamente. Um pé-de-vento repentino açoitou a folhagem e um redemoinho rodopiava pelos cajueiros como se os quisesse arrancar pela raiz. Aurimar, alheio a tudo, tomou a alavanca e rumou para o cajueiro torto. Estacou a poucos passos com os cabelos esvoaçantes, esperava escorado à alavanca, o fim da ventania. Não suportando as fúrias do vento, o cajueiro pendia e pendia cada vez mais.
"Menino, o cajueiro vai cair!" O grito do tio foi abafado pelo estrondo dos galhos de encontro ao solo. Enquanto a árvore desabava, suas raízes, com as forças do repuxe, rasgavam o solo com a violência de um terremoto. Num desses repuxes, os restos de uma caixa em madeira e material ferroso apodrecidos, foram lançados das entranhas da terra, juntamente à moedas antigas que tilintavam no ar. Aurimar, com alegria de menino, correu à catá-las pela areia branca. Enquanto o vento prosseguia varrendo o cipoal, deixando tudo para trás revirado.
_Cruz credo! _ Fez Zefa, benzendo-se à porta da cozinha.
Natal, RN, 1997
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