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Meu pai um dia me falou
Hayton Rocha


De natureza triste, sorriso raro, franzino e míope, Agostinho, meu pai, logo cedo percebeu que não teria braços para fazer o que meu avô, Pai Semente, fazia junto com meus tios, agricultores de subsistência na zona rural de Colinas, no Oeste maranhense. Por isso, nem mesmo o choro sentido de minha avó, Mãe Sussu, conseguiu evitar que deixasse o sítio “Maravilha” ainda criança e fosse morar com tio Enoch (um de seus irmãos mais velhos) em Caxias, cidade onde estudou do ensino primário ao antigo científico.

Bastante dedicado e estudioso, a ponto de vangloriar-se diante dos filhos, anos depois, de nunca haver perdido o “trono” de melhor aluno das salas de aula que frequentou durante a infância e a adolescência, quando se tornou adulto não teve condições financeiras para cursar uma faculdade - coisa de ricos, à época -, mas conseguiu ser aprovado no concurso do Banco do Brasil e, em 1954, aos 23 anos, iniciou sua carreira profissional bem distante de casa, na cidade de Itabaiana, na Paraíba.



Lá encontrou Eudócia, minha mãe, na flor dos 15 anos de idade, filha também de pequenos lavradores do Brejo paraibano, com quem casou e nunca mais deixaram de fazer filhos. Sem contar um abortamento, foram nove em 13 anos (entre 1956 e 1969, Haydeé, eu, Agostinho filho, Hélio, Hélder, Girlene, Zuleide, Kléber e Dayse), os dois últimos nascidos em Alagoas, para onde a família migrou no final dos anos 60, apoiando sua trajetória profissional até então ascendente - depois de algum tempo como chefe da carteira de crédito agrícola e industrial do BB em Patos, no Sertão da Paraíba, foi nomeado administrador do BB em União dos Palmares, Zona da Mata alagoana.

Trabalhador compulsivo durante a semana, relaxava nas horas de folga lendo revistas e livros, inclusive de fábulas, até os filhos adormecerem. Sentia prazer em sentar à mesa com toda a família para comer “Maria Isabel”, arroz puxado no alho com carne de sol picada. Gostava também de “passear” com a enceradeira pela casa, aos sábados, lustrando mosaicos enquanto ouvia Ataulfo Alves, Nelson Gonçalves, Orlando Silva e Trio Irakitan. Não perdia por nada o “Repórter Esso” nem jogos do Vasco, ouvindo transmissões de rádio numa época em que a TV não fazia a menor falta. E ainda arranjava tempo para dedicar às roseiras que cultivava no jardim com o mesmo carinho que devotava à musa inspiradora que criou a possibilidade de uma vida em família que a vida lhe negara quando criança.


“A honra e a dignidade de um homem devem ser preservadas a todo custo. Na escalada da vida, um escorrego é preferível que seja fatal”. Era o que estava escrito em curto bilhete que meu pai deixou para os colegas de trabalho, na gaveta de sua mesa, na penúltima sexta-feira de maio de 1972, quando decidiu que não voltaria a encontrá-los nunca mais. Naquele dia, recebera o contracheque do mês zerado, por compras antecipadas em supermercado, farmácia, lojas etc., com consignação em sua folha de pagamento. Onde arranjar forças para seguir em frente, humilhando-se a cada novo empréstimo feito junto a agiotas e dando cheque pré-datado em garantia? E se acabasse demitido por conta da emissão de cheques sem fundos?

Deprimido e não suportando rolar a bola de neve de dívidas que se formou desde que, em 1969, perdeu o cargo de confiança que ocupava no banco, reduzindo a menos da metade o salário até então bem ajustado com a numerosa família que formou, meu pai certamente pediu perdão a Deus, na missa de domingo à noite, na capela da Gruta de Lourdes, pela decisão de precipitar por conta própria sua partida, aos 41 anos de idade.

Até hoje nenhum de nós, mamãe, filhos e filhas, conseguiu esquecer por completo o grito coletivo de horror naquela manhã de segunda-feira, 22 de maio de 1972, quando deparamos com seu corpo inerte, tendo ao lado óculos, relógio, aliança e uma carta em que pedia: “Para Eudócia... No bolso de meu paletó preto tem uma relação de minhas dívidas... quero que avise a todos os meus credores que receberão o que lhes devo assim que o seguro for liberado pela Previ... Hayton e Agostinho Filho agora serão os homens da casa... perdão pelo que não pude fazer de bem... “

Ele sabia que o seguro de vida e a pensão vitalícia que deixaria seriam suficientes para, pelo menos, garantir o bem-estar material da esposa e filhos. E eu, aos 14 anos, revoltado sem motivo com o Banco do Brasil naqueles dias de luto, já contava com o apoio e o carinho de Magdala, minha namorada até hoje, mas não conseguia ouvir no rádio uma certa canção sem encher os olhos d’água: https://youtu.be/MJ1lwXPKYt4

Meu pai um dia me falou /Pra que eu nunca mentisse/Mas ele também se esqueceu/De me dizer a verdade/Da realidade do mundo/Que eu ia saber/Dos traumas que a gente só sente/Depois de crescer/Falou dos anjos que eu conheci/No delírio da febre que ardia/Do meu pequeno corpo que sofria/Sem nada entender/Minha mulher em certa noite/Ao ver meu sono estremecido/Falou que os pesadelos são/Algum problema adormecido/Durante o dia a gente tenta/Com sorrisos disfarçar/Alguma coisa que na alma/Conseguimos sufocar/Meu pai tentou encher de fantasia/E enfeitar as coisas que eu via/Mas aqueles anjos agora já se foram/Depois que eu cresci/Da minha infância agora tão distante/Aqueles anjos no tempo eu perdi/Meu pai sentia o que eu sinto agora/Depois que cresci.

Quem poderia imaginar que, dois anos depois, aos 16, eu iniciaria minha própria trajetória no Banco do Brasil (menor aprendiz para serviços gerais), lá permanecendo por mais de 40 anos? Meu filho certo dia me perguntou se durante todo esse tempo de banco eu não estava, na verdade, à procura de meu pai. Na hora, não soube o que responder, mas, hoje, eu não tenho nenhuma dúvida.


Biografia:
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