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Brinquedos
Hayton Rocha




A gente descobre mais cedo ou mais tarde que o tempo para ser feliz é breve e cada minuto que passa, passou. Aprendi isso cedo, nos dois anos que vivi em União dos Palmares, Zona da Mata alagoana, onde cheguei com meus pais e irmãos, em 1968, aos 10 anos de idade.

Não tive todos os brinquedos que sonhei, mas tive bem mais do que precisei, até o dia em que mudamos para Maceió (AL). Brinquei demais, vivi como se não fosse envelhecer. Joguei futebol-de-mesa (botões de casca de coco seco ou de capa de relógio), chimbra (bola-de-gude), finca (espeto de ferro) no chão, bafo de figurinhas repetidas, pião e ponteira. Mas nada me dava mais prazer do que marcar gols pelo “dente-de-leite” do Zumbi Esporte Clube, nas tardes de sábado, e, depois do racha, comprar por dois cruzeiros uma cocada de coco e uma garrafa d’água gelada.

Também mergulhei e pesquei cará, jundiá e piaba no Rio Mundaú, “cacei” calango com peteca de forquilha de goiabeira (estilingue), armei alçapão para pegar papa-capim, galo-de-campina, canário-da-terra, brinquei de faroeste no quintal, desci ladeiras de carrinho de rolimã, roubei caju, goiaba e manga no sítio detrás do cemitério, quebrei dente chupando rolete de cana caiana, deitei galinha choca em ninho de ovos de pata para ver depois a “mãe” agoniada com os pintos nadando na lama e ainda arranjei múltiplos apelidos para sete irmãos menores, pra desespero deles.

Essa apertada “agenda de compromissos” só era interrompida nos dias em que, revezando com alguns irmãos, ia à feira livre ajudar minha mãe a fazer compras, à padaria, à bodega ou levar lanche pro meu pai no trabalho. Era interrompida também quando o puxão de orelhas, a chinelada, o cascudo ou a surra de cinto de couro, quase sempre por um motivo besta qualquer, ardia e me arrancava lágrimas.

Mesmo sem meu boletim escolar ser motivo de preocupação para meus pais, apanhar quase todo dia tornou-se experiência corriqueira e traumática para mim, não apenas pela dor física, mas porque abalou a confiança que deveria haver entre nós, base para me sentir amparado. E eu não poderia me sentir seguro se minha segurança dependia de quem se descontrolava com os aperreios de adulto. Aos poucos, aprendi a enganar, dissimular, mentir. E descobri várias maneiras de esconder o que sentia ou fazia temendo novas surras. Ninguém percebia, mas “eu era uma criança, esse monstro que os adultos fabricam com as suas mágoas”, como escreveu Sartre.

Sobre escola, confesso que nunca gostei de fazer “dever de casa”, depois de um turno inteiro em sala de aula. No Primário, surpreendi minhas professoras, pois só precisava ouvir ou ler algo uma vez para aprender e conseguir notas altas. Tanto que fui aprovado no temido Exame de Admissão - espécie de “vestibular” que havia para ingressar no Ginásio Santa Maria Madalena - com relativa facilidade, em 1969. Do Ginasial em diante, aí sim, quando misturaram números de aritmética com algumas letrinhas para resolução de problemas algébricos, já não foi tão fácil, mas a má vontade com “dever de casa” e o gosto pelas molecagens de rua foram preservados.

Cuidados com a saúde se limitavam a tratar verruga com leite de avelós, colocar gelo sobre as canelas para aliviar queimadura de urtiga e pomada preta “iodex” no dedão do pé, quase todo mês estropiado, correndo atrás de uma bola nos campinhos de terra batida. Vivia assoando o nariz, sempre escorrendo catarro empoeirado. A ancilostomíase (amarelão) e a esquistossomose (barriga d’água, doença do caramujo), resquícios das águas mornas do Rio Mundaú, só foram descobertas e tratadas algum tempo depois, na capital.

No fim da tarde, muitas vezes vi o sol se pondo na Serra da Barriga e imaginava como teria sido Zumbi, símbolo da resistência negra à escravidão, que liderou o Quilombo dos Palmares, comunidade livre formada por escravos fugitivos dos engenhos de cana-de-açúcar da antiga Capitania de Pernambuco, de que fazia parte Alagoas. Na minha inocência, me perguntava: seria alguém como Pelé, só que mais alto e mais forte, feito Maciste ou Spartacus das matinês de sábado, no cinema? Nunca encontrei uma resposta convincente.

Hoje, é difícil não concordar com o que disse Saramago no final dos anos 80: “Quero é recuperar, saber, reinventar a criança que eu fui. Pode parecer uma coisa um pouco tonta... um senhor nesta idade estar a pensar na criança que foi. Mas eu acho que o pai da pessoa que eu sou é essa criança que eu fui. Há o pai biológico e a mãe biológica, mas eu diria que o pai espiritual do homem que sou é a criança que fui”.

A gente acaba convencido, mais cedo ou mais tarde, de que o velho que hoje nos olha no espelho do banheiro não passa da casca que envolve uma criança ainda bem viva dentro de nós, vestida para o espetáculo da vida com seus novos brinquedos que surgem a cada amanhecer.


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