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Estórias infantis revelam o novo paradigma do século XXI
Procura de Nemo e Shrek
Sonia Regina Rocha Rodrigues

Resumo:
uma análise da evolução da temática das histórias infantis nos filmes modernos

Proponho-me a levantar a seguinte questão, partindo da análise dos filmes À Procura de Nemo e Shrek I e II:   o mundo mudou; mudaram também os contos de fadas e as estórias infantis que a eles se equiparam.
     A jornada do herói já não é, como dizia Campbell, sempre a mesma estória que se conta de diferentes maneiras.                     
     Tradicionalmente, o conto de fadas trazia alívio ao sofrimento infantil face a fortes emoções, através de resgate, escape e consolo, como brilhantemente ilustrou Bettelheim em seu A Psicanálise dos Contos de Fadas. O alívio advinha do evoluir da psique para um estágio mais maduro, porque o conto de fadas elabora de forma simbólica os conflitos entre a criança e o mundo. Tratava-se de evoluir para ser feliz,     O sucesso de Nemo e Shrek surpreendeu-me, pois nas ultimas décadas tenho observado um nítido desinteresse pelos contos de fadas tradicionais. Há mesmo uma tendência a distorcer e a escarnecer destas estórias, através das conhecidas piadinhas em que, por exemplo, a princesa beija o sapo e transforma-se em uma sapinha. Ocorre que as pessoas continuam interessadas em estórias, mas por um novo tipo de estórias, com uma diferente abordagem da psique e do estar no mundo. As estórias de hoje trazem alívio psicológico sobre um diferente enfoque: aceitar-se e acreditar em si para ser feliz.
     Durante séculos o bem estar do indivíduo entrava em oposição ao interesse comum. O que era bom para a sociedade não era necessariamente bom para o indivíduo. Casamentos arranjados, regras profissionais, tratados comerciais e políticos massacravam até mesmo os reis. Por outro lado, o que era bom para o indivíduo não era bom para a sociedade. Liberdade de escolha, criatividade e espontaneidade – privilégio de poucos - ameaçavam a produção, a defesa do solo e a família, que, sem o controle de paternidade e sem a autonomia das mulheres, necessitava do arrimo masculino.
     De Platão a Comte, os pensadores tradicionais incentivaram os homens a cultivar o melhor em si mesmo, seguindo modelos pré-idealizados que visavam o interesse comum. O Eu era imperfeito e necessitava de auto-controle severo. Quem ousasse discordar das regras estabelecidas sofria desprezo, humilhações, exílio e até a morte.
     Na contramão da cultura, pensadores como Nietszche denunciavam o que diziam ser uma técnica de antropometria a escravizar o espírito humano; defendendo o direito à liberdade e à felicidade pessoal. O Eu é perfeito, necessitando apenas florescer, manifestar-se, sendo-lhe impossível tornar-se um Eu diverso ou melhor.
     Eis que, nas últimas décadas do século XX, o individual vem ganhando cada vez mais espaço, em detrimento de valores tradicionais. Divórcio,homossexualismo, celibato, tolerância religiosa (ao menos em nosso abençoado Brasil), nada escandaliza a sociedade atual, que através de suas leis trata de garantir os direitos fundamentais.
          Tempos mais felizes aguardam as crianças que são criadas com estórias como À Procura de Nemo e Shrek I e II.
     Nessas estórias, a tônica é a manifestação do Eu, a aceitação da individualidade, a que se reconhece o direito de SER em um mundo mutante aberto a infinitas possibilidades.
     No conto de fadas tradicional o herói (o príncipe, ou seja, o filho) tem uma missão a cumprir e seu mérito é a vitória. Nas novas estórias o mérito é a persistência. Na estória de Nemo, o herói está invertido: não é o filho que parte para salvar o pai, e sim o pai que parte para salvar o filho. Quando este pai não chega a tempo – pensa que fracassou –continua simpático ao expectador e merecedor de todo o apoio de seus aliados (os pelicanos, a peixinha).
     O conto de fadas tradicional parece querer moldar o espírito infantil para o sacrifício e a busca de valores pré-estabelecidos. Seus heróis perdem partes do corpo, renunciam a prazeres, trabalham arduamente, conquistam princesas, animais encantados ou objetos de ouro enclausurados em torres ou palácios, sob a guarda de ferozes dragões, bruxas ou encantamentos.
     Já as estórias atuais abandonam esta simbologia para explicitamente valorizar a determinação de atingir sua meta, a coragem de assumir suas peculiaridades e a capacidade de adaptação a um ambiente instável.
     A figura do mentor, símbolo da força interior do herói, desaparece, e ao invés de santos disfarçados, gênios ou fadas madrinha, o companheiro do herói é um igual, imperfeito. Em Nemo, a peixinha distraída, em Shrek, o asno solitário.
     Os objetos mágicos dão lugar a conselhos práticos: ‘continue nadando’, ‘faça alguma coisa’, ‘qualquer coisa!’, enfim, persista.
     Observamos na estória de Nemo uma inversão genial – o pai parte para a aventura, o pai se modifica ao final e o pai é o responsável pelos deslizes do filho.
Diz a peixinha “que coisa estranha para se desejar a um filho, que nada lhe aconteça, pois, se nada lhe acontecer, sua vida será muito sem graça”.
     Nemo é uma estória para pais superprotetores e ansiosos ante a fragilidade dos filhos, que, superprotegidos, tendem a ficar cada vez mais frágeis. Este comportamento é prejudicial à criança, gera nela sentimentos de raiva e estimula a rebeldia. Injustamente acusado pelo pai, Nemo foge para o mar aberto, o que segundos antes nem se atreveria a pensar, é capturado e tem início a saga paterna. O pai vê-se obrigado a confrontar seus medos, a superar suas limitações, a expor-se a novas possibilidades; neste processo torna-se autoconfiante. Ao final, o filho é aceito e até estimulado a participar da alegre aventura da vida.
É fácil para a criança identificar-se com Nemo; ela é a parte mais fraca da relação pai-filho, com pouco poder de negociação, e desejosa de ser vista como alegre, bonita e meiga como o peixinho.
     Já a identificação com Shrek ocorre pelo lado sofrido da infância. O ogro é criticado, desengonçado, feio, socialmente inadequado, sem controle do próprio corpo: arrota, peida, suja-se todo. Ora, estes desastres a criança conhece bem, principalmente a da cidade, sem direito ao contato saudável com a terra, a lama, o rio, os bichos, a ‘sujeira’, enfim; obrigada a um precoce treinamento higiênico em creches e pré-escolas. A maior parte de nossa crianças desconhece a agradável manipulação da natureza, ou tem acesso a ela em horários rigidamente regulados, como a ida à praia aos domingos pela manhã, mas ‘lave bem as mãos’ e ‘não coloque o dedo sujo de areia na boca, senão...’.Ora. em Shrek, a sujeira não é necessariamente ruim, pode ser divertida, e o ogrozinho se enlameia, transforma sapos em bolas de gás, faz caretas etc
Shrek é o herói que não se encaixa nas expectativas, não é o certinho; é rude, sacode a princesa, recusa o beijo de amor, demonstra sua boa índole através de atitudes bem estranhas, como fazer um churrasco de ratos, brincar de empurrar ou presentear com sapos a sua amada.
Já o príncipe, o certinho( em ShrekII em 3D), é visto com ressalvas, por ser vaidoso, superficial e sem vontade própria. Está obedecendo à vontade da mãe e chega atrasado à torre!
Nessas novas estórias, a princesa, não mais uma figura decorativa, tem a opção de escolher seu destino. É corajosa, luta karatê, questiona seus pretendentes e pode decidir-se entre ser princesa ou ogra, assumindo seu lado individual e criativo.
Se no conto tradicional o beijo de amor leva ao plano ideal e quebra o encanto, no conto moderno o beijo de amor leva ao plano real e reafirma o encanto. (ogra) Interessante é notar a conotação da expressão ‘quebrar o encanto’, pois quebrar o encanto deixa tudo sem graça, previsível.
O conto tradicional convida o leitor a renunciar à individualidade em nome de um ideal coletivo. O conto moderno estimula o indivíduo a aceitar-se e a buscar a própria felicidade. Não importa se você é um ogro, em algum lugar haverá uma ogrinha esperando por você.
Se no conto tradicional os valores estão de antemão estabelecidos e consagrados, no moderno os valores apresentados são rejeitados e ousa-se buscar a liberdade, a autenticidade, a criatividade. Em um século em que a informação e a tecnologia evoluem minuto a minuto, as barreiras geográficas desaparecem e a comunicação é praticamente instantânea, esta ousadia é a diferença entre o sucesso e o fracasso.
Resumindo, o conto de fadas tradicional nos diz: Siga as regras para ser feliz.
O conto infantil moderno aconselha, de maneira muito simpática: Seja você sem medo de ser feliz.


Biografia:
Sonia Regina Rocha Rodrigues Ou Sonia Rodrigues, como costuma assinar, é médica e nasceu em Santos, SP, em 21 de maio de 1955. Escreve poesias, contos, crônicas e romances. Em 1996, foi classificada na fase municipal do certame Mapa Cultural Paulista, representando a cidade de Bebedouro/SP, com o conto "A auditoria". Foi co-editora do jornal literário Um Dedo de Prosa, de agosto de 1996 a dezembro de 1998 e da revista de arte Chapéu de Sol, de janeiro de 1999 a 2000. Publicou Dias de verão, contos e crônicas, pela editora Legnar, em 1998 e O que você diz a seu filho?, programação neurolinguística para pais e educadores, pela Espa Editora.Atualmente gerencia o site Alegria de Ler: http://www.alegria.deler.nom.br
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Outros títulos do mesmo autor

Crônicas O barqueiro tailandês Sonia Regina Rocha Rodrigues
Artigos Estórias infantis revelam o novo paradigma do século XXI Sonia Regina Rocha Rodrigues
Crônicas Cronica de Natal Sonia Regina Rocha Rodrigues


Publicações de número 1 até 3 de um total de 3.

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