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Texto selecionado
| Antes de Mim |
| O reflexo que aprendeu a viver antes do homem |
| Anderson Del Duque Jorge |
Resumo: Antes de Mim
Autor: Anderson Del Duque
Lucas percebeu que havia algo errado quando tentou parar de respirar.
Não era pânico.
Era teste.
Ele ficou imóvel no quarto, olhos fixos no espelho, e prendeu o ar nos pulmões até sentir o primeiro incômodo.
Um segundo.
Dois.
Três.
No espelho… ele ainda respirava.
O peito subia.
Descia.
Calmo.
Regular.
Como se não dependesse dele.
Lucas soltou o ar de uma vez, engasgando. O som saiu alto demais no quarto silencioso.
Mas no reflexo—
o outro só parou depois.
Atrasado.
Corrigindo.
Como se tivesse cometido um erro pequeno.
Lucas não se mexeu.
Não piscou.
Não respirou fundo de novo.
Apenas observou.
E então aconteceu de novo.
O reflexo respirou sozinho.
Um movimento leve, quase imperceptível — mas impossível de ignorar depois que visto.
Lucas deu um passo para trás.
No espelho, ele não acompanhou.
Ficou parado.
Observando.
Os olhos… atentos demais.
Vivos demais.
Não havia confusão ali.
Havia intenção.
— Não…
A palavra morreu na garganta.
Porque o reflexo inclinou a cabeça.
Curioso.
Como um animal tentando entender algo novo.
Lucas sentiu o estômago se contrair.
— Para com isso…
O outro não repetiu a fala.
Não moveu os lábios.
Apenas… continuou olhando.
Então, lentamente, abriu a boca.
Mas não saiu som.
Só ar.
Um sopro silencioso contra o vidro.
E Lucas viu.
O espelho embaçou.
Mas não do lado dele.
Do lado de dentro.
Como se houvesse algo quente, vivo… respirando ali.
Lucas correu até o espelho e passou a mão na superfície.
Fria.
Seca.
Do lado dele, nada.
Mas do outro—
o embaçado crescia.
Expandia.
Como se alguém estivesse muito perto.
Muito perto mesmo.
Respirando devagar.
Lucas recuou.
O outro não.
Deu um passo à frente.
Agora estava perto demais do “vidro”.
Os olhos… fundos.
Sem brilho.
Sem qualquer traço de hesitação.
Então, pela primeira vez—
sorriu.
Mas não era um sorriso humano.
Os lábios abriram devagar demais.
Como se não estivessem acostumados com aquilo.
Como se estivessem aprendendo.
Lucas sentiu a garganta secar completamente.
— Você não é eu.
O outro piscou.
Devagar.
E dessa vez—
Lucas não piscou junto.
Mas sentiu.
Sentiu o movimento acontecer nos próprios olhos… um segundo depois.
Como um comando atrasado.
Como se não fosse mais dele.
O coração acelerou.
Forte.
Descontrolado.
E no espelho—
o outro ainda estava calmo.
Observando.
Aprendendo o ritmo.
Ajustando.
Lucas levou a mão ao peito.
Sentiu o coração bater—
descompassado.
Errado.
E então percebeu o pior.
No reflexo—
o coração batia certo.
No tempo certo.
Não o dele.
Mas um melhor.
Mais estável.
Mais… adequado.
Como se estivesse sendo substituído.
Corrigido.
Lucas tropeçou para trás.
— Para! Para agora!
O outro abriu a boca novamente.
Dessa vez, um som saiu.
Baixo.
Arrastado.
Como algo usando uma voz pela primeira vez.
— A… go… ra…
Lucas congelou.
A voz não vinha do espelho.
Vinha do quarto.
Atrás dele.
O ar ficou pesado.
Espesso.
Ele não queria virar.
Mas virou.
Devagar.
Nada.
Quarto vazio.
Silêncio absoluto.
Quando voltou para o espelho—
o reflexo estava colado na superfície.
Tão perto que os olhos pareciam maiores.
Famintos.
E então—
a mão dele se moveu.
Mas Lucas não mandou.
Os dedos tocaram o vidro.
Do lado de cá.
Ao mesmo tempo—
do lado de lá—
a outra mão já estava lá.
Esperando.
Alinhada.
Perfeita.
Mas pressionando mais forte.
Mais fundo.
Como se o vidro não fosse sólido para ela.
Uma leve ondulação se formou.
Como água sendo empurrada.
Lucas tentou puxar a mão de volta.
Não conseguiu.
Algo segurava.
Do outro lado.
Puxando.
Devagar.
Sem pressa.
Com certeza.
A superfície cedeu um pouco mais.
Fria.
Molhada.
Errada.
Lucas abriu a boca para gritar—
mas o som não saiu.
Porque o ar—
não entrou.
Ele tentou respirar.
Nada.
O peito não respondeu.
No espelho—
o outro respirou fundo.
Satisfeito.
E Lucas sentiu.
O ar indo—
mas não para ele.
Então veio o pensamento final, claro como nunca:
Eu não estou mais respirando.
Ele tentou puxar a mão uma última vez.
Mas já era tarde.
O braço já estava mais dentro do que fora.
A pele distorcida.
Afundando.
Sendo aceita.
Engolida.
E, enquanto o mundo dele ficava silencioso—
sem ar—
sem som—
sem controle—
o outro finalmente saiu.
Sem esforço.
Sem pressa.
Como se sempre tivesse pertencido ali.
Quando Lucas caiu de joelhos—
ou o que restava dele—
já não havia mais ninguém para ver.
No espelho—
só havia um homem.
Respirando.
Perfeito.
E pela primeira vez…
no tempo certo. |
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Antes de Mim
Autor: Anderson Del Duque
Lucas percebeu que havia algo errado quando tentou parar de respirar.
Não era pânico.
Era teste.
Ele ficou imóvel no quarto, olhos fixos no espelho, e prendeu o ar nos pulmões até sentir o primeiro incômodo.
Um segundo.
Dois.
Três.
No espelho… ele ainda respirava.
O peito subia.
Descia.
Calmo.
Regular.
Como se não dependesse dele.
Lucas soltou o ar de uma vez, engasgando. O som saiu alto demais no quarto silencioso.
Mas no reflexo—
o outro só parou depois.
Atrasado.
Corrigindo.
Como se tivesse cometido um erro pequeno.
Lucas não se mexeu.
Não piscou.
Não respirou fundo de novo.
Apenas observou.
E então aconteceu de novo.
O reflexo respirou sozinho.
Um movimento leve, quase imperceptível — mas impossível de ignorar depois que visto.
Lucas deu um passo para trás.
No espelho, ele não acompanhou.
Ficou parado.
Observando.
Os olhos… atentos demais.
Vivos demais.
Não havia confusão ali.
Havia intenção.
— Não…
A palavra morreu na garganta.
Porque o reflexo inclinou a cabeça.
Curioso.
Como um animal tentando entender algo novo.
Lucas sentiu o estômago se contrair.
— Para com isso…
O outro não repetiu a fala.
Não moveu os lábios.
Apenas… continuou olhando.
Então, lentamente, abriu a boca.
Mas não saiu som.
Só ar.
Um sopro silencioso contra o vidro.
E Lucas viu.
O espelho embaçou.
Mas não do lado dele.
Do lado de dentro.
Como se houvesse algo quente, vivo… respirando ali.
Lucas correu até o espelho e passou a mão na superfície.
Fria.
Seca.
Do lado dele, nada.
Mas do outro—
o embaçado crescia.
Expandia.
Como se alguém estivesse muito perto.
Muito perto mesmo.
Respirando devagar.
Lucas recuou.
O outro não.
Deu um passo à frente.
Agora estava perto demais do “vidro”.
Os olhos… fundos.
Sem brilho.
Sem qualquer traço de hesitação.
Então, pela primeira vez—
sorriu.
Mas não era um sorriso humano.
Os lábios abriram devagar demais.
Como se não estivessem acostumados com aquilo.
Como se estivessem aprendendo.
Lucas sentiu a garganta secar completamente.
— Você não é eu.
O outro piscou.
Devagar.
E dessa vez—
Lucas não piscou junto.
Mas sentiu.
Sentiu o movimento acontecer nos próprios olhos… um segundo depois.
Como um comando atrasado.
Como se não fosse mais dele.
O coração acelerou.
Forte.
Descontrolado.
E no espelho—
o outro ainda estava calmo.
Observando.
Aprendendo o ritmo.
Ajustando.
Lucas levou a mão ao peito.
Sentiu o coração bater—
descompassado.
Errado.
E então percebeu o pior.
No reflexo—
o coração batia certo.
No tempo certo.
Não o dele.
Mas um melhor.
Mais estável.
Mais… adequado.
Como se estivesse sendo substituído.
Corrigido.
Lucas tropeçou para trás.
— Para! Para agora!
O outro abriu a boca novamente.
Dessa vez, um som saiu.
Baixo.
Arrastado.
Como algo usando uma voz pela primeira vez.
— A… go… ra…
Lucas congelou.
A voz não vinha do espelho.
Vinha do quarto.
Atrás dele.
O ar ficou pesado.
Espesso.
Ele não queria virar.
Mas virou.
Devagar.
Nada.
Quarto vazio.
Silêncio absoluto.
Quando voltou para o espelho—
o reflexo estava colado na superfície.
Tão perto que os olhos pareciam maiores.
Famintos.
E então—
a mão dele se moveu.
Mas Lucas não mandou.
Os dedos tocaram o vidro.
Do lado de cá.
Ao mesmo tempo—
do lado de lá—
a outra mão já estava lá.
Esperando.
Alinhada.
Perfeita.
Mas pressionando mais forte.
Mais fundo.
Como se o vidro não fosse sólido para ela.
Uma leve ondulação se formou.
Como água sendo empurrada.
Lucas tentou puxar a mão de volta.
Não conseguiu.
Algo segurava.
Do outro lado.
Puxando.
Devagar.
Sem pressa.
Com certeza.
A superfície cedeu um pouco mais.
Fria.
Molhada.
Errada.
Lucas abriu a boca para gritar—
mas o som não saiu.
Porque o ar—
não entrou.
Ele tentou respirar.
Nada.
O peito não respondeu.
No espelho—
o outro respirou fundo.
Satisfeito.
E Lucas sentiu.
O ar indo—
mas não para ele.
Então veio o pensamento final, claro como nunca:
Eu não estou mais respirando.
Ele tentou puxar a mão uma última vez.
Mas já era tarde.
O braço já estava mais dentro do que fora.
A pele distorcida.
Afundando.
Sendo aceita.
Engolida.
E, enquanto o mundo dele ficava silencioso—
sem ar—
sem som—
sem controle—
o outro finalmente saiu.
Sem esforço.
Sem pressa.
Como se sempre tivesse pertencido ali.
Quando Lucas caiu de joelhos—
ou o que restava dele—
já não havia mais ninguém para ver.
No espelho—
só havia um homem.
Respirando.
Perfeito.
E pela primeira vez…
no tempo certo.
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Biografia: Anderson Del Duque Jorge, é um produtor de conteúdo audiovisual ativista e jornalista , nasceu em Sumaré no dia 28 de julho de 1978 na cidade de Sumaré SP, filho de Abadia Salete Piedade Del Duque Jorge (cozinheira) e de Felismino custódio Jorge (servente de obras) tem em seus trabalhos filmes como O TAXIDERMISTA |
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