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Engraxando a bota
Cláudio Thomás Bornstein


Quando me mudei, há alguns anos atrás, deixei parte das coisas na casa velha, que ficou para os meus filhos. Acontece que eles também precisam de lugar, e foi assim que em uma das muitas arrumações que eles fizeram, algumas caixas de papelão, malas e sacolas vieram me procurar aqui na minha residência nova

A grande maioria do material eram fotografias, fotografias antigas dos meus pais e até dos meus avós. Fotografias de papel. Pensei que as futuras gerações certamente não terão mais este problema. A fotografia digital torna mais fácil o armazenamento das informações. Mas corre-se o risco de perder parte da memória, porque e eletrônica perde-se na nuvem, e a nuvem perde-se no espaço. Sem memória, como é que fica a unidade? Como é que fica o futuro sem passado?

No meio das fotografias, uma grande caixa de papelão continha roupas de inverno, sobras das minhas andanças pelas terras frias. No meio das roupas, um par de botas. Me lembrei da história.

Estava eu fazendo uma caminhada de três dias com um amigo suíço pelo Ticino, quando chegamos a um riacho que havia que atravessar a vau. Tirei as botas e as atirei para o outro lado do rio, mas a força foi pouca ou a pontaria falha, o rio era encachoeirado, correnteza forte e lá se foram as botas rio abaixo.

E agora? Meu pé é de moça, pele fina. A trilha cheia de pedras, cascalho. Não sei como consegui chegar ao próximo povoado, sorte que a Suíça é pequena, densamente povoada, sorte também que sempre havia um mato, uma graminha onde dava para pisar.

Chegando ao povoado a primeira providência foi comprar um novo par de botas. É justamente este par de botas que está aqui na caixa de papelão, na casa nova, aguardando o seu destino.

Tirei as botas da caixa. Examinei-as com cuidado. O couro continua flexível e macio. Depois de quase cinquenta anos de sono profundo, interrompido uma ou outra vez por uma engraxada ocasional, as botas estão perfeitas como no primeiro dia de uso. O trabalho é magnífico, eu diria que no povoado onde eu comprei, havia um artesão que as fabricava, porque a forração interna denota um cuidado e um esmero pouco usual no sapato industrial. Tudo é couro, não há plástico, não há tecido.

Eu ia jogar fora uma preciosidade destas? Um repositório das minhas memórias mais caras e mais queridas? Um monumento ao trabalho, um depoimento do apreço, desvelo e abnegação de um artesão, um testemunho da busca de perfeição? Eu ia jogar fora? Nunca, nunquinha!

Eu peguei a minha melhor cera de engraxar, uma que só uso em ocasiões especiais e engraxei as botas, consciente de que jamais as usarei de novo, consciente também que jamais meus filhos vão querer usá-las. São botas antiquadas, o formato está fora do padrão utilizado hoje em dia. São botas complicadas de vestir, um longo cordão dá muitas voltas que há de apertar espira por espira. Não condiz com os tempos modernos em que acima de tudo está a praticidade.

Mas, quem sabe? Chegamos ao final dos tempos. Houve acúmulo de erros, gerando o impasse. O que virá depois, a gente não sabe. Pode não sobrar nada, ou pode recomeçar tudo da estaca zero. Neste caso, há que fazer a coisa de forma diferente. E, quem sabe, as botas podem dar uma ideia? Ou pode um extraterrestre, em um futuro remoto, vir nos visitar e descobrir a bota. Vai ficar maravilhado com o nível atingido pela nossa civilização.

Temos aqui um paradoxo. A mesma civilização que produziu a bota, produziu também o impasse no qual nos encontramos. Mas isto também é algo positivo. Porque se a mesma civilização pode gerar a bota e a bomba atômica, isto mostra o imenso potencial de alternativas que a vida oferece. Dentro desta infinita capacidade de moldar a existência, a minha opção é pela bota. Foi por causa disto que eu a engraxei.



Biografia:
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