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MÃE DE NINGUÉM
Anchieta Mendes
Sentada de baby doll na poltrona da sala, pernas cruzadas, ela lê notícias e entrevistas que se seguiram ao seqüestro do ônibus 174, do Jardim Botânico. Ela, muito além das imaginações, se vê frente a tantas perguntas sobre o ocorrido. As letras embaralhadas do jornal foram escritas, decerto, por mãos trêmulas, talvez afoitas para fazerem justiça. Talvez não querendo formular palavras tão ardorosas, tão vis, noticiando tragédia, espalhando "notícia ruim" pelos quatro cantos.
Mas, será que, em meio a tanta violência - como tantas outras que esses jornais já noticiaram - não se lembrassem de escrever sobre alguém tão distante e ao mesmo tempo tão próximo, como exemplo a mãe do assassino?
A mulher, morena, magra, com lágrimas nos olhos e nas faces, ergueu-se pesada. Deixou cair o jornal no chão, caminhou lenta até a televisão, onde em cima estava um retrato. Tomou-o nas mãos trêmulas, e fitou o filho nele. O sorriso que vinha da imagem fez a mulher suspirar e estremecer-se. Vieram imagens do passado, do crescimento do filho, da escola que ele abandonou, do homem que se fizera mas que não sentira; do desaparecimento brusco. Lembrou que percorrera a favela por inteira, fora a jornais, à polícia, à radio comunitária, aos mais tenebrosos lugares. Ouvira falar, de uma feita, que o mesmo se apaixonara por uma viúva, que fora morar com ela. Outra vez, alguém disse que o mesmo era líder de uma gang, respeitado por todo o bairro. Só sabia ela que não mais tinha visto o filho. Mas, naquelas terríveis horas mostradas pela televisão, pelo olhar enlouquecido daquele rapaz, não podia se iludir: era o seu desaparecido filho. Só não sabia responder o por quê dele ter reaparecido de forma tão bruta, tão viril. O que estava faltando a ele: amor, carinho?
Pôs o retrato de volta. Tentou enxugar as lágrimas com o dorso da mão. Foi até a janela da sala. Queria ver o mundo e tentar esquecer o ocorrido. Abriu a janela, e foi como se ligasse a televisão naquela manhã seguinte ao desastre: se viu no noticiário. "A mãe do assassino aparece, querendo enterrar o filho". Não, queria enterrar a si mesma, esconder-se da realidade, fugir para encontrar o filho perdido. Onde ele estava naquele instante?
O mundo se abriu com o vento a lhe soprar o rosto. As pessoas que passavam pela rua a fitavam com outros olhos. Sentia nelas comentários, dúvidas, incredulidade, horrores. Será que viam nela a culpada de tudo, de não ter dado carinho, amor ao filho? Será que aquelas horas terríveis, da falta de pão, de agasalho, dos móveis e pertences indo de enxurrada a baixo foram decisivos para a tomada de decisão do filho: ser criminoso? A pobreza sempre no encalço dos calcanhares - como a morte - enamorada fiel de tantos anos seria desculpa fatídica para o fim?
"Onde está meu filho?" - gritou da janela. Mas os que estavam passando a esmo ou parados na esquina, não ouviram o apelo. Certamente da garganta a voz não passou, e da mente revolucionou o momento.
Voltou para a sala, pisou no jornal que estava no chão. Trocou-se. Tomou a decisão: tinha que enterrar o filho querido.
Quando se deu conta já estava na rua, se misturando a outras pessoas, a outras tantas mães. Olhava para elas e queria fazer perguntas, saber o que de errado tinha cometido. Lembrou, a meio a buzinas, sirenes, vozes e algazarras, do pai do menino que não assumira o filho, e este quando cresceu sempre perguntou por ele. " Está viajando, trabalhando". Era obrigada a mentir, e nunca tinha coragem de dizer a verdade. Muitas foram as vezes que queria ir ao cartório registrar o filho, mas tinha vergonha. Muitas das vezes, também, não tinha dinheiro, não tinha alguém, não tinha um político, não tinha voz. E o menino crescia, e o tempo tentava dizer o quanto seria terrível o futuro, até aquele dia tenebroso. Viu-o de boné para trás, por detrás da vidraça do ônibus, agarrado àquela moça. Lembrou, no momento, de que gostava de vê-lo usando o boné ao contrário: era a moda. Via-o também chegando em casa, já altas horas, com dinheiro no bolso, relógio no pulso, cheiro de alfazema no corpo. Noutro dia já não via mais dinheiro, relógio e mais nada.
Quando voltou do IML, voltou com uma decepção. Já tinham enterrado seu rebento. Não entregaram o corpo do filho, porque achavam que não era a mãe. Mas podia provar, os seus olhos com os dela; as suas mãos - vejam - são idênticas... as unhas. Não aceitaram.
Correu a comprar flores: flores para um defunto. Sem pai, sem mãe. Mas ela era a mãe: representava uma classe massacrada, maltratada, terrível. Não simpatizava com as suas ações, claro, mas antes de qualquer coisa esta classe nasceu de uma mãe. Mãe congênita, mãe pátria.
Um mês após o enterro, naquela pequena casa da favela, pela janela que sempre se abria nas primeiras horas da manhã, uma mãe, que não era mãe, se debruçou no peitoril e gritou: "Onde está meu filho"?
Uma andorinha que tinha acabado de pousar no fio, alçou vôo assustada.
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