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Rua sem saída
Flora Fernweh

Que falta me faz a rua do bairro de minha juventude, os canteiros sorrriam flores alegres ao meu coração esperançoso e as casas se alinhavam no sonho certo de um futuro. Naquele tempo o mundo funcionava, os pássaros cantavam e eu caminhava sempre em frente, havia pouco passado que eu pudesse contemplar. Passei horas sentado na calçada à espera de grandes novidades, sedento por aventuras, espiei as janelas mais secretas em busca de mistérios. A época era fecunda para os amores que iam e vinham, peregrinando meus sentidos e carregando um pouco de mim ventos afora. A rua não tinha fim, mas a vida tinha, e eu não gosto de lembrar disso, mas às vezes me pego pensando, apenas para não esquecer o que é viver. A rua era curta para um homem do mundo como eu, e muito estreita para quem tem sonhos que não cabem em si, eu queria descobrir a imensidão do viver, mas receava em conhecer o fim da rua, o beco que escancara o fim da linha, o ponto sem retorno na madrugada escura. Sempre quis transformar a ruela na avenida de meu ser, quis enxaguar a terra, transformá-la em uma ponte entre o que é o que virá, quis incorporá-la a mim, não era só uma rua na qual trafegam lembranças, era o livro aberto e ladrilhado em que cravei o que sou, ou que pelo menos acreditava ser naquele poente em que fiz meu pacto com ela. A rua só tem uma direção, nunca aprendeu a retornar, mas ao menos tentou perfumar a jornada com suas sutilezas singelas que conforta todo coração. A cada passo, algo é deixado para trás, a cada metro, uma memória se dissipa, a cada tropeço os joelhos se desgastam, aos poucos as pernas cansam e o corpo desgasta, desgosta e desaba. Posso olhar para trás, breves olhares a ruazinha permite e até incentiva, pois sabe que às vezes é preciso colher ensinamentos que estão guardados com o tempo que já se foi, para que continuemos a marcha com um olhar um pouco mais sábio do que com aquele que tínhamos quando iniciamos. Só conheceria plenamente o fim de minha rua, quando eu encarasse sem medo o destino inevitável, sempre aberto, minha rota de colisão alcançada pela tarefa que minhas pernas desempenharam toda a vida: a caminhada em direção ao fim. Eu já sabia que a rua não terminava em uma estrada movimentada, assim como os rios que deságuam no mar. Aquela vereda incompreendida é silenciosa, é fosca e brilhante ao mesmo tempo, é menos hermética do que a forma como nossos olhos se acostumaram a vislumbrá-la e imaginá-la. Antiguidades e civilizações inteiras passaram por suas ruazinhas brandas ao encontro da saída inexistente e do fim que está espreitando logo ali, povos se embrenharam por trilhas laterais na tentativa de fugir dela, mas todos os caminhos desembocam no inexplicável. O único incompreensível sobre o qual temos nossa maior certeza: a de um fim, já nos levou a fantasiar no chão, a parar o fluxo e criar entidades divinas, quero um dia voltar e perguntar à ruela, se ela ainda ri de nossas piadas instigantes ou se tanto como nós, ela tem muito a nos dizer. Como um marujo no mar de minhas vivências, sonho em encontrar um porto em seu final, que me conduza em um pequeno e solitário bote de reflexão, rumo a eternidade paradisíaca que se esconde para além do fim do mundo. É fácil ler endereços e nomes de ruas, mas esta guardava sons melódicos ao invés de letras, e seres de todos os tipos ao invés de números, nomeá-la é uma tarefa que cabe somente a quem marca seus rastros nela. Eu batizei-a de rua da vida, e ela é rara e insubstituível.


Biografia:
Sobre minha pessoa, pouco sei, mas posso dizer que sou aquela que na vida anda só, que faz da escrita sua amante, que desvenda as veredas mais profundas do deserto que nela existe, que transborda suas paixões do modo mais feroz, que nunca está em lugar algum, mas que jamais deixará de ser um mistério a ser desvendado pelas ventanias. 
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