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TEMPO AO TEMPO
Flora Fernweh

“As aldeãs andavam pelas ruas sujas de um dia nublado, crianças apinhadas com seus irmãos poeirentos trotavam tristes, em uma marcha retilínea e indiferente.” Eis o trecho escrito pela garota, na torre do relógio daquela cidadela deprimida. Por que o badalo rouco das horas que o metade do mundo esqueceu e a outra metade se desfez? O que é um minuto se a eternidade cabe em um frasco bem menor? A menina se questionava, era dona de um coração valente, não permitia que o surto de depressão repentino a maculasse, pois sabia que a vida exigia força e coragem nos tempos em que a luz não vencia a sombra do abismo, era uma alma feroz e destemida, apunhalada pela juventude retumbante de seu coração e rutilada por seus traços precoces de mulher. Acompanhava assim, o dia a dia quieto e o remoía em sua mente barulhenta antes de transpor cada detalhe inescapável aos seus olhos de águia no papel confidente e amigo. Nada fugia a uma brilhante observadora como a menina-moça, cada folha caída era um anúncio, cada olhar enviesado rasgava sua curiosidade, era digno de mistério, cada pressa banal era uma ânsia em seu peito que tudo sentia. Absolutamente tudo era um alarde maior que sua vida sépia. Se um dia, a noite desistisse de cair e o sol mesmo acanhado não rebentasse ao leste, suas meninices se cristalizariam, como os diamantes no véu da noite perpétua. Enquanto houvesse o amanhã e as voltas de seu mundo, todo o resto estaria em paz, e enquanto aquele relógio tiquetaqueasse o tempo sistemático e costumeiro, nada nem ninguém a perceberia lá em cima, no panóptico da cidade. O tempo era sua cortina, roubava-lhe o primeiro plano na cena que ninguém precisava ver, era seu disfarce ideal. Menina-moça dava corda, acendia o tempo, o motor de sua vida era uma engrenagem radiante no centro da cidade. O resto das almas, quase todas fustigadas, andava sem tempo de olhar o tempo lá em cima, e sem tempo para o tempo de se contentar com a informação de seus relógios de bolso. Às vezes, cansava-se de ver o tempo correr, as portas rangerem, as vidas vagarem, as mentes fecharem, descia do relógio que chamava de seu, desfazia-se do tempo que não tinha quando rebaixada ao nível do supérfluo citadino, e em sua imaginação, triturava cada segundo perdido das vidas alheias e transformava cada instante não vivido daqueles que julgavam-se conhecedores de tudo. Reconhecia em si mesma o desejo de intensidade, longe do precipício das horas, do passo das épocas e da jornada do tempo.


Biografia:
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