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A tv de papel
(101 atrações de tv que sintonizaram o Brasil, do Oiapoque ao Chuí)
Roberto Queiroz

Seja você um amante ou detrator da televisão, não há como negar: ela reformulou a maneira de pensarmos nossa sociedade (seja para melhor ou, em muitos casos, para pior). E com chegada da tv a cabo e o streaming ao setor, não só a concorrência tornou-se mais acirrada como o leque de opções possíveis aos espectadores aumentou. Como bem diria minha avó materna: "são os tempos mudernos, meu filho!". E dessa modernidade caótica, líquida, deturpada, nasce aquela que eu costumo chamar de "a verdadeira constituição deste país", tendo em vista que grande parcela de nossa população toma suas decisões baseados em programas, séries, novelas e humorísticos televisivos. Se você não conhece ninguém assim, me perdoe, mas é um extraordinário mentiroso.

Polêmicas à parte e sabedores do papel que a televisão tem de alterar padrões, modismos e comportamentos, foi uma grata surpresa poder esmiuçar com calma, sorvendo cada capítulo, à 101 atrações de tv que sintonizaram o Brasil. da colunista do jornal O globo Patrícia Kogut. Eu já tinha olhado o exemplar nas prateleiras das livrarias Cultura e Saraiva (que vivem um momento delicado, por conta da crise financeira do estado) sem dar muita atenção, pensando tratar-se de uma bobagem cheia de ilustrações e pouco conteúdo. Estava enganado. E digo mais: ficam aqui meus elogios à equipe que ajudou Patrícia a pesquisar o conteúdo a ser desmembrado no livro. Acho que não deixaram nada de mais relevante de fora da obra.

101 atrações vai de personagens fundamentais - e obrigatórios - para o entendimento do que conhecemos hoje como televisão (Janete Clair, Dias Gomes, Jô Soares, Chico Anísio, Walter Clark, Boni, etc) até programas indispensáveis na formação de diferentes gerações. É, minha gente...A tv ficou velha de idade, mas não de referências e projetos.

Há uma parcela do livro que mexe diretamente com minha nostalgia. Impossível não ler a respeito da MTV (que foi veiculada por aqui no UHF na minha época de adolescente e foi responsável pela formação musical que tenho até hoje), de Armação Ilimitada (com Juba e Lula disputando o amor de Zelda Scott), TV Pirata (com os eternos Barbosa, Zeca Bordoada, Tonhão e a novela-paródia Fogo no rabo), Sítio do pica-pau amarelo (e eu tentando imitar o Visconde de Sabugosa enquanto minha irmã queria uma boneca da Emília e Gilberto Gil cantava a música-tema do programa), Os Trapalhões (como esquecer de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias?) e o eterno velho guerreiro, o Chacrinha (que eu assistia na casa da minha avó, junto com meus primos, nos fins de semana) e não ver as lágrimas escapando dos olhos. Mais do que isso: pensar "no quanto eu era feliz e não sabia, não dava o devido valor".

Por outro lado, há também lembranças a grandes momentos da tv que antecedem ao meu nascimento e que merecem - de forma justíssima - serem lembrados. É o caso do Grande Teatro Tupi (que muitos especialistas e formadores de opinião rotulam como "fundador da teledramaturgia brasileira"), Repórter Esso (que meu pai chamava, antes de falecer, de "o maior programa que esse país já teve até hoje"), Praça da Alegria (cujo legado está presente até hoje na grade de programação do SBT), 2-5499 ocupado (a primeira telenovela diária do país), Família Trapo (precursor das sitcoms), os Festivais de música (que apresentaram uma geração de talentos até hoje presente e relevante na cultura nacional), O direito de nascer (quem viu na época, não esquece!) e muito mais...

Isso sem contar os grandes tipos que fizeram do veículo uma linguagem à parte da própria realidade nacional. Falo de personagens e figuras públicas como Beto Rockfeller, O homem do sapato branco, Topo Gigio (eu cheguei a ter um ratinho desses em casa!) Gabriela (encarnada por Sônia Braga), Escrava Isaura (imortalizada por Lucélia Santos), Sassá Mutema e Sinhozinho Malta (ambos vividos por Lima Duarte), Viúva Porcina (Regina Duarte, que nunca mais conseguiu se dissociar da personagem), Odete Roitman (Beatriz Segall, cuja morte parou o Brasil), Hans Donner (o mago do design, criador da Globeleza), Paulo Gracindo, Francisco Cuoco, Glória Menezes, Tarcísio Meira, Tony Ramos, Fernanda Montenegro, Antônio Fagundes, os diretores Walter Avancini e Daniel Filho...Chega, chega! Melhor deixar o resto para o leitor fuçar, senão o artigo não termina hoje (e, além do mais, o livro é uma máquina do tempo).

De Assis Chateaubriand (que inaugurou a tv com toda a pompa e garbo que mereceu na época!) até a novela Avenida Brasil, são mais de 260 páginas de puro entretenimento, nostalgia e sensacionalismo (mas na melhor expressão do termo). Encerro o exemplar me perguntando se Kogut faria ou fará uma continuação. Sempre há algo faltando (o que acaba por se tornar uma razão para que um novo volume seja feito). Mas mesmo que o volume 2 não dê as caras, já valeu a experiência de ter lido a obra por conta de me gerar interesse em procurar saber mais sobre esse fascinante veículo que não sai de moda, por mais que tentem dar cabo dele!

Para estudantes de jornalismo, publicidade, multimídia, interessados em cultura e entretenimento, é um prato cheio, quase transbordando. Praticamente uma tv de papel. Parece apelativa a minha definição, mas é a mais pura verdade. Só faltou um botão no livro para eu poder "mudar de canal".

Será que a própria tv não fará um programa na linha revival sobre o livro dela? Enfim... Como costuma dizer a própria televisão: aguardemos as cenas dos próximos capítulos.


Biografia:
Crítico cultural, morador da Leopoldina, amante do cinema, da literatura, do teatro e da música e sempre cheio de novas ideias.
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