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Não passamos de estatísticas
(Reflexões sobre o mundo contemporâneo - parte 3)
Roberto Queiroz

Nos tornamos números? A priori a sensação que eu tenho é a de que a única resposta válida para essa pergunta é: provavelmente.

Tempos atrás escrevi um artigo para a internet onde eu dizia que, se prestássemos atenção à sociedade e ao mundo em geral, veríamos que nós não somos nossos nomes de batismo e sim nossos números da carteira de identidade, tamanha a falta de transparência com que a humanidade trata a si própria. Hoje, passado algum tempo desde aquele texto, vejo que a situação não só não mudou absolutamente nada, como piorou. E muito.

Viver no Brasil é tarefa para corajosos. Digo mais: apenas dois tipos de pessoas são capazes de enfrentar de igual para igual uma nação tão controversa. E são eles os esnobes de alta performance, aqueles que não se preocupam com nada além de si mesmos e os criminosos de carreira (tem quem os conheça pelo clássico nome de corruptos), sempre aptos às maiores maracutaias e "jeitinhos brasileiros" possíveis.

Chego, enfim, ao quarto parágrafo deste artigo engolido por um sentimento de impotência tamanho que é difícil traduzir em palavras...

No último dia 22 completamos 518 de existência. Muitos dirão: "foi o dia em que fomos descobertos por Portugal". Corrijo: foi o dia em que fomos invadidos e começamos a ser saqueados. E o saque persiste até hoje, porque nossos patrícios não foram os únicos a pegar a sua parte. O Brasil é colônia há tanto tempo que a própria sociedade tem dificuldade de se enxergar como livre. "Será que algum dia conquistaremos a tão sonhada liberdade?", resmunga o casal de idosos que já passou de 90 anos de idade e continua rezando por dias melhores.

Resposta: por ora, melhor rezarmos. E esperarmos. Qualquer coisa além disso parece ser pedir demais.

Somos aviltados em nossos direitos, estuprados em nossa cidadania. Pagamos alto para sustentar ladrões de terno e gravata cujo único compromisso é com suas próprias contas bancárias (contas essas, é claro, no exterior - porque de bobos eles não têm nem a cara!). Chegamos ao dia de hoje sem saber se de fato o dia de ontem terminou e na dúvida sobre se seremos merecedores do dia de amanhã. Fúnebre? Não, meus caros leitores, apenas o mundo real. Quer dizer: para aqueles que o aguentam.

Realço esse aspecto no final do parágrafo anterior porque precisamos levar em consideração a existência de uma parcela da sociedade civil que se recusa terminantemente a enxergar a realidade com os próprios olhos, preferindo se esconder em instituições religiosas (acreditando que, com isso, comprarão seus passaportes para a vida eterna), em estádios de futebol (muitos deixam os próprios filhos passando fome em casa para não perder o próximo jogo do time do coração; e o próximo; e o seguinte) ou nas madrugadas, sentado no sofá da sala, acompanhando algum reality show medíocre.

Triste sina o daqueles que mais parecem aqueles três macaquinhos famosos: o que não fala, o que não ouve, o que não vê. Restam aos demais, os lúcidos, cuidar da situação. Cuidar? Ledo engano! Esses estão ocupados com suas próprias vidas ou sobrevivências ou tramóias ou como quiserem chamar.

Vivemos uma era umbiguista onde o "farinha pouca, meu pirão primeiro" é o modus operandi de um país que, nos últimos anos, só me deu desgosto. Parece flertar com a falência esse novo país. Acho que até Macunaíma, personagem hedonista criado por Mário de Andrade, teria que dar um tempo no descanso e se mexer para não morrer na praia se fosse escrito hoje.

No final das contas (e os brasileiros, a grande maioria, andam com as contas no vermelho): não passamos de estatísticas, números aletórios vítimas de uma guerra disfarçada de democracia. Rezamos para não chorar (de ódio), alimentamos esperanças para não perder as estribeiras de vez e cairmos numa revolução civil (e eu me pergunto se não seria melhor se o povo tomasse vergonha na cara e invadisse Brasília de vez, armado até os dentes. Sei lá... Acho que não temos mais nada a perder), acreditamos no delírio pois ainda parece mais eficaz do que encarar a tristeza do dia-a-dia.

Por um momento este artigo quase não aconteceu. Ele é derrotista? É. Precisamos de algo mais do que meras palavras amargas? É verdade. Mas também precisamos de vergonha na cara (algo que anda em falta no país) e encararmos a situação como ela é e não como a imaginamos em nossos sonhos. Mais do que um desabafo - ou uma crônica desafiadora -, espero que as palavras aqui escritas serviam como alento, como uma espécie de despertador.

Precisamos acordar. Agora. Antes que seja tarde demais. Antes que dizer "tarde demais" seja tarde demais.

(Obs: vai ter leitor chato dizendo que eu falei do meu país e não do mundo. Sabe essa gente chata que vê tudo ao pé da letra? Para eles, uma única pergunta: o Brasil faz parte do quê mesmo?)


Biografia:
Crítico cultural, morador da Leopoldina, amante do cinema, da literatura, do teatro e da música e sempre cheio de novas ideias.
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