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Deixem-no gritar
T. Richter

E tiraram o Pequeno Jornaleiro lá da Sete de Setembro. Soube por causa da coluna do Ancelmo Gois, mas, ocupado com outras coisas, acabei só passando por lá um punhado de semanas depois. Precisava ver de perto a situação. É minha escultura favorita do centro do rio, afinal.
     De fato, foi retirada. Onde antes assentava-se a escultura do meninote de chapéu de abas largas agora ergue-se uma estação para o VLT- o “Veículo Lerdo sobre Trilhos” do qual o nosso burgo-mestre tanto conta vantagem. Recalcitrante que sou, admito que até agora não fui convencido de qualquer legado trazido por aquela lesma high-tech além do fato de suas estações deixarem o centro da cidade um pouco mais feio.
Indagado sobre o porvir do Pequeno Jornaleiro, ao contrário de quando está apregoando os supostos feitos e méritos de sua administração, nosso alcaide foi bastante sucinto. “Depois da Obra voltamos com ela”. Já era de se esperar.
Tenho minhas dúvidas. Não me surpreenderia se o Pequeno Jornaleiro terminasse fazendo companhia à esc     ultura do Ives Machado, aquela mesma que ficava na esquina da rua Uruguaiana com a Carioca, largados ambos em algum canto da Gerência de Conservação, lá na Praça XI.
Quando foi inaugurada, lá pelos idos da década de 30, conta-se que Orestes mais Barbosa, compositor, cronista & mais um pouco, comparou o menino à rua, ao seu aplauso sincero e sua vaia justa. Nos tempos que vem se desenhando, onde só é visto como justo o comentário que vem tingido de conservadorismo, o grito silencioso do menino pobre vendedor de jornais fará falta.
Torço para que a campanha que quer trazer a escultura do Pequeno Jornaleiro a seu lugar de origem, no cruzamento da Avenida Rio Branco com à rua do Ouvidor, tenha sucesso. Não retornou o busto do Barão da Taquara à Praça Seca? Quem sabe, então? E torço também que, desta vez, o menino fique por lá definitivamente. Deixem-no gritar, mesmo que poucos o escutem.
                           Rio de Janeiro, 2016

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