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Melissa Medeiros

Estou apoiada no aparaito, testa encostada no vidro da janela. Olho para baixo com medo de cair. As mãos que me seguram pelas costas parecem tensas. Contudo, só parecem.
Tento não jogar meu peso todo sobre o vidro, pois sinto que mais um pouco de apoio e ele cederá. Ao me mexer, as mãos tencionam meus pulsos e sinto que algo é sussurrado em meu ouvido, mas não presto atenção ao que quer que seja, pois aquela respiração quente me traz lembranças saudáveis, tornando o hálito de meu carcereiro uma forma de agrado.
Sorrio maliciosamente. Tudo o que me vem à mente parece ingênuo, coisas simples, bobas, mas que me fazem sentir ter força o suficiente para correr dali e me livrar do fardo que sei que terei. Porém, eu não corro, algo dentro de mim diz que não devo fugir.
Volto minha atenção para o que me espera lá embaixo. A única coisa que consigo ver são pedras sendo destruídas ruidosa e impiedosamente pelo mar devastador. De repente, aquele som se propaga por meus ouvidos. Eu sinto a água molhando meus pés carinhosamente e me vejo andando ao encontro do beijo que me espera mar adentro. Um suspiro terrível se apodera de todo meu corpo.
Abro os olhos. Continuo pressionada contra o vidro, que agora me parece até amigável. Quase não sinto mais as mãos sobre meus pulsos, mas posso ver, de soslaio, o reflexo de quem me segura. Eu o encaro. Seus olhos negros são profundos e profanos. Não sinto medo. Já o enfrentei anteriormente e por sorte, tive a força que era preciso para fugir, mas dessa vez sei que vou render-me. Eu até esperaria por outro ato de coragem ininterrupta por apenas alguns segundos, como ocorreu instantes atrás, entretanto sei que ele não irá aparecer.
Ficamos assim por algum tempo. Podem-se ter passado dias e noites, como também segundos, eu não saberia dizer. A única coisa que tenho certeza é que pude sentir antes mesmo de acontecer. Eu pude vê-lo atirando-me pela janela e o vidro cedendo sob meu peso. Pode sentir cada caco rasgando minha pele como se esta fosse feita de papel.
E eu me vi caindo. E caindo. Cada vez mais perto do infinito que me esperava lá embaixo. E me lembro de que a única sensação que nunca tive foi chegar ao destino. Acaba antes mesmo de você dar-se conta de onde quer chegar.
E quando finalmente acabou para mim, eu percebi que assim seria. Era meu destino. E era pra sempre.


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