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Tens uma angústia: querias encher-te
Sem ter se esvaziado. Pobre de ti!
A florescência de uma estrela em agonia
Primeiro pensou no cavalo e o deixou beber água. Havendo desatado a sela, começou a deslizar as mãos suavemente, acariciando o lombo repetidamente como quem quer fazer fogo e nele consumir-se. Havia tirado as amarras, esfregando as orelhas de um lado para outro carinhosamente, como quem prepara a terra querendo apagar todas as dores; molhou o rosto e delicadamente foi roçando a face sobre a pele açafrão como quem em um beijo se desvanece. E assim esteve por um bom tempo calado, com os olhos rasos e os pés na água, abrigado embaixo da promessa de uma nova lua às costas; não sentia frio, então, ele também bebeu.
O silêncio era o mesmo de sempre: as cigarras fluíam ao compasso do rio, arrulhavam na noite; o vento suspirava suave, quente, carregado de todas essas vozes que a montanha esconde. Saciada a sede, o homem e o cavalo saíram da água. Ao contato com as pedras do rio, o repicar dos cascos impôs-se sobre os demais ruídos: o silêncio por um instante foi outro. Levantando o rosto ao céu, o homem perguntou com o olhar, mas os olhos não encontraram resposta; bufou suspirando o ar quente e desabotoou a camisa; com a cabeça abaixada, achou embaixo do pé de pau-mulato¹ o lugar adequado para um momentâneo repouso, e sem pensar em mais nada, acomodou-se todo, pois era comprido; o cavalo por sua vez, baixou a guarda.
Não tinha mais de quarenta e cinco anos; possuía o tom acobreado de uma pele que desde sempre havia sido dourada pelo sol; as mãos, aquelas calosidades que tantas vezes fizeram a terra parir, eram as de um homem predestinado ao campo. Levantava-se com a intuição do primeiro clarão da aurora e se deitava quando o sol já havia partido; mas essa noite seria diferente. Homem e cavalo estiveram calados por um bom tempo, com os olhos fechados e o fervor no sangue desenfreado pelo sentimento de culpa. A lua se mostrava cada vez mais como a dama da escuridão, controlando a totalidade das sombras desde o alto. Fazia mais calor; de repente, ao umbral da meia noite começou a ouvir-se o afligido canto de um grilo cansado; o homem paulatinamente, ressentindo no coração a ladainha em que se fiava; era inevitável: “os grilos sempre pressentiam,” havia sido dito alguma vez quando tudo era possível. Depois de assistir a semelhante sinfonia, por mais que o corpo estivesse moído, herança de uma jornada hostil, o homem menos que antes, não pôde descansar; o rosto buscou o convalescente grilo por toda parte, mas o olhar, apesar de acostumado à visibilidade noturna, não achou nada. As lágrimas como um riacho, que se precipita em sua corrida para confundir-se no mar, brotaram dos olhos desconsolados pelo desejo de um contundente final. Repentinamente, na palma da mão direita, sentiu como se corresse um calafrio assombroso: o grilo, de um salto mortal, havia falecido.
Nunca esteve tão alterado, nem tão ansioso com a idéia da morte; uma comichão no corpo, como erupção em vários pontos, foi imediata. As lágrimas seguiram o suor gélido, paralisante da vontade, origem de um tremor incontido; queimado pela idéia de um sol dilacerante que lhe destroçava a mão, lançou pelos ares o corpinho inerte; este como estrela fugaz, sulcou o firmamento e finalmente, logo, da eternidade da viagem, acabou descansando no rio. Uma luminosidade intensa esteve flutuando por alguns minutos sobre o olhar perdido. Então em meio ao letargo, a angústia somou-se à cabeça.
_ E se eu acabar com ele? _ disse pela manhã enquanto se distanciava enfurecido do sítio, montado no cavalo em quem descarregava a ira. _ E se acabasse com ele? ressoou a sentença nos ouvidos acalorados; e em rumo, junto com o desejo de vingança, foram-se pela vereda que desemboca no rio; não tinha comido nada.
A descoberta de que Saulo poderia ser morto à traição, havia tirado o seu apetite. E não era a morte em sua aparência que o que o nutria com enorme avidez; sua ânsia estava na morte mesmo, em acabar com o sujeito que lhe afanava a água simplesmente porque sua plantação também tinha sede e achava que o rio ficava muito longe.
Primeiro pensou na idéia e esteve um bom tempo meio jogado à margem do rio; enquanto ruminava o sentimento de morte, jogava uma e outra pedra na água, como se tentasse buscar nos improvisados saltos das rãs a solução que tanto almejava. E se acabasse com ele? Lançou à sorte. Que fosse o destino quem ditasse, que a providência lhe enviasse um sinal, que a morte tivesse licença, que a vingança baixasse do céu e pousasse sobre o machado afiado, que o golpe fosse certeiro.
Saulo era maior, mas parecia mais jovem; havia crescido em um povoado vizinho, no rancho do pai. Nunca trabalhou muito: a bonança paterna o fez acostumar-se a gozar dos prazeres da vida sem muito esforço. Sempre que ia ao campo, encontrava um modo de trabalhar pouco, de descansar muito, de dar as suas escapadas até outros povoados e embebedar-se nos botecos, de roubar moças, convencer a algumas, de apostar no galo derrotado, no cavalo mais lento. Era uma erva daninha que pertencia a outras planícies; quando o pai morreu, as irmãs já estavam casadas, o mais velho já havia morrido, e o mais novo trabalhava ha alguns anos no seu próprio pedaço de terra. Saulo tornou-se então, amo e senhor de uma fortuna considerável, mas com a cabeça que tinha para os negócios foi vendendo pouco a pouco o muito que havia herdado. E finalmente, quando viu que o matrimônio era inevitável, casou-se com Juliana e teve que conviver com a ideia de ter que trabalhar na terra do sogro.
O céu tingido de vermelho, anunciava a partida do sol. O homem levantou-se do chão; havia estado ali junto ao rio por mais de duas horas, esperando o momento preciso. “Quando o coiote vier atrás da galinha, Zás!” _ Disse enquanto esperava agarrado à fatalidade da história. A terra parecia conter a respiração: o ar abafadiço era demasiado intenso; os pássaros não cantaram; a totalidade das emoções concentraram-se no momento em que as sombras desfaziam o desenho das formas; as silhuetas confundiam-se com a paisagem. O murmuro de pisadas de um homem que aproximava-se e sem conter a raiva, o acabou, um golpe após o outro, até reduzi-lo a retalhos de carne, que nem os urubus reconheceriam.
Havia acabado com ele. Sabia que tapando o canal, sua ambição obcessiva o faria procurar mais água, colocando-o assim à mercê do poder vingativo do machado afiado. Saulo estava morto, sua natureza abusiva o havia matado; pensou em esquartejar o cadáver, meter em um saco repleto de pedras e pó e jogá-lo no rio; apegou-se à ideia de que por vários dias ninguém daria pela falta, de todos era conhecido seu prolongado trato com o álcool. Dentro de algumas semanas, quando a angústia se apoderasse dos familiares, o procurariam nos ranchos vizinhos, nos botecos, nos bordéis, junto à patrulha da polícia, e como não achando resposta, pensariam no abandono; a providência tinha feito sua parte.
Com o coração cheio de uma tranqüilidade aparente, o homem olhou para o céu em sinal de vitória e agradeceu à lua pela intuitiva promessa de guardar silêncio. Propôs-se então a ocultar o corpo, teria todo o tempo do mundo para concluir o planejado, jantaria em casa, procuraria um saco e montado no cavalo iria monte abaixo para jogar o fardo; desenhava-se no rosto um semblante nunca visto antes: havia acabado com ele.
Quando chegou em casa, a mulher o esperava com o candeeiro na mão. _ Por que não chegou a tempo para jantar? _ Perguntou-lhe como quem nunca antes houvesse questionado algo. O homem, com o pensamento em outra parte, respondeu: _ Estava caçando o coiote. Então a mulher sem dizer nada atiçou o fogo do fogão; o homem comia a tortilha quente, quando a mulher lhe disse que Saulo o havia procurado, que havia tapado o canal e queria sua ajuda. _ E não sabe pra onde se mandou? Perguntou o homem com o fogo nos olhos; ao que respondeu a mulher que Saulo havia procurado pelo filho do homem que o recomendou a procurá-lo.
Primeiro tomou a corda entre as mãos e fez o nó. A lua permanecia firme no trono da noite; passou a corda sobre o galho escolhido, o coração batia sem saber por quê. Com a morte no pescoço, montou-se no cavalo. Conhecedor das qualidades catalisadoras do pau-mulato¹, descarregou a fúria na pele açafrão, como quem em um pranto destroçador nasce na morte; e suspenso do galho, até que o mau cheiro de cadáver o delatou.
José Miguel Barajas García 2006
Tradução de Giane Oliveira 2013.
1. Segundo fonte: Wikipédia. O pau-mulato mexicano (Bursera Simaruba), possui propriedades medicinais, utilizando-se suas folhas, cascas e raízes geralmente em infusões; sendo recomendado no tratamento e controle de diversos processos infecciosos. Tendo como equivalente no Brasil o Quiabo Limbo, ou árvore turística.
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