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Efeméride
Maria Luiza

A noite já caiu faz tempo. No ar externo há uma falsa neblina que enganaria quem não soubesse da ilusão da chuva. Pode-se até pensar que é verdade, dado o vento frio que sopra do leste pro oeste, que sai carregando as areias dos tempos urbanos. Saio mecanicamente: preciso de leite. Desço escadas rumo ao ar livre com um certo pesar, uma memória vaga de não ter feito isso ou aquilo. Uma memória vaga também de amor, que me arranca não mais que um suspiro de sorriso escondido. A brisa beija meu corpo quando enfim alcanço a pista: brisinha marota que brinca com papéis jogados ao chão, num levanta-abaixa incansável de criança travessa. Caminho. Ao meu lado escuto um burburinho de sussurrar de fofocar. Vizinhos que apreciam o luto de um velho senhor que sentava todos os dias na calçada para tomar luz do pôr do sol. Morreu na madrugada, de coração cansado que parou de tentar bater por motivo algum. A velha senhora resmunga alguma coisa ininteligível com uma voz triste. Passo sem olhá-la, sem vontade de sentir o pesar de um luto que não é meu. Meu olhar, no entanto, recai para uma cena incomum: por cima de um grande monte de terra que participa que alguma obra qualquer, estão duas figuras minúsculas e engurujadas, envolvidas uma na outra. Dois cachorros magérrimos e sujos de olhos oleosos e cansados, que dirigem a mim aquelas órbitas molhadas e ciliadas por feridas. Um olhar mais que fúnebre, mais que triste: um olhar de medo da morte. Passo. Tento desviar o olhar daquelas pequenas criaturas tão frágeis de costelinhas de fio que me amedrontava quebrar só por sustentar o olhar. Paro. Volto. Passo direto pelos dois ratinhos, minha visão periférica pegando o baixar de cabeça de ambos numa silenciosa aceitação de talvez mais uma tentativa falha. Entro em casa, subo as escadas com três vezes mais energia que desci. Abro a geladeira, pego dois ou três pedaços razoavelmente grandes de um alimento qualquer. Guardanapos. Desço as escadas com pressa, passo novamente pelos vizinhos que papeiam sobre a morte. Quando chego novamente perto das pequenas criaturas, sou atingida novamente por aquele olhar. Sorrio. Recebo um leve gemido como resposta. Abaixo o alimento, eles cheiram. Emitem um barulhinho de satisfação e atacam o prato tão bem vindo. Prossigo à compra do leite com uma sensação de vazio preenchido, de algo dado que a mim não faria falta, mas que faria a diferença entre a vida e a morte para um ser tão pequeno que só podia usar de olhos aquosos para pedir. A efemeridade da vida não é aplicável apenas a vizinhos que vegetam ao sol da tarde, mas a todos os seres que respiram e precisam de alimento que são ignorados e dolosamente machucados por esse egoísmo inerente ao ser humano da urbanidade.


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