Login
E-mail
Senha
|Esqueceu a senha?|

  Editora


www.komedi.com.br
tel.:(19)3234.4864
 
  Texto selecionado
Uma Semana de Cão
J. Miguel

Uma Semana de Cão


Minha semana começou assim:
Segunda-Feira:
Às três da manhã minha mãe me liga para saber o telefone celular do meu irmão. Ainda na cama, peguei os óculos na mesinha de cabeceira, abri a caderneta e passei-lhe o número. Larguei os óculos sobre o leito e adormeci com o telefone na orelha.
Quando estava pegando a caderneta, esbarrei no despertador, que travou sem que eu o percebesse.
09:50 h.
Acordei sobressaltado com o barulho da empregada na cozinha. Olhei as horas e não acreditei. Saltei da cama lançando os óculos ao chão, quase ao mesmo tempo em que os pisava, quebrando-os. Corri para o banheiro para fazer a barba o mais rápido possível. Estava agendado para as nove horas uma reunião com os gerentes de setor sobre um problema da empresa, intitulado: "A FALTA DE PONTUALIDADE DOS EMPREGADOS E SEU CUSTO PARA A EMPRESA". O tema era meu...
Não me perguntem como, mas fazendo a barba consegui cortar o nariz e metade de uma sobrancelha. Devo confessar que sou quase cego sem os óculos. Tentei consertar usando o lápis de sobrancelha da minha esposa.
A empregada, uma senhora de meia-idade, usa um óculos de mesmo grau que o meu, ou quase. O chato é que eles são antigos, da época das discotecas. Tem aquele formato de gatinha, aros rosa-choque e pedrinhas coloridas. Mas eu não tinha tempo de passar em um oculista. Afanei os óculos da empregada e saí para a rua. Por vergonha de ser visto dirigindo usando aquela armação, fui de taxi para o trabalho.
Desci na calçada defronte ao prédio exatamente às 10:15 h, na hora em que uma senhora gorda saía da lanchonete com um sanduíche gorduroso, empanturrado de cebolas e catchup. Foi um esbarrão daqueles! A salsicha veio parar no bolso da minha camisa, que ficou toda emporcalhada de cebola e creme de tomate. E eu ODEIO cachorro-quente!
Penalizado com a minha situação, o porteiro gay do edifício me emprestou uma camisa amarela e sua gravata verde abacate.
Eu estava uma pilha. Confesso que quase chorava. Como poderia aparecer diante dos gerentes de toda empresa vestido daquele jeito e ainda atrasado?
Me deram um calmante e nem pestanejei. Tomei um copo de um refresco de groselha do porteiro para ajudar a engolir.
O porteiro notou que minha calça também estava suja, na altura do zíper . Ali não teve jeito. Tive que lavar mesmo. Para secar mais rápido, coloquei uma folha de jornal amassada por dentro da calça, enquanto subia pelo elevador.
No elevador, examinei a minha figura no espelho e notei que até que não ficara mal com aquela camisa amarela e a gravata verde. Os óculos de aro rosa, em forma de olhar de gatinha, com aquelas pedrinhas coloridas também combinavam com a minha sobrancelha desenhada. E tudo combinava com os lábios rosados pela groselha... na verdade, o elevador estava tão bonito... o mundo era tão bonito... me deu vontade de chorar de felicidade.
11:15 h:
Saí do elevador meio cambaleante... que remédio porreta! Acho que eu estava cantando quando entrei na sala de reuniões. O superintendente geral estava na cabeceira da mesa. Fui para minha cadeira, pedindo desculpas a todos pela demora e sentei... no colo de alguém. Era o chefe de RH.
Não sei bem exatamente o que disse durante a reunião, mas o superintendente não parava de me olhar. Até que percebi que havia esquecido de retirar o jornal de dentro das calças. Aquilo me dava um volume monstruoso!
EM algum momento do meu falatório esbarrei no copo dágua à frente de um colega e o líquido se esparramou por sobre suas pernas. Rapidamente, peguei um guardanapo e tentei secar a calça do colega, que deu um tapa nas minhas mãos. Acho que ele pensou que eu o estava assediando.
12:00 h.
Olhei para o relógio e não compreendi direito como estava sentado na calçada do prédio. Lembro assim, meio vagamente, de ser arrastado para fora da sala, com o superintendente berrando "FORA! FORA! RUA!..."
Uma senhora passou e jogou uma moeda no meio das minhas pernas.
Um guarda municipal me pegou pelo braço e me arrastou para um ônibus que me levou para um abrigo de mendigos. A língua estava meio presa na boca. quando tentava falar, meio que grunhia. No fim da tarde, um grupo de mendigos conseguiu fugir do abrigo e me arrastaram junto. Sentamos em uma praça e ficaram todos conversando. Um grupo de estudantes veio e tirou algumas fotos.

Terça-feira:
Acordei deitado na calçada, abraçado a um mendigo enorme, que cheirava como um bueiro em dia de chuva.
Minha carteira, dinheiro, relógio, documentos, sapatos, tudo sumira. Ficara apenas com a camisa amarela, a gravata verde, os óculos de gatinha (por que será que não os roubaram?) e a calça com uma mancha enorme, como se eu houvesse me urinado.
Sentei no banco da praça e fiquei pensando em nunca mais voltar para casa. Outra senhora idosa me jogou mais uma moeda.
Estava morto de fome e o mendigo com o qual dormira me trouxe um sanduiche de ovo e uma garrafa de cachaça. Bebi no gargalo mesmo. Devo ter bebido bastante, porque não lembro de mais nada desse dia.
Quarta-feira:
Acordei de novo abraçado ao mendigo. Almoçamos juntos e bebemos mais algumas garrafas de cachaça.
Quinta-feira:
Passei a noite em claro. Marreta - esse era o apelido do mendigo - passou a noite fora. Foi muita falta de consideração dele. Tivemos uma discussão e ele me bateu. Levantei muito chateado e resolvi voltar para casa.
Quinta à noite:
Cheguei em casa andando e inventei uma história de que fora seqüestrado. Era mais fácil de explicar.
Sexta-feira:
Minha foto saiu na capa de uma revista sobre gays abandonados na terceira idade.
Sábado:
Minha mulher, meus filhos e a empregada foram embora. O Marreta que fez o almoço. Como ele cozinha mal!


Biografia:
"Fazer chorar é fácil; desafio mesmo é fazer rir."
Número de vezes que este texto foi lido: 28697


Outros títulos do mesmo autor

Humor O Homem Pajé J. Miguel
Humor Lei Seca em Mianmar J. Miguel
Infantil Pepo J. Miguel
Poesias Meu Latim J. Miguel
Poesias Poesia Tem Cor J. Miguel
Poesias Trás de Casa Passa um Rio J. Miguel
Poesias O Bem-te-vi J. Miguel
Humor Capitão Aza J. Miguel
Poesias Violentas Violetas J. Miguel
Crônicas Demônios e Úlceras J. Miguel

Páginas: Próxima Última

Publicações de número 1 até 10 de um total de 23.

  Envie este texto por e-mail
Digite seu nome:
Digite seu endereço de e-mail:
Digite o nome do destinatário do e-mail:
Digite o endereço de e-mail do destinatário:

escrita@komedi.com.br © 2020
 
  Textos mais lidos
The crow - The Wiki World - The Crow 62953 Visitas
A Arte De Se Apaixonar - André Henrique Silva 53982 Visitas
Minha namorada - Jose Andrade de Souza 42933 Visitas
Reencontro - Jose Andrade de Souza 40127 Visitas
haicai - rodrigo ribeiro 39997 Visitas
PÃO E CIRCO - Tércio Sthal 38198 Visitas
OS ANIMAIS E A SABEDORIA POPULAR - Orlando Batista dos Santos 37082 Visitas
Amores! - 35114 Visitas
Desabafo - 34654 Visitas
Faça alguém feliz - 33054 Visitas

Páginas: Próxima Última