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Vim me buscar antes de ir!
Maria

Amanhã é outro dia. Por isso hoje sigo mansamente a estrada a minha frente. Caminho sem destino e sem direção, deixando meus pensamentos me levarem para onde eles quiserem.

Vou para onde ninguém vai. Vou para onde nunca fui. Vou para onde nunca estive assim como sou hoje. Sigo sempre em frente. Sem medo de caminhar.

Minha estrada é longa e posso ver ao largo os marcos do tempo. Marcos esses, que deviam indicar o caminho a outros transeuntes desavisados. Quem sabe eu os tenha visto e não percebi que tentavam me avisar para não ir adiante.

E vejo com tristeza as escuras nódoas deixadas pela mão do homem na natureza. A flor morta na beira da estrada.

E a noite que chega lentamente, tingindo o céu de azul escuro, diz que as estrelas e a meiga-lua adormeceram para sempre no dia que a elas não mais pertence.

Contemplo o horizonte de luzes. Lá ainda posso ver um feixe de luz a rebordar o dia que se finda. O sol dança com laços dourados nos campos de flores mortas. E mansamente vai adormecer nos braços da noite. Para amanhã surgir em outro dia. Novo dia de vida na cidade de cimento e pedras de cor.

As estradas se cruzam em várias direções. Não sei qual caminho tomar. Olho para traz. Sensações estranhas tomam conta de meu ser. Conturbam meu espírito. Parece que levo comigo uma parte de vida que não é minha. E parece que deixei um pedaço de mim em algum lugar.

Preciso encontrar essa parte que me falta. Preciso devolver a parte que pertence a outro ser que estou levando comigo.

Procuro na mochila minha bússola de mão. Ela aponta o caminho de minha vida. Devo seguir em frente. Minha vida está lá adiante.

Me olho em todas as direções, e na necessidade de me sentir completa, mudo bruscamente o rumo de minha caminhada. Sigo à direita de minha vida. Para o lado de onde deveria estar vindo. Para a direção de onde deveria estar voltando.

Por que vou para lá? Para deixar lá a parte que não é minha. Para devolver a parte que levava comigo sem licença e sem permissão. Pertence a outro ser. Com ele deve ficar.

Por que vou para lá? Para me buscar. Quero encontrar minha outra parte que lá ficou e me trazer de volta para casa. Assim meu espírito fica completo.

E ao chegar lá com coragem vou dizer:

- Vim me buscar antes de ir de volta para casa!

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