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Eu vou sumir de São Paulo,
fugir da corrupção;
Tantos crimes hediondo...
Vou=me embora pro sertão,
abomino tirania,
sofro de tafofobia,
insonia, alucinação.
Eu quero beber da fonte
na cuia da Sapucaia,
quero viver displicente,
destemente a uma tocaia,
Lá caçarei saracura,
quem sabe acharei a cura
pre esta alma atalaia.
Quer habitar a falésia
bem perto d"uma maloca,
banhar-me na cachoeira
onde as aguas desembocam,
estou fugindo da súcia,
de vilões cheios de astucia,
pra ver a dança das focas.
Mas, se um dia me encontrar
num lugar caliginoso,
então virão pirilampos
às margens do rio piscoso,
verei a estrela cadente,
viverei feliz, contente,
minha alma plena de gozo.
Eu fingirei que sou india,
morarei numa tapera,
construirei paliçada
pra me defender das féras
se me apossar o anhangá,
o piaga vem me livrar,
que manitós não se vergam.
Quero ouvir a patativa
com os indios Tapirapé,
coloco um cocar de penas
pra conhecer o pagé,
eu dançarei na Tabira,
cativarei curupira
e os indios Tamaindé.
Vou pra aldeia dos Chavantes
fazer cabana engenhosa,
ensinarei Curumim
recitar versos em prosa,
quando estiver jururu
quero ouvir o Uirapuru
de uma rede preguiçosa.
Talves coloque Botoque
pra passear de canoa,
aprendo a fazer Bodoque
quando estiver atoa,
e vou comer aipim,
bebendo um bom Cauim
Que a vida assim não enjoa,
Quero casar com Cacique,
fumar cachimbo da paz,
dançar a dança da chuva
em meio aos Tupinambás,
colherei a Babaçu
e vou comer Baiacu
na Taba dos Carajás.
Eu vou fazer tapioca
na tribo dos Cotochós,
caçarei com os Taguarís,
pescarei com os Tapajós,
dos indios Tupiniquins,
quer um tacape pra mim
pra caçar uns Bororós.
Talves vá pra cordilheira,
viverei como ermitão,
minha alma devaneia,
pois bem sei que é ilusão,
diante da revelia,
optei pela Utopia,
pra fugir da podridão.
Autora- NEIDE CARDOSO
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