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Monotonia
Parte II
Canton

Havia uma igreja em uma praça a dois quarteirões da minha casa, esse era meu destino. Não acredito que um padre consideraria falta de respeito a minha entrada em solo sagrado com roupa de banho, devido a atual circunstância. Ele entenderia.
Era dia de confissão, aparentemente, nunca havia frequentado uma igreja anteriormente, mas a atual aglomeração organizada rumo ao confessionário denunciava. Passei por todos, estranhamente ninguém reclamou ou se quer olhou para o meu lado. Deviam notar o desespero em meus passos e simplesmente ignorar. Ou talvez os ditos pecados dos presentes fossem maiores que a curiosidade em julgar um homem nu correndo por entre os bancos.
Aguardei o último cristão deixar o confessionário e entrei. Comecei a cuspir as palavras para o padre, ouvindo-as agora pareciam completamente irreais, mas eu não estava louco. O padre parecia não estar presente, pois se manteve calado até que gritou:
- Próximo.
Como assim próximo? O fato de estar despido era razão para que me ignorasse? Sem pensar, ofensas surgiram na ponta de minha língua e despejaram sobre o homem. Ele não conseguia ao menos me ver, como poderia me tratar assim? A possibilidade de ele pensar que eu era louco, também passou por minha mente. Mesmo após os insultos ele me ignorava, sai furioso do confessionário, amaldiçoando todos ao redor.
Entrei para o carro, não poderia voltar para casa agora, era bloqueado pelo choque. Deitei o banco até que encostasse ao banco traseiro, tentei lembrar-me do dia do acidente dos meus pais. A cada dia que passava isso se tornava cada vez mais enevoado. Meu cérebro queria arduamente que me esquecesse de tal episódio. Na verdade, ele parecia bastante apto a essa nova função. Desde o acidente, cada vez mais coisas se apagam de minha memória.
Associei isso ao trauma, afinal, no dia da morte dos meus pais o café no qual estava, foi assaltado. Uma mulher idosa morreu atingida por um tiro no tórax, a coitada tentou fugir para o banheiro. Após o tiro da moça que devia ser vovó de alguém, eu não me lembro de mais nada. Lembro-me apenas de acordar em casa com um profundo sentimento de perda, meus pais, era isso o que eu tinha perdido.
Não participei do funeral, era doído demais. Os e-mails sobre a organização do funeral ,foram para a caixa de minha mãe, afinal ela era quem tinha o cadastro na funerária. Não me preocupei em respondê-los, sabia que de algum jeito tudo iria se acertar. Mamãe tinha uma irmã, ela organizaria. Então, não abri mais a caixa de e-mail de minha falecida mãe, era agonizante ver eventos associados à morte dos dois.
Continuei minha vida normalmente, na minha velha monotonia. Minha cabeça se mantendo ocupada parecia amenizar a dor. Aguardei o passar dos dias, evitando qualquer tipo de socialização, até que cheguei a hoje. Por maior que seja a dor, ela não é amenizada com a memória morta de seu pai em seu banheiro. Acredite.
[CONTINUA]


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