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A menina que tinha vontade
Você tem?
Bia Cantanti

Resumo:
Uma crônica em forma de metáfora que nos faz pensar a respeito de quão somos escravos de nossas vontades.

A menina que tinha vontade. Ela tinha vontade de conhecer o mundo, de encontrar pessoas, de se encontrar.

O mundo, para ela, era um enorme parque de diversões, cheio de obstáculos transponíveis e alegrias a serem descobertas. Tinha tanta vontade de percorrer esse mundo incrível, sem fronteiras e sedutor, que um dia saiu de casa para viver. Ver coisas, experimentar o sabor de tudo, sentir com o coração o que via com os olhos, conhecer cada esquina de suas idealizações.

Tão logo o caminho surgiu à sua frente, andou nele com vontade. Era tanta vontade que os seus pés não conseguiam parar. Corria tanto com sua vontade que mal via a paisagem. Em um certo momento, os seus pés estavam muito cansados, então ela resolveu parar. Quando parou, em uma esquina da ilusão, olhou ao redor com seus novos olhos e viu pessoas conversando, sorrindo, brincando. Seu coração se aqueceu, e a ilusão esvaneceu. Pela primeira vez, fora de seu quarto, ela estava vendo pessoas, observando o seu comportamento. Ela estava vivendo!

Assim que descansou um pouco, continuou o caminho com muita vontade. A estrada se desenhava à sua frente. Foi quando percebeu que estava completamente faminta. Resolveu parar para comer em uma lanchonete, no meio da encruzilhada do destino. Comeu tão rápido que não saboreou, apenas a fome matou. Mas, em um instante de reflexão, ela olhou para as estrelas, parada naquela encruzilhada, e as estrelas falaram com ela, em sua língua universal. Única. Magnífica. Esplêndida. Então sentiu-se repleta de paz. Porque tinha tido uma conversa com as estrelas.

Agora que estava saciada, seguiu em frente, não conseguia parar, a louca vontade de sair em disparada para a próxima parada. Depois de andar quilômetros de imensidão, a menina decidiu que dormiria no meio de um campo que encontrou, com sua solidão. Armou sua barraca de acampamento (claro, pois ela pensava em tudo) e assim o fez. Porém, tinha pouco tempo; não demoraria muito e o sol despontaria. E ela queria muito chegar à cidade de seus sonhos. Por isso precisava descansar para bem disposta levantar.

Quando adormeceu, seu corpo relaxou e a vontade a deixou. Porém, logo que o sol a visitou, levantou-se e a vontade retornou. Colocou sua roupa, sapatos, pegou sua água, armou-se toda e lá se foi. Atrás de suas vontades. Sempre. Infindavelmente. Mais uma vez, andou com bastante garra. Contudo, como já estava cansada de ter andado uma imensidão, foi obrigada a diminuir o passo, o que a aborreceu. Teria que ter muita calma e paciência para chegar à cidade de seus sonhos. Teria que mandar a vontade esperar. E passou a caminhar com menos pressa, com certa lentidão.

Foi assim, caminhando sozinha com sua frustração, que uma amizade a surpreendeu, um andarilho como ela, que conheceu, e passou a caminhar ao seu lado. Ele contava histórias impressionantes de viagens realizadas e de pessoas dos países que visitava. Ele tinha um brilho nos olhos que a intrigava. Era de felicidade. E a menina caminhou ao seu lado, tanto e tanto, que nem percebeu e nem ficou cansada. A vontade ainda morava em seu ser, mas, de certa forma, estava apaziguada.

Depois que deixou o andarilho, voltou a andar sozinha. Contudo, como seu passo era mais vagaroso agora, era obrigada a refletir e pensar em sua vida. Lembrou de sua família. De seu quarto. De seu espírito. Estava nesse processo de imersão em si mesma quando encontrou um pequeno lago, escondido no meio do caminho. Se a menina estivesse no ritmo da vontade, não o teria visto. Estava com calor, portanto foi se banhar. Foi uma experiência maravilhosa. O frescor da água em seu rosto, inundando seu corpo, trouxe frescor para sua alma. Sentiu-se renovada.

A menina nadou e nadou e lá ficou, aproveitando aquele momento. Mas, de repente, se lembrou da vontade. A vontade gritou que queria muito ir logo à cidade de seus sonhos. Não via a hora de chegar. Então a menina deixou o lago para fazer a vontade de sua vontade. E lá foi ela, tentou ir mais rápido, mas não conseguiu. O sol estava quase indo embora, ficou triste porque precisaria dormir até chegar à cidade dos seus sonhos. Precisaria parar para comer também.

Andou algum tempo e encontrou um lugar. Era uma pousada simples, mas bem convidativa. Convidava a descansar o coração. A menina achou melhor parar e ficar por ali, já que estava escurecendo. Foi tão bem recebida e tão bem tratada na pousada que aceitou até jantar com pessoas desconhecidas. Ela pode descansar, comer e dançar. Ela riu, se divertiu a valer, e novos amigos fez. O lugar era mágico e cada momento, precioso. Não acreditou que a vontade não a procurou, até colocar a cabeça no travesseiro, quando ela a cobrou.
- Amanhã chegamos, amanhã.... – murmurou ela e caiu em um sono reparador e acolhedor. Parecia que um anjo a abraçava.

No dia seguinte, preparou-se para a estrada novamente. Agradeceu a todos que a acolheram. Despediu-se. Engraçado, sentia-se triste. Queria ficar mais na pousada deliciosa e mágica. Queria ficar com as pessoas que a encantaram. Só que agora a vontade estava emburrada. Por isso, ela pô-se a andar rápido, agora que estava descansada, para chegar à cidade que sonhava. Mas seu coração só ansiedade sentia...

Andou, correu, chegou, enfim. Nem acreditou! Havia uma placa empoeirada dizendo “cidade dos sonhos”, porém quando olhou, só havia escombros, vazio e solidão. A menina sentou na calçada e chorou. Todavia, depois de ter chorado, ela se sentiu aliviada e purificada. Em seguida descobriu, exultante, que matara a vontade. Nem percebeu como aconteceu! Mas as experiências que viveu nesta viagem - amizade, carinho, liberdade, generosidade, descoberta, reflexão, aventura e felicidade - todas elas, juntas e separadamente, mataram a vontade!

A menina ficou tão feliz e realizada que decidiu voltar à pousada, andar com calma na bela estrada na qual admirara as estrelas e também ao lago que tanto gostara.

Porque agora ela estava completamente livre e aprendera que o que importa é o caminho a ser trilhado; chegar ao lugar de destino é uma consequência, e que ser livre é não ser escravo da vontade.

E assim, a menina que tinha vontade passou a ter liberdade!











Biografia:
Formada em Letras, fascinada por Linguagem. Escritora iniciante, gostaria de trocar ideias com profissionais desta área pelo blog: www.muitomaisbiacantanti.blogspot.com
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