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Análise da letra da música “Rap Pau-Brasil” do grupo C10
Rodrigo Sardá

Os primeiros versos

     A letra começa com a frase sintética de Jorge Ben Jor: “Eu moro num país tropical”. Estas palavras caíram no imaginário popular como uma das definições mais concisas e precisas sobre o Brasil, pois ao exprimir a geografia do local nos vem à mente toda a plasticidade e a grandeza da flora e fauna tão marcantes da região; suscita a imagem de um país colorido, despojado e feliz; a beleza do seu povo; a alegria de um dia de praia; os festejos do carnaval e do futebol; a cordialidade teorizada por Sérgio Buarque de Holanda. Cabe lembrar que uma das teses dos filósofos positivistas era a de que os aspectos geográficos contribuem para definir o homem, ou seja, a geografia do lugar determina em partes a cultura, a economia, a moral... Aliás, esta tese foi empregada por Euclides da Cunha em seu livro Os Sertões quando o escritor resolve abordar a questão dos nossos sertanejos.
No segundo verso da canção: “Tão sonhado El Dorado de Portugal”, o autor da letra traz à memória o fato de que muitos dos antigos navegantes procuravam a cidade de El Dorado. Uma antiga lenda da época da colonização das Américas, que falava de uma cidade onde os tesouros e a fartura abundavam, esta seiria El Dorado, por consequência os europeus esperavam encontrá-la no Novo Mundo.
Em seguida a letra cita um livro lapidar para quem deseja entender um pouco mais do país: Casa Grande & Senzala (1933), do antropólogo Gilberto Freyre. Este texto foi uma das primeiras tentativas de se procurar interpretar o Brasil. O livro trata da importância da casa grande na formação sociocultural brasileira, bem como da senzala, que complementaria a primeira.
     
Formato da canção

Fato curioso e pouco percebido é que os quatro primeiros versos, que abrem as portas para uma viagem paronâmica pelo solo brasileiro, também coincidem com a divisão quartenária do rap; fechando, assim, o primeiro ciclo dos compassos justamente com a parte que diz respeito à introdução da letra.
     Ainda quanto ao formato da canção, os 96 versos não apresentam nenhum erro de ortoepia, correta acentuação tônica das palavras. Este é um dos fatos que caracterizam o bom MC, pois a ritmica segue macia, cada palavra é encaixada habilmente sobre a base num movimento percussivo dando musicalidade ao rap. Rodrigo da Ilha também não sacrifica a ideia do texto por conta da rima ou do flow, pelo contrário, nota-se um apurado trabalho de pesquisa em toda a canção a fim de exprimir da melhor forma o pensamento.
A música incidental deste rap é um baião do mestre tropicalista Tom Zé, Xique-Xique. Melhor escolha não poderia ter sido feita, visto que ao ter o Brasil como temática, nada mais apropriado do que se valer de um ritmo nacional, ainda mais o baião, gênero forte que descreve tão bem a nossa gente.
A riqueza das citações ao longo da letra demonstra um apurado conhecimento geral sobre país: sua cultura, suas virtudes, suas carências, sua história. O próprio título da canção já denota agudeza e domínio sobre o assunto, posto que a lembrança da árvore que deu nome ao Brasil também dá nome ao rap que canta a nação.

Passagens históricas

Quanto ao contexto histórico, muitas são os extratos.
Referente aos aspectos da época colonial temos, por exemplo, o seguinte trecho: “A colônia tem ouro, índio e cocar / Colo de mucama, Iaiá, tupinambá”.
Outros pontos lembram o período da Ditadura Militar: “No BOPE, no DOPS, não é mole não, negão”. Mais à frente vê-se um apanhado de fatos que revelam, infelizmente, uma índole leviana dos brasileiros no trato com a coisa pública: “É café com leite, AI-5, o império / Senador, marajá, no Brasil nada é sério”.
O banditismo de Virgulino Lampião e a batalhas dos bravos gaúchos contra o Governo Imperial do Brasil também foram citados: “No sul eram farrapos, no norte o cangaço / Com bala do canhão comendo o espaço”.
A migração nordestina, tão marcante e presente, recebeu um dos mais belos versos que a música brasileira já concebeu: “E a romaria que segue, vem descendo o nordeste / Vem no lombo de jegue, muito cabra da peste / Vem fugindo da fome, vem comendo granito / Até chegar a São Paulo, o arraial dos aflitos”.
Outros dois fatos que chocaram a opinião pública, o Massacre do Carandiru e a Chacina da Candelária, foram rememorados em tom de denúncia: “Carandiru, Candelária, quem não lembra ou não viu / Quase sub-brasileiros dentro do Brasil”.

Figuras de linguagem

Um traço curioso da prodigiosa letra de Rap Pau-Brasil são as alusões a famosos escritores que em tom de “ironia” são mencionados ao lado de objetos que revelam o lado mundano da vida do povo brasileiro: “Minha mãe pobre de cor tropical / Azevedo, Camões, Guimarães, fio-dental / Baile funk, boné, três oitão, o sinhá / Bota na panela pra tu vê no que vai dar”. Com isto, o autor conseguiu ressaltar, ao mesmo tempo, tanto a genialidade e a beleza da nossa cultura quanto a noção de que algo deu errado na formação do país. A beleza, o clima festivo, a natureza contrapõem-se ao “jeitinho”, à corrupção, à farra, à violência. Este recurso pode ser visto nos versos que antecedem o fim da canção: “Tem bunda de fora, é novela, é jornal / Portugal, é o pau, carnaval, o escambau / Um gigante do sul, tal qual um castelo / O Brasil foi sonho de pedra e fé / Da fortaleza sonhada em verde e amarelo / Só a esperança ficou de pé”.
     Valendo-se da polissemia do vocábulo “brasileirinho”, Rodrigo da Ilha traça um paralelo entre a mais afamada composição de Waldir Azevedo e os pequenos garotos do tráfico de drogas: “Em Vila Isabel, na Rocinha, ou Mangueira / Brasileirinho no cavaquinho é “nó na madeira” / Em Salvador, em Recife, em Floripa ou em Porto / Brasileirinho no pó se não mata é morto”.
     O texto ainda faz-se notar pela existência de versos inteiros sem a presença de nenhum verbo, o que nos estudos de Lógica chamamos de Linguagem Tautológica: “Sabiá, bem-te-vi, colibri, Pantanal / Matagal, sucuri, jararaca, coral”. Este não é um fato comum, haja vista que toda a ação gramatical estrutura-se em torno de verbos.
     Como o poema compõem-se sobretudo de citações que caracterizam, segundo o autor, o país, duas figuras de linguagem estão extremamente presentes nessa canção: a anáfora (repetição intencional de uma palavra) e o zeugma (elipse de um termo da oração que foi mencionado anteriormente). A letra da música, em muitas passagens quando se refere ao Brasil, usa o verbo “ser”, pois, considera que o país nasce do conjunto de todos estes elementos e nisto a anáfora faz-se presente: “É cerveja em lata, é mulata, é o clima / É samba, é suor, é Macunaíma”. Já o zeugma, no exemplo a seguir, também representado pelo verbo “ser”, serve para imprimir ritmo ao rap: “É feijão, farinha, dendê, Caipirinha / Gilberto Freyre, mestre Pastinha”.
     No seio de tantas citações, a letra não se reduz a exaltar e propagandear um lugar sem defeitos, mas delata, acusa, revela o lado podre de nosso país. Todavia, este não é um rap rancoroso, como muitos que encontramos, que enaltecem apenas os pontos negativos das coisas. Em suma, a música mostra que somos uma nação com várias facetas: “País das coisas belas e trágicas”.
     
O refrão

Ele começa nos remetendo à cidade de Salvador, o berço do Brasil, a primeira capital da nação: “O sol em São Salvador bate no tambor que acorda a nação”. Aqui o sol pode assumir a conotação de uma primeira luz que traz à tona um país que surge, há no conceito de sol a ideia de um começo, de uma natividade, de um vir à luz.
Pela sequência lógica, o autor menciona o povo brasileiro, já que não existe país sem povo. Notamos um elogio desbragado à insistência e à luta dessa gente: “O sangue de toda essa massa é força, é raça nessa imensidão”.
     “Dizem pelos quatro cantos: / “Lá vai o Brasil pobre analfabeto” / Falam que ele é um menino, é o país do futuro, do futuro incerto”. Neste trecho o brasileiro deixa de ser o assunto para dar lugar à imagem degradante que muitos estrangeiros têm do país. Aqui o autor vale-se da prosopopeia, figura pela qual se dá vida a coisas inanimadas, emprestando a imagem de um menino à nação. Logo em seguida renova-se o vigor de nossa imagem com a alcunha de “o país do futuro”. Não obstante, o slogan vem atrelado ao uso de mais uma figura de linguagem, a ironia, posto que o país do futuro tem pela frente um futuro incerto, ou seja, apesar de reconhecer as potencialidades brasileiras, o autor reconhece as carências, dificuldades e a linha tumultuada de nossa história.
Esta perspectiva de otimismo, pessimismo e ironia é o tom marcante do refrão, que culmina de forma genial citando o rio Tietê, que corta o estado mais importante do Brasil, São Paulo: “Terra de beleza rara, mas a sua cara é o Tietê”. São Paulo já recebeu o epíteto de “locomotiva do Brasil”, pois isoladamente é responsável por cerca de 30% do PIB nacional, sendo a mais rica das nossas unidades federativas. Contudo, o Tietê degradado pela poluição aponta para a falta de planejamento e incompetência para se gerir o país, é como se o Brasil fosse o lugar da sujeira, da vergonha, da bandalheira onde não há mostras e nem capacidade para se resolver as coisas.


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