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A LIBERDADE NA PALMA DA MÃO
Celso Roberto Pitta

Resumo:
Uma abordagem moral sobre o conceito de liberdade.

A LIBERDADE NA PALMA DA MÃO
Por: Celso Roberto Pitta

O pequeno Jordan era aquele típico menino que, apesar de sua origem humilde, recebera uma ótima educação materna, visto que seu pai, ausente há punhados de anos, jamais retornara da batalha a que fora enviado para lutar por seu país durante a II Guerra quando seu rebento ainda engatinhava. Sua tenra idade não lhe deixara mais que migalhas de suas lembrança paternas. No entanto, não se importava com sua condição de pobreza e se considerava feliz com sua família, seu lar e sua coleção de borboletas! Sua mãe afirmava ser ele um explorador nato devido à quantidade de artefatos decorativos de origem geológica que o mesmo trouxera das inúmeras cavernas e grutas que descobrira naquela região rochosa. Atividade tão prazerosa, segundo ele, era só igualada à leitura dos livros que tomava emprestado da pequena biblioteca da escola e que, em cujas leituras, transcendia de seu estado natural e assumia com pródiga imaginação o lugar de seus personagens.

Em uma recreativa manhã na escola onde estudava, sua classe participava de uma gincana literária. Amante das letras, a professorinha de aparência esquálida e estatura exagerada praticava seu proselitismo literário habitual no afã de garimpar entre os discentes um diamante bruto e pronto para ser lapidado. Naquela atmosfera de competição, cada aluno que compunha um dos três grupos deveria ler os primeiros parágrafos de um capítulo do escolhido livro e continuar a narrativa ao sabor da própria imaginação, criando um final surpreendente e coerente para o episódio inicial. A melhor história estamparia a primeira edição do periódico escolar mimeografado: uma façanha que jamais seria esquecida. Tanta emoção e competitividade trouxeram para a superfície incríveis narrativas extravasadas do universo particular de cada estudante naquela manhã ensolarada. Todos queriam o fascinante livro como prêmio, inclusive o pequeno Jordan, encantado com a possibilidade de criar novas fantasias ao longo de sua leitura!

Ao final, antes mesmo da singela homenagem que faria ao vencedor, a professora encerrou a atividade com uma reflexão moral ensinando à sua audiência sobre a importância do “abrir mão” de coisas menores em troca de estarem livres para conquistar coisas maiores e mais importantes. Ela iniciou então sua parábola contando a história de um menino que fora visitar, acompanhado de sua mãe, uma tia solteirona e rica. Ao chegarem àquele suntuoso palacete, saltou-lhe aos olhos a quantidade de objetos valiosos e decorativos em mármore e cristal, além de inúmeros outros belos artefatos em prata e outros metais de valor inestimável. Os olhos do menino deslumbravam-se, girando feito periscópio.

No momento em que a tia os convida ir à cozinha para um apetitoso lanche, o deslumbrado visitante avista um jarro de cristal transparente reluzindo sobre um pedestal. Ao se aproximar, percebe que em seu interior há um punhado de moedas que parecem acenar para ele. Seduzido pela posse das “caras e coroas” que ali jaziam amontoadas o mesmo introduz sua mão e a fecha recolhendo-as em seu interior. Porém, ao tentar subtraí-las do recipiente, sua mão fechada não mais podia passar pela boca daquele inusitado cofre, ficando presa em seu interior, o que desencadeou no menino desesperado e copioso choro. Surpreendidas por tamanho alarido, correram sua mãe e sua tia a ver o que se passava no corredor onde o menino esforçava-se para retirar a sua mão daquele jarro. A mãe, atônita, repreende o filho por tocar sem consentimento no objeto que não lhes pertencia ao mesmo tempo em que tenta puxar a sua mão, que continua travada no gargalo daquela reluzente obra de arte. Ambos entram em desespero e, embora envergonhada, propõe a mãe que se chame um bombeiro para que salve a mão do filho sem que seja necessário danificar aquele valioso artefato. O menino então, em prantos,suplica: “Não deixem que eles cortem a minha mão, mamãe, não deixe!” A tia, entretanto, percebendo a situação, manteve-se calma como uma monja e sem delongas replicou: “Deixe-nos a sós. Tudo vai ficar bem!” Então, com a candura de um anjo, a habilidosa anciã pergunta-lhe delicadamente: “o que é mais importante para você, perder a sua mão ou perder os níqueis que segura dentro dela? Vamos! Abra a mão e deixe que as moedas caiam. Assim ela não mais ficará presa neste jarro!” Então o menino abriu a sua mão, livrou-se das moedas que o prendiam àquela desditosa experiência e sorriu aliviado!

Ditas estas palavras, apressa-se a professora em dar o desfecho esperado àquele concorrido evento, anunciando o vencedor. Ela faz suspense lançando no ar uma interrogação: “A primeira edição de nosso jornal escolar será abrilhantada pela história do consagrado escritor... tchan tchan tchan tchan... Jordan!”       Seguiu-se súbito silêncio entremeado de murmúrios de lamentação. Todos já podiam imaginar! Mas eis que aquela simpática educadora guardava uma grande surpresa! Ela pergunta sem a menor cerimônia se o vitorioso competidor abriria mão da primeira colocação e cederia a honra de inaugurar o jornaleco em grande estilo com a publicação do texto do segundo colocado que, afinal, era também maravilhoso!

Diante da pergunta incisiva e inesperada, todos ficaram alvoraçados e tomados de grande expectativa, exceto o nosso pequeno campeão, o qual, meneando sua cabeça lenta e positivamente e com impecável serenidade, lembrou-se   de relance o desafiado mancebo da parábola proposta a pouco por sua inquisitiva mestra, respondendo com um sonoro e retumbante SIM!

Inacreditável! O aplaudido discente aprendera tanto com aquela analogia ao ponto de abrir mão da sua consagração em favor doutro colega da classe e, consequentemente, de algo ainda maior, embora não soubesse o que poderia ser! A comovida professora, é claro, sentindo-se gratificada pelo resultado do seu labor estende então ao carismático aluno, tal como um troféu em emocionado gesto de admiração o tão desejado exemplar do livro, aquele que o fizera mergulhar no mundo da imaginação, o qual este tanto desejara possuir! Bravo! Bravo, Jordan!


Biografia:
Nascido em Maricá (RJ) onde passei parte de minha infância, perambulei pelas ruas até meus 19 anos. Constituí família e só fui fazer faculdade em 2001, já aos 40 anos. Graduado em geografia (2005) e Letras/Inglês (2021), possuo 4 especializações: duas na área ambiental e duas na área educacional. Professor de geografia na rede pública estadual do RJ desde 2008. Escritor, lancei meu primeiro livro em 2008 sob o título "A cidade digital e os impactos da sociedade da informação no território" - Editora Corifeu, 2008.
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