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Vermelho Sangue
Átila Anderson

VERMELHO SANGUE
Um conto de ÁTILA VILA RIO. 


“Viu o que eu te falei, doutor? Lá vai o puto de novo. É todo o dia a mesma coisa...”
Disse Ribeirão a seu acompanhante. Um homem de pele alva, ligeiramente calvo, aparentando ter entre quarenta e cinquenta anos. Ele estava elegantemente vestido, trajando um terno creme, Armani, cirurgicamente bem cortado. Os dois ocupavam um luxuoso sedã preto estacionado na rua oposta a um bar, do qual não desviavam os olhos enquanto conversavam.
“Ele chega sempre nessa hora. Entra. Vai até o balcão pede um whisky com duas pedrinhas de gelo. Não olha para os lados, não fala com ninguém. Volta e meia fica girando as pedrinhas de gelo no copo com o dedo indicador, dá uma bicadinha e fica pensando na vida. Amigo, esse lenga lenga segue noite a dentro. No final, paga a conta e vai embora. E só pra constar: faz sempre o mesmo caminho...”
O homem de terno claro balançou a cabeça em anuência ao relato que acabara de escutar. Sua atenção permanecia voltada para dentro do bar, mais precisamente, para o homem corpulento de meia idade, trajando blusão preto para fora da surrada calça jeans ancorado na frente do estreito balcão.
“Na boa doutor, não me leva a mal, mas, tem certeza que o sujeito é esse mesmo? – a fala de Ribeirão vinha acompanhada de uma careta desdenhosa.
“Absoluta”.
“Ok, tá certo. Quer dizer, longe de mim duvidar da sua pessoa... é que esse malandro não está me parecendo assim...com o perdão da palavra... “FODÃO” como o doutor disse...com todo o respeito, tá?”
“Duro como pedra... frio como o gelo... – por um átimo de segundo o homem pareceu distante. Um observador mais atento poderia jurar que sua boca ameaçara esboçar um discreto sorriso.
“Como é que é?!” – objetou Ribeirão com uma expressão tão franzida que fez seu rosto assemelhar- se a uma bolinha de papel amassada.
“Nada. Só estava pensando alto...”
“Ah... gente instruída igual que nem o doutor tem dessas coisas, né?” - o homem o olhou de esguelha e respirou fundo impacientemente.
“Economiza Ribeirão. Já ouvi o bastante. O que eu quero saber é quando você vai executar o serviço?”
“De hoje não passa patrão.”
“Que assim seja. Aguardo notícias.” – disse o homem indicando com a cabeça a porta do veículo.
“Deixa comigo, doutor. Até a vista.” – foram suas últimas palavras antes de saltar do automóvel e se encaminhar até o bar.
Adentrou calmamente o recinto examinando o ambiente, mas, sobretudo perscrutando seu alvo, pelas costas, da cabeça aos pés. Aproximou- se do balcão e parou exatamente ao lado do homem grande, de ombros largos e olhar perdido que passava o dedo indicador sobre as pedrinhas de gelo dentro do copo vazio. Pôde reparar que o rosto de traços bem marcados, embora bastante castigado pelo tempo, conservava uma expressão dura e com certa altivez. Tinha os cabelos grisalhos, quase em sua totalidade, cortados bem recos ao estilo militar.
Ribeirão acendeu um cigarro quase rindo consigo mesmo ao estabelecer mentalmente um paralelo entre sua compleição física e a do sujeito ao seu lado. Talvez fosse uns dez ou quinze anos mais moço e levemente mais alto. Em compensação era magricela ao extremo e tinha cara de criança. Fato que tentava atenuar deixando crescer uns fiapos esparsos ao longo da face constituindo uma penugem rala a qual tinha o despautério de chamar de barba.
Era a primeira vez que ficava tão próximo ao seu alvo, das outras, ao longo da semana, manteve sempre um certo afastamento. Precisava admitir que àquela distância o adversário parecia bem mais ameaçador. Entretanto, não havia o que temer, afinal, não teria que sair no braço com o grandalhão. O doutor foi bem claro quando disse que queria um serviço rápido e eficaz, e, para isso confiava plenamente na Taurus Spectrum. 380 que trazia na cintura. Em posse desse “brinquedinho” sentia -se um verdadeiro super-homem...
“Tá quente hoje né, irmão? – arriscou Ribeirão, sendo solenemente ignorado. Voltou- se então para o atendente do bar. – Aí meu camarada, desce uma gelada pro teu amigo aqui. – O rapaz dirigiu- se ao freezer e retornou trazendo uma cerveja. Ele a abriu e serviu Ribeirão.
“Hummmm. Essa tá estalando! Do jeito que eu gosto... – disse após um longo gole. - “Vai aí amigo? – ofereceu Ribeirão voltando a ser ignorado por seu interlocutor que limitou- se a empurrar o copo vazio na direção do atendente pedindo outra dose.
Sem demora o atendente trouxe mais uma dose de whisky com soda e duas pedrinhas de gelo. O homem tornou a passar os dedos sobre elas, como se mais nada existisse ao seu redor. Ribeirão abriu um largo sorriso e disse:
“Vai ser uma longa noite...”.

O dia amanhecera nublado. Foi o que reparou o Dr. Marcelo Mattoso assim que saiu do luxuoso sedã preto que acabara de deixar no estacionamento privativo para funcionários da Delegacia de Homicídios da Capital.
Como de costume, tinha aparência extremamente limpa e trajava um garboso terno preto que chamava a atenção pela perfeição de seu caimento. Complementando sua indumentária havia um cordão que trazia preso a si, um distintivo no qual estava escrito “DELEGADO”. A poucos passos da entrada da delegacia percebeu a notificação de mensagem advinda de seu celular. Seus olhos, ainda que discretamente, denunciaram certo espanto ao fixarem- se na tela do aparelho. O conteúdo da mensagem trazia uma foto de um corpo decapitado banhado em SANGUE.
À primeira, seguiram- se mais três ou quatro mensagens. Todas, fotos do mesmo corpo vistas de ângulos diferentes. E então uma última mensagem. Desta vez de áudio:
“Estou na sua casa. É melhor não demorar. Ah, deixei um presente na mala...”
O delegado estava ainda mais branco do que de costume. Deu meia volta e a passos largos dirigiu- se ao carro. Quando abriu o porta-malas levou a mão à boca no intuito de conter a ânsia de vômito que o assolara. Havia uma cabeça. A cabeça que faltava ao corpo da foto... a cabeça que outrora costumava ser vista presa ao pescoço de Ribeirão...
De súbito fechou o porta-malas. Olhou para os lados certificando- se de que não haviam testemunhas. Respirou fundo, pensou por um ou dois segundos e apanhou novamente o celular:
“Dona Gleice. É o Dr. Mattoso. A senhora sabe me dizer se o inspetor Julião separou os arquivos que eu pedi? Ótimo. Peça a alguém para trazê-los para mim. Estou aqui no estacionamento. E estou com pressa...”
Dr. Marcelo abriu sorrateiramente a porta. Em uma das mãos trazia algumas pastas de papelão. Na outra, uma PT. 380 cromada. Ao cruzar a soleira foi surpreendido pelo “click” característico de uma arma sendo engatilhada.
“Larga”. – seu corpo retesou- se. Moveu lentamente a cabeça na direção de onde viera a voz...
“Seu filho da puta! Precisava disso tudo?!” – disse efusivamente amaldiçoando com o olhar o homem corpulento, de cabelos recos e agrisalhados cortado ao estilo militar.
Ele estava sentado no sofá e empunhava um revólver calibre 38 cano curto. Com o qual, fez sinal para que Dr. Marcelo depositasse a pistola sobre a mesinha de centro, localizada a sua frente, e ocupasse o outro sofá. O delegado acatou as ordens.
“Hein?! Você não me respondeu. Precisava arrancar a cabeça do infeliz? E ainda por cima jogar aquela porra dentro do meu carro?!”
“Se está preocupado desse jeito com a cabeça, devia ver o que eu fiz com o corpo...”
“Como é que é?”
“No momento isso é irrelevante. O que eu quero é saber por que você pôs um pistoleiro na minha cola. Estava sem coragem de fazer o serviço? Depois de velho ficou frouxo?”
“É exatamente ao contrário, seu babaca. Está vendo isso aqui?
Disse mostrando as pastas. Logo depois jogou-as sobre a mesa.
“É só uma amostra do que você me pediu. Casos “engavetados”. Tenho arquivos lotados dessa merda. Uns mais antigos. Outros mais novos. Um monte deles. Sabe o que eles têm em comum, Jorge? Ninguém dá a mínima. Um bando de gente que não vale porra nenhuma, atrás de justiça pra quem vale menos ainda... Mas, não foi isso que você me pediu?” - o homem não respondeu. Permaneceu imóvel, limitando-se a encará-lo.
“Ok. Não pense que eu estou reclamando, não. Aliás, devia até te agradecer. Você vai me dar uma bela “mão” fazendo essa “faxina”. Só que eu, em nome dos velhos tempos, não queria correr o risco de receber uma chamada no meio da noite e precisar sair para recolher o teu corpo. Por isso, pra te colocar à frente dessa missão, eu tinha que ter certeza de que o bom e velho “PEDRA DE GELO” ainda era o mesmo depois de tanto tempo...”
“Eu estive preso, Mattoso. Não morto. - O delegado sorriu. – “E além do mais, parece que eu passei no teste...”
“Sim. Você passou. Mas, e aí? Abre o jogo. O que você tá procurando? Diversão? Está com saudade de brincar de polícia? Porque se for isso, eu te ofereci algo bem melhor, onde o seu talento vai ser muito melhor utilizado...” – o delegado calou-se bruscamente mediante a ação de Jorge desengatilhando a arma.
“Agradeço. Mas a decisão é minha. – Jorge esticou a mão para alcançar as pastas. Em seguida levantou-se e guardou o revólver no cinto
“Tá certo. Continuo achando perda de tempo. Mas, cada um sabe de si, não é mesmo?”
“É verdade”. – Jorge encaminhou-se para a porta.
“Só mais uma coisa. Fica esperto para não ser apanhado. Inevitavelmente me ligariam a você e... eu tenho um nome a zelar...”
“Fica frio. Ninguém vai ouvir falar de mim. Só não posso prometer o mesmo sobre as coisas que eu vou fazer...” – disse sem olhar para trás e saiu.
O delegado respirou profundamente, demonstrando alívio. Esfregou o rosto com as mãos. Afrouxou o nó da gravata e manteve-se pensativo por alguns instantes. Enfim, apanhou a arma sobre a mesa e levantou-se.
Seguiu pelo amplo corredor em direção ao quarto. Quando abriu a porta precisou apoiar-se na maçaneta para não sucumbir à fraqueza que bambeou suas pernas frente ao choque que tomara. Os olhos inertes fitavam os restos mortais de Ribeirão espalhados pela cama.
O odor pútrido da carne morta já havia empesteado todo o ambiente. Desta vez tornou-se impossível aguentar. Dr. Marcelo Mattoso, do alto de sua elegância, achou-se, esvaindo-se em vômito de tal maneira que não conseguira reunir mais forças para ficar de pé. Suas roupas caríssimas e a imundice expelida de seu próprio organismo dividiam indistintamente nessa hora o mesmo chão.
O lençol de seda, que um dia fora branco, era agora desgraçadamente vermelho... VERMELHO SANGUE...



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Contos Vermelho Sangue Átila Anderson


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