Login
E-mail
Senha
|Esqueceu a senha?|

  Editora


www.komedi.com.br
tel.:(19)3234.4864
 
  Texto selecionado
TEMPO AO TEMPO
Flora Fernweh

“As aldeãs andavam pelas ruas sujas de um dia nublado, crianças apinhadas com seus irmãos poeirentos trotavam tristes, em uma marcha retilínea e indiferente.” Eis o trecho escrito pela garota, na torre do relógio daquela cidadela deprimida. Por que o badalo rouco das horas que o metade do mundo esqueceu e a outra metade se desfez? O que é um minuto se a eternidade cabe em um frasco bem menor? A menina se questionava, era dona de um coração valente, não permitia que o surto de depressão repentino a maculasse, pois sabia que a vida exigia força e coragem nos tempos em que a luz não vencia a sombra do abismo, era uma alma feroz e destemida, apunhalada pela juventude retumbante de seu coração e rutilada por seus traços precoces de mulher. Acompanhava assim, o dia a dia quieto e o remoía em sua mente barulhenta antes de transpor cada detalhe inescapável aos seus olhos de águia no papel confidente e amigo. Nada fugia a uma brilhante observadora como a menina-moça, cada folha caída era um anúncio, cada olhar enviesado rasgava sua curiosidade, era digno de mistério, cada pressa banal era uma ânsia em seu peito que tudo sentia. Absolutamente tudo era um alarde maior que sua vida sépia. Se um dia, a noite desistisse de cair e o sol mesmo acanhado não rebentasse ao leste, suas meninices se cristalizariam, como os diamantes no véu da noite perpétua. Enquanto houvesse o amanhã e as voltas de seu mundo, todo o resto estaria em paz, e enquanto aquele relógio tiquetaqueasse o tempo sistemático e costumeiro, nada nem ninguém a perceberia lá em cima, no panóptico da cidade. O tempo era sua cortina, roubava-lhe o primeiro plano na cena que ninguém precisava ver, era seu disfarce ideal. Menina-moça dava corda, acendia o tempo, o motor de sua vida era uma engrenagem radiante no centro da cidade. O resto das almas, quase todas fustigadas, andava sem tempo de olhar o tempo lá em cima, e sem tempo para o tempo de se contentar com a informação de seus relógios de bolso. Às vezes, cansava-se de ver o tempo correr, as portas rangerem, as vidas vagarem, as mentes fecharem, descia do relógio que chamava de seu, desfazia-se do tempo que não tinha quando rebaixada ao nível do supérfluo citadino, e em sua imaginação, triturava cada segundo perdido das vidas alheias e transformava cada instante não vivido daqueles que julgavam-se conhecedores de tudo. Reconhecia em si mesma o desejo de intensidade, longe do precipício das horas, do passo das épocas e da jornada do tempo.


Biografia:
Sobre minha pessoa, pouco sei, mas posso dizer que sou aquela que na vida anda só, que faz da escrita sua amante, que desvenda as veredas mais profundas do deserto que nela existe, que transborda suas paixões do modo mais feroz, que nunca está em lugar algum, mas que jamais deixará de ser um mistério a ser desvendado pelas ventanias. 
Número de vezes que este texto foi lido: 65749


Outros títulos do mesmo autor

Frases Memória e mentira Flora Fernweh
Crônicas O valor que se dá ao encontro Flora Fernweh
Crônicas Curitiba - Relato de Viagem Flora Fernweh
Poesias Louvor à Língua Flora Fernweh
Crônicas Opinião - Redação ENEM 2024 Flora Fernweh
Poesias 20/10 - Dia do Poeta Flora Fernweh
Poesias Primeva Primavera Flora Fernweh
Poesias No Princípio era o Verbo Flora Fernweh
Resenhas Latim em Pó - impressões pessoais Flora Fernweh
Crônicas Despertada no REM Flora Fernweh

Páginas: Primeira Anterior Próxima Última

Publicações de número 51 até 60 de um total de 461.


escrita@komedi.com.br © 2026
 
  Textos mais lidos
Criação - valmir viana 66282 Visitas
AS PÁGINAS DE TERRA DE MIA COUTO - Viegas Fernandes da Costa 66278 Visitas
Poema à consciência - Condorcet Aranha 66272 Visitas
sei quem sou? - 66265 Visitas
OS SEMINARISTAS - FLAVIO ALVES DA SILVA 66262 Visitas
O estranho morador da casa 7 - Condorcet Aranha 66261 Visitas
Desabafo - 66259 Visitas
As incertezas na administração empresarial - Isnar Amaral 66252 Visitas
Anistia para a imprensa - Domingos Bezerra Lima Filho 66247 Visitas
Princípio da juridicidade na Previdência Social - Alexandre Triches 66244 Visitas

Páginas: Primeira Anterior Próxima Última