|
Ela. Ela era só ela. Dona de si, independente e provedora. Achava que não tinha defeitos. Defeito algum. Para se ter uma ideia, nem acreditar em Deus ela acreditava, porque ela era só ela, oras! Era de Touro. Orgulhosa, determinada e forte. Forte como um touro. Mas também não acreditava em signos, nem arcanos, nem nada. “Nada dessas coisas, saca? – dizia ela – Não acredito nem em destino! Sorte ou azar? Nada a ver. Quem escreve minha história sou eu. Foda-se o alinhamento do Sol com Andrômeda; danem-se os Búzios ou trevo de quatro folhas, ferradura e o escambau. A felicidade sou eu quem faço Trabalho pra quê, afinal?” Trabalhava em um salão de beleza no Setor “P” Sul (bairro periférico de Ceilândia–DF) como manicure e pedicure. Musicalmente, flertava entre os Racionais e Bonde do Tigrão. “Na verdade sou eclética, saca véi?”. Wanderléia, Wando e Banda Calypso também entravam em sua eclética, – por favor, não esqueçamos desse termo “eclética” – enorme bagagem auditiva. A moça era completamente apolítica. “Nem entendo porra nenhuma, véi. Pra mim, tudo róba”... Mas ela, Rosa Maria, chamavam-na então só de Rosa, porque afirmava que “Maria” era nome de velha, tinha lá seus grandes méritos como mulher Adorava ser chamada de “Mucama”. Na cama, é óbvio. Tinha 23 anos. Entre os anos de 1999 e 2000, era apelidada carinhosamente de Bavária (em alusão a marca de cerveja) porque todos os amigos da rua já haviam sido embriagados por ela. Todos tinham sido escravizados pela Mucama.
Rosa adorava um macho. Por favor, não nos esqueçamos deste pequeno detalhe. Barba, ombros largos, cheiro agridoce, pêlo, peito, pegada, porra, lambida, comida, esfregada, rasgada. Sexta, após a cervejada na casa da Luiza, encontra Vinícius, amigo de infância, quinta série ela pensa, não tem certeza, não lembra direito. Mas se lembra do jeito como se sentia perto daquele magrelo que, na época, já tinha um bigodinho fino, à la cantor de Bolero. Ele chega, ela nem finge que não lembra, já vai logo dizendo, insinuando, oferecendo, dando. Efusivos, eles vão, vem, voltam, retornam ao mesmo assunto. De repente, como num passe de mágica, como se nada aquilo fosse natural, acabaram se teletransportando para o quarto da amiga Luiza. “Gente boa a Luiza, empresta o quarto para as amigas e tudo”. “Tem um pacote com preservativos masculinos texturizados no meu armário, sussurrou Luiza, no corpo da camisinha há uns pontinhos salpicados como se fossem bolinhas. que aumentam gradativamente o prazer, é uma delícia!”, disse no ouvido da amiga Rosa, que a partir de alguns minutos se transformaria na “Mucama”.
“Gente boa a Luiza, empresta os preservativos diferentes e tudo”. Apaga a luz Vinny diz, pra quê ela responde. Mucama vai logo esfregando, apertando, arranhado, aqui, assim, tira tudo, põe tudo, isso, agora, to quase. No dia seguinte ela ligou. Ele não tinha dado a mínima. Terminou onde quis, ela tinha deixado que assim fosse. Ela ligou novamente. Ligou, ligou, ligou. Ele tinha dado o número errado, o desgraçado. Tentou de novo, mas errou o último dígito. “Não, aqui não tem nenhum Vinny não, sou o Fabrício, mas como você ligou, diga-me boneca, tava procurando companhia pra sábado é?”
Boteco do Badeco – Aqui o forrozão come solto, cambada! Este era o slogan do bar. O encontro aconteceu às vinte e três horas em ponto. Fabrício chegou de Chevette 85 verde, camisa pra dentro da calça de brim azul escuro e gel na cabeleira. Quis fazer um topete moderninho, mas acabou deixando de lado. Seu cabelo era quase impermeável. Sarará total. Cida chegou de vestido curto preto, básico, solto e com decote. Fabrício pensou em deixar seu cigarro Derby Azul, já quase fumado o filtro, cair no chão para poder arrumar pretexto para examinar a cor da calcinha da Mucama. O pobre homem estava com a cabeça longe. Estava com a cabeça dura. Depois da segunda cerva, Rosa mira o garçom e diz “Ta aqui a grana da cerva” e sai com Fabrício, que ainda tentava explicar pra ele que era ele quem ia pagar a conta. Ela soltou um “eu tô com pressa, baby”, e pulou em cima dele. Abriu a porta e foram para o Chevette. “Tem certeza que não passa ninguém aqui, Rosinha?” Mas ela nem respondeu. Quando meteu a mão por debaixo do vestido, ela estava sem calcinha. Oh!, ele exclamou, mas ela nem deu bola, porque já estava nas bolas. Tocou, beijou, lambeu, brincou, gozou.
No dia seguinte, nada. Ele também não ligou. Confiou nele a ponto de ficar esperando Fabrício dar um telefonema apenas. Foi como o outro. Além do telefone, tinha dado o MSN: mucama_sapekinhaaa@hot. Mas nem isso. Nem sinal de fumaça. Nem língua de sinais. Talvez se fosse mudo, teria emitido qualquer som incidental. Ela tinha vasculhado todo o Orkut, procurando pelo nome ‘Fabrício Arthur’. Mas de certo, o moço deve ter ido ao cartório desfazer o registro nominal. Merda de homens!, pensou consigo.
Na semana seguinte, saiu com a Regina, prima de consideração. “Hoje vamos causar Rosa, vamos causar!”. Foram a um churrasco na casa da Carlinha, que acabou por apresentar a elas, o Paulinho, que era ex-cunhado da prima da Fernanda, uma ex-melhor amiga da Regina nos tempos do 2° grau. Cerveja, wisky e vodka passeavam livre e alegremente aos litros pelas mãos dos convidados do “churras” da Carlinha. Pessoas são apresentadas, pessoas são devoradas com olhares libidinosos de jovens tarados e embriagados. Aquela coisa toda que você sabe muito bem. Pois bem, Paulinho chegou, soltou cantada de mestre-de-obras, boa pinta, gostosão, Mucama gostou, ta gostoso, mas então vamos para sua casa. Paulinho disse “Não, temum lugar aqui pertinho que”... mas ela o interrompeu “Paulin, só na sua casa”. Ele estava louco, pensando na marquinha do sutiã dela que tinha visto de relance.
Vodka espanhola, de Córdoba, MPB, Jorge Ben, Take easy my brother, e ele no sofá, uivando e pulando em cima dela como um garotinho de cinco anos que vê o Mickey Mouse pela primeira vez. Ela bebeu, fumou, dançou, ele pediu, dançou com ela, pôs a mão e ela disse “Não”. Até se surpreendeu ao repetir: “Não!” E gostou: “Não, não e não”. Ele enlouqueceu de vez: Ah, mucaminha... implorou, gesticulou, agonizou, pelamordedeus!, se contorceu feito um fanático no final do Brasileirão. “Tá bom”, ela disse, “faço um strip”. Deus seja louvado!, pensou ele, porque já estava a ponto de explodir as cuecas e sujar todo o chão da sala com sua imundície. Parou e ficou olhando, quando ela, de uma vez só, disse “a calcinha te dou de presente, mas o corpo não”. Quase chorou ao ver a Mucama linda vestindo a roupa e abrindo a porta solenemente. Se atrapalhou um tanto enquanto guardava seus pertences na calça jeans, mas já era tarde. Ela piscou pra ele e tomou o elevador. Quando Paulinho voltou, ficou absorto pensando naquele piercing no lugar estratégico. Estava louco por Rosa, a Mucama. Viu que embaixo da garrafa de vodka vazia estava um bilhete com o número e MSN dela. Depois disso, foi o único que ligou no outro dia. Mandou e-mails, adicionou no Orkut, Facebook, myspace, Twitter e ainda lhe deu de presente o novo disco do Jorge Ben, autografado especialmente “Rosa é a flor escolhida no dia do primeiro encontro do nosso dia com vida”.
|