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É fogo
A crônica do Alexandru Solomon
Alexandru Solomon

Resumo:
O elevador continua subindo, abandonando seus ocupantes, andar após andar.

Início de expediente. O homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira, dirige-se para o elevador. Está um pouco adiantado.Terá o tempo suficiente para dar uma olhada no trabalho, que era para ter sido entregue na véspera e não o foi, já que o chefe saíra mais cedo. No elevador, algumas figuras conhecidas, outras não. Para alegrar a retina, Marilu, a sempre fascinante, graciosa recepcionista, no seu uniforme impecável. ‘Que saúde’, murmura para si o homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira, e logo olha em volta, com medo de ter sido ouvido.
Que nada. O elevador continua subindo, abandonando seus ocupantes, andar após andar. Apenas o homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira, Marilu, a sempre fascinante, e dois engravatados de aparência soturna continuam a bordo. Pronto. O andar da H...do Brasil ltda . Marilu, a sempre fascinante, e o homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira, descem, deixando os senhores de aparência soturna curtir seus tédios em algum andar mais elevado.
Marilu, a sempre fascinante, deixa a bolsa em cima da mesa de recepção e vai dar o último e desnecessário retoque na aparência. Desnecessário na opinião algo suspeita do homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira. Pensa e dirige-se para sua sala. Passa ao lado das divisórias baixas a ocultar, parcialmente, algumas mesas vazias, outras já testemunhando um progressivo ‘aquecimento das máquinas’. Uma lufada agressiva de perfume o atinge ao passar perto do lugar de Maria Celeste. Deve estar fazendo companhia a Marilu, a sempre fascinante. Só o perfume ficou. A sala do filho do dono está fechada. Duas conclusões possíveis. Ele chegou ou ainda não. Para o homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira, isso é irrelevante. A presença ou ausência daquele moleque arrogante, que tinha na filiação sua única virtude, só influiriam no consumo do café no andar... desde que o herdeiro estivesse acordado. Claro, depois de noitadas próprias da idade e da conta bancária, permanecer acordado só é possível aos movidos a café amargo, desde que a amarescente bebida seja ministrada a tempo.
Zé da contabilidade já está a postos. Chegar antes do Zé da contabilidade? Impossível. Pior que ele está sempre com serviço atrasado. Sempre um ajuste ou uma conciliação a mais. Trabalhar com as tais partidas dobradas e ganhar um só ordenado. Triste sina do Zé da contabilidade.
O homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira, já está na sua sala. A secretária que atende os maiorais, entre os quais figura o homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira, já chegou, deixou o jornal em cima da mesa. Colocou também um recado do patrão, desses nos quais, concessão à preguiça, basta ticar uma casinha para manifestar um desejo:´comentar´, ´ler’, ‘para sua info’, ‘providenciar’, ou ‘falar-me’. Havia também a opção ´falar-me com urgência’, nunca utilizada. Na verdade, por uma questão de honestidade intelectual, melhor teria sido ‘experimente não falar já, quando EU lhe peço’. Politicamente correta, a H ... do Brasil ltda., assessorada por um valoroso consultor de Organização e Métodos, jamais poderia admitir semelhante abuso escrito. Os verbais, vá lá... O homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira, olha o papelzinho, para se inteirar da primeira tarefa da gincana diária. Cruzinha vermelha no ‘falar-me`. Leitura do jornal adiada. Obedece quem tem juízo.
Ao entrar no ‘santuário’, o homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira, divisa ninguém menos que o patrão, que sempre fora um pai para os empregados. Está, como de hábito, colérico. Nada de anormal. Não há maneira mais fácil de criar um ambiente amistoso de cooperação para o sucesso comum. O patrão, que sempre fora um pai para os empregados, era, no fundo, no fundo, uma excelente pessoa e não apenas no trato com o filho.
O homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira, e o patrão, que sempre fora um pai para os empregados, eram velhos amigos e, em nome dessa amizade, este muitas vezes cruzava a fronteira das boas maneiras, tratamento que, democraticamente, era proporcionado a todas as pessoas cuja única virtude, ao menos no conceito do patrão, que sempre fora um pai para os empregados, era usar o crachá da empresa. Uso que dava direito a todos os deveres...
– Bom dia.
– Só se for na sua opinião, Teco. Na intimidade, o patrão, que sempre fora um pai para os empregados, reservava esse tratamento para o homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira. A recíproca só funcionava raramente, ocasião em que o homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira, chamava o patrão, que sempre fora um pai para os empregados, de Binho. Não era o caso.
– Então?
O patrão, que sempre fora um pai para os empregados, emite um suspiro, executa um solo de piano para a mão esquerda em cima da capa de um livro fechado e rosna.
– Vamos ter fiscalização.
– Como sabe?
– Foi o Zé da contabilidade que soube e acaba de me alertar. Ele tem as fontes dele. Fico sempre uma pilha, quando isso acontece.
O homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira, aquiesce. A empresa fora autuada uma única vez nos seus dezesseis anos de atividade, porque o Zé da contabilidade deixou as próprias férias se acumularem e se esqueceu de tirá-las no papel. .. Para o patrão, que sempre fora um pai para os empregados, não é concebível que a empresa possa cometer qualquer deslize. Todos sabem disso. Mesmo assim, uma fiscalização aumenta a adrenalina até no fluxo sanguíneo de um faquir, com mais razão no do patrão, que sempre fora um pai para os empregados.
– Teco, está tudo em ordem? Desta vez será do ICMS. Nada de esquisito, de irregular, de criativo? A pergunta encerra em si a rejeição de qualquer outra resposta a não ser: ´´Tudo em ordem``.
– Claro que não. Tudo em ordem. – A resposta aguardada não se fez esperar. – O Zé da contabilidade jamais falha. Está tudo em ordem. – A chegada da única resposta aceitável precedida por desnecessário intróito, desanuvia por instantes o ambiente. Apesar da fidelidade canina, há no entanto um quê de revolta do homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira, ante a suspeita insinuada de algo não estar em ordem. Amizade e dedicação, para usar a ordem alfabética, parecem ter sido momentaneamente esquecidas pelo patrão, que sempre fora um pai para os empregados.
– É melhor que continue assim.Você verifica periodicamente tudo, conforme combinado?
– Binho... – por um instante, o homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira, deixa de lado o tratamento normal – Estou sentindo cheiro de fumaça. Mal termina essa frase banal, e o filho do dono entra correndo. Ante a contrariedade mal disfarçada que o acolhe, brada:
– Fogo! Eis que o filho do dono mostra sua utilidade, desempenhando a contento o papel de detector de fumaça. Longas noitadas não afetam qualidades intrínsecas. (Como queríamos demonstrar.)
– Mobilize a brigada de incêndio imediatamente. Fazemos esse treinamento bobo duas vezes por ano e agora, quando preciso, você vem falar comigo? – brada o patrão, que sempre fora um pai para os empregados, objetivo como Napoleão ao desembarcar da ilha de Elba.
– Já chamei, pai. Mandei chamar os bombeiros.
– Nada de elevador, vamos descer pela escada. E, dando o exemplo, tão necessário em situações agudas, o patrão, que sempre fora um pai para os empregados, sai num passo que poderia ser chamado de corrida, qualquer que fosse o parâmetro de avaliação. O homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira, segue-o a uma distância, menos ditada pelo respeito e mais pela diferença de preparo físico. Entre os dois, o filho do dono, tentando demonstrar que o medo encurta a distância entre dois pontos, mesmo se o trajeto for ondulante. Ao chegar à recepção, encontram todos os funcionários e uma grossa nuvem de fumaça vinda de algum andar inferior.
– Pegou fogo no quinto andar, anunciou Marilu, a sempre fascinante, rosto pálido e decote agitado.
– Sim, mas foi há menos de dois minutos. E essas portas ‘corta fogo’ não cortam nada – vem um comentário aflito e anônimo.
– Zé, larga essas listagens!– O grito parte do filho do dono, objetivo como todo príncipe herdeiro, e se dirige ao zeloso funcionário. – Está tudo no computador.
O jeito é subir, já que a descida se tornou impraticável. Todos seguem o patrão, que sempre fora um pai para os empregados. Na escada um corre-corre danado. Juntam-se a um monte de gente desesperada. Uma gritaria insuportável, que ninguém poderia controlar. O homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira, reconhece os dois senhores de semblante soturno subindo com menos pressa, o que permite a ultrapassagem. A solução é procurar alcançar o topo do edifício, dotado de um providencial heliporto.
As chamas progridem céleres, lambem o prédio. A fumaça já está sufocante. Embaixo, ajuntamento de pessoas. Sirene de bombeiros, jatos de água impotentes para debelar a fogueira. O homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira, procura ficar calmo. Ele vê primeiro a chegada do helicóptero e coordena uma espécie de fila. Tem de controlar a massa apavorada. A voz possante do homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira, domina a barulheira e impõe respeito.
– Calma, porra, ou morremos todos.
Chega um segundo helicóptero, que se afasta, levando a bordo o patrão, que sempre fora um pai para os empregados, logo depois, um terceiro, ou será o primeiro já de volta? Um tripulante joga água em cima da massa enlouquecida. Chega a vez de Marilu, a sempre fascinante, subir. Pela primeira vez, o homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira, realiza um sonho antigo. Está com ela nos braços e a ajuda. Doce sensação. Aquele corpo viçoso e vibrante, presa voluntária do abraço salvador. No desespero, ela lhe enlaça o pescoço. Não era assim que ele desejaria, mas que delícia. ‘À la guerre comme á la guerre’, murmura o poliglota. Um empurrão para cima, logo ali onde as costas mudam de razão social e Marilu, a sempre fascinante, está salva. Sobra pouca gente. O calor das chamas torna-se infernal. O helicóptero demora. Enfim, aparece. Sobem os últimos. Há lugar para todos? Não. O piloto grita: ´ Desce um, se não, essa merda despenca. O outro já está chegando’. Rosto suado e sujo de fuligem, o homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira, resolve descer. Sempre calmo, mantém-se assim... Esse sangue-frio evitou atropelos, brigas, até coisas piores. Resta-lhe agora acenar para os outros, impávido comandante de nau indo a pique. Do helicóptero, braços se agitam em sua direção. Os bombeiros não conseguem chegar até o topo. Jogam água. Bendito refresco! O vento projeta as chamas na direção do homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta-feira. Ele corre. Depara-se com uma muralha de fogo pela frente. Recua. Barulho de helicóptero chegando. Até que enfim.
As chamas erguem-se muitos metros acima do edifício... Atiram uma escada do helicóptero, mas impossível alcançá-la. O aparelho não pode descer mais. Manuais escolares explicam claramente por qual motivo. O remanescente no topo do edifício inteligente analisa a situação. A decisão não pode demorar. Então, sorrindo só de pensar que, se houver qualquer erro na contabilidade, ele estará queimando junto com os computadores e , portanto, o patrão, que sempre fora um pai para os empregados, nada terá a lhe imputar, o homem de paletó xadrez, calça creme e camisa esporte, por ser sexta feira aproxima-se do parapeito e projeta-se no espaço, com a sensação do delicioso contato com o corpo de Marilu, a sempre fascinante em mente. Lá embaixo, a lona estendida pelos bombeiros. Aposta arriscada ou atalho para a eternidade?


Biografia:
Alexandru Solomon, empresário, escritor, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas` e ´O Desmonte de Vênus`. (Ed. Totalidade).| E-mail: asolo@alexandru.com.br

Este texto é administrado por: Celso Fernandes
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