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A Descendência dos Cachorros
Matheus Moreira Morigoni

Resumo:
Uma alegoria nipônica sobre família, sonhos, e a direção que tomamos na vida. Inspirado pelo Livro dos Cinco Anéis, escrito por Miyamoto Musashi, Matheus Morigoni tenta trazer os ensinamentos filosóficos do bushido, seguidos pelos samurais, na nossa realidade atual.

Kuro era mais um cachorro samurai com ascendência de uma família histórica. Seu pai, Guree, fora responsável por lhe ensinar os caminhos e virtudes necessárias, tanto para um cachorro, como para um guerreiro. Agora, o cão escuro, acompanhado de sua katana, fitava sua montanha, uma não tão metafórica assim.

Havia tentado a escalar muitas vezes, mas sempre se desvirtuava do caminho, muitas vezes, por não agradar os métodos de seu pai. Era comum lembrar de frases que marcaram seu crescimento “não o faça de tal forma, esse é o verdadeiro caminho”, assim, acabava retrocedendo, a fim de honrar a memória de seu falecido progenitor.

Seu pai, seu avô, seu bisavô, e todos os cachorros da descendência, haviam escalado aquela mesma montanha nos passados remotos. Kuro gostaria que seu pai pudesse vê-lo concluir a missão, mas não era mais momento para se pensar. Partiu em direção do inimigo, um colosso de neve e gelo.

O gigante não era dotado apenas de frieza, mas também de certa morbidez. O caminho lhe dizia para não temer o inimigo, mas sim, respeita-lo, porém, a cada passo dado, Kuro questionava suas funções como um seguidor da lâmina. Quando finalmente colocou as patas no ponto inicial, determinava a própria lei: Sucesso, ou morte.

Cortava a neve com seu corpo robusto, não havia inclinação passível de lhe parar ou deslizamento suficientemente mortal para abalar seu foco. Não mais regrediria, não mais. Olhava para as raras cavernas onde podia parar e descansar, porém, não pararia até seu objetivo ser concluído. A terra lhe pertenceria, como havia pertencido àqueles que lhe deram existência. Se o sol não tocava o cume, Kuro o faria por ele.

Finalmente, havia chegado ao seu recorde. O ponto mais alto onde havia alcançado da última vez. Havia desistido muito, mas estava vivo, pensava enquanto desonrava a si próprio. Não há vida na desonra. A antiga fogueira ainda estava lá, apagada. Kuro sentou-se, acendeu a fogueira, e rogou pelo bem-estar de todos os cachorros que estiveram ali antes dele. Era possível sentir a companhia de Kami... Os espíritos confirmavam, sua hora era agora. Levantara, partindo em direção a última parte do oponente.

Esse pedaço da montanha era um verdadeiro labirinto. Escalar por fora significava congelar, por dentro, perder-se num escuro abismo de dúvida: Onde estou? Kuro, na sua abundância de juventude, demonstrava falta de sabedoria. Adentrou as entranhas do gigante, e lá, habitou por longas horas.

As pernas latejantes, as patas doloridas, o focinho congelado e o pesar de sua fiel companheira na bainha, tudo isso somava zero quando posto em relação da desonra. Kuro não poderia falhar novamente. Já havia passado a considerar a desistência definitiva do suicídio, entretanto, nos últimos momentos de esperança, sentiu o vento soprar, vinha de seu noroeste. Seguiu as lufadas de vento como um navio seguia o farol.

Para a próprio surpresa, não encontrou um rochedo, mas sim luz, verdadeira luz. Havia completado o trajeto interno e agora, estava mais perto do que nunca. Os passos leves não demonstravam mais cuidado, demonstravam cansaço. Uma pequena parcela de terra o separava do cume, e quando finalmente se encontrava a alguns passos do objetivo, ouviu um latido.

–– Kuro... Você demorou, e olha, devo dizer que de todos, é o meu favorito. – Espantado, Kuro se virou, fitando um cachorro que lembrava a si mesmo. Sua pelugem era clara, detalhes brancos, corpo robusto, focinho afinado, a idade era clara em sua feição.

–– Não acredito que todos vocês continuaram fazendo isso ao longo dos séculos... Quando subi aqui pela primeira vez, queria apenas aproveitar a vista. A montanha não era gelada, era apenas um passeio convencional, sabe?

–– Quem é você, e como subiu aqui? Responda rápido, ou saia de meu caminho. – Era incisivo na sua fala, mais afiado que o fio de sua espada.

–– Eu sou o primeiro, Kuro. Vim muito antes de você, muito mesmo. Meu nome é Kazuo. De todos que me sucederam na linhagem, devo admitir, você é o que mais me surpreende.

–– Está me dizendo que você está vivo, aqui em cima, desde o princípio? Espera que eu acredite nisso?

–– Não estou vivo, Kuro. Seja racional. Você rogou por mim, lembra? Como progenitor inicial, acompanhei toda minha ascendência, desde seu nascimento, eu estive contigo. Da mesma forma que estive com seu pai, seu avô, o avô dele, sucessivamente, até meu filho.

–– Nós somos família, então.

–– Sim, nós somos.

–– O que significa que sua manifestação só pode ser resultado de uma coisa, você deseja me passar uma mensagem.

–– Você nunca foi dos mais sábios. Mas... Sim, você está certo.

–– Fale logo, estou próximo de terminar o que vim fazer.

–– Você quer mesmo escalar a montanha?

–– Como assim? Eu já escalei.

–– Repito a pergunta. Você quer mesmo escalar a montanha?

–– Claro que quero! Foi o que você fez, seu filho, o filho dele, e consequentemente, eu fiz!

–– Entenda, minha escalada representava algo que nem mesmo meu filho entendia. Vocês desvirtuaram meu gosto por esse lugar. Se tornou obscuro, solitário.

–– Não fale bobagens. Todos os que vieram depois de você foram guerreiros fenomenais. Sábios da conduta, da arte, e da estratégia.

–– Mas nenhum deles foi feliz, Kuro. Achas que não percebo? Você não quer ser que nem seu pai... Mas acredita que está fadado a repetir os mesmos erros que ele. Sei de sua vida, seus sentimentos. Eu estou contigo o tempo todo.

–– Você está me testando, sei disso... Você não quer que eu termine. Quer me desonrar.

–– Cale a boca, criança. Nem mesmo sabe soletrar essa palavra. – Kazuo se aproximou de Kuro, desembainhava sua espada. Kuro não havia percebido que o fantasma também carregava uma.

–– Não lutarei com meu antecessor.

–– Você não ganharia de mim nem com três vidas de treinamento, Kuro. Por isso estou aqui... Acredite em mim, não é isso que você quer. Estou dizendo isso para ti, e não para seu pai, pois sei que você é o último dos nossos. Isso se você subir o resto da montanha.

–– Como assim!?

–– Estou dizendo... Estou dentro de você, isso me permite... Adivinhar algumas coisas. Siga seu coração antes de seguir qualquer filosofia.

–– Isso induz ao erro.

–– E o erro induz a melhora.

Kuro desembainhou sua katana. Parecia ter ganhado um vigor supremo, nunca sentido antes.

–– Então lutaremos, Kazuo.

–– Não, não lutaremos. Aqui, pegue. – Kazuo entregou sua katana para o jovem cachorro, o mesmo, agora visualizava uma montanha esverdeada. O sol tocava toda sua totalidade. As árvores em harmonia com os pássaros que as habitavam, entoavam uma música contrária a morbidez da gigantesca massa de gelo.

–– Todos esses anos, pais e filhos devotando-se a algo que eles nem entendem. Meu sonho era construir uma casinha aqui no topo. Tive meu filho, e amava muito minha esposa... Mas... Eu acabei morrendo muito cedo. Meu filho cresceu sem uma imagem paterna, e a casinha nunca foi construída, dessa forma, ele se tornou obcecado com meu caminho, sem nem mesmo tê-lo aprendido. Sabia do meu gosto por esse lugar, então, provou-se sábio escalando-a. Meu neto fez o mesmo, e agora... Você o faz.

–– Está me dizendo que... Tudo o que meus antepassados viveram foi uma mentira?

–– Foi uma inverdade.

–– Você permitiu que eles vivessem em tamanha angústia? Como pode!?

–– Tentei falar com meu filho. Fui ignorado. Tentei falar com seu neto, e depois, com o bisneto dele. Uma hora eu apenas desisti... Guardei todos meus esforços para você, Kuro.

A resposta foi o silêncio.

–– Você não vai subir, vai?


–– Não, eu não vou. O seppuku é meu caminho.

–– Não concordo, e adiciono, isso desonra a mim antes de ti.

–– Como?

–– Eu disse... Nenhum de vocês conheceu o caminho, o verdadeiro caminho, aquele que eu gostaria de ter ensinado. Vocês também não aprenderam sozinhos, já que estavam obcecados com... Isso. – Kazuo olhava para o chão gelado.

–– E agora? Eu apenas... Volto?

–– Agora você começa a viver, Kuro.

–– COMO POSSO O FAZER SEM MEU CAMINHO?

A resposta, novamente, foi o silêncio. Kuro agora estava sozinho, e por muito tempo ficou, mesmo sabendo que estava acompanhado de Kazuo. Os anos passavam, e a abundância de juventude se tornava escassez. Kuro utilizou do tempo para plantar sua sabedoria, e com ela, a maior de todas veio: o amor.

Kuro se apaixonou, teve uma linda filha, e após alguns anos, retornou em direção ao gigante. Não mais mórbido, o gelo havia derretido. No topo, construíra uma casinha, em seu quintal, um túmulo para cada antepassado, ao lado daquele que um dia seria seu destino. Morreu feliz, deixando uma filha capaz de fazer suas próprias escolhas e escalar as próprias montanhas.                                          


Biografia:
Matheus Morigoni tem 18 anos, recém formou-se no Ensino Médio e como todo bom paulista não coloca uva-passa no cachorro-quente. Atualmente administra a página Mata Ego no Facebook (https://www.facebook.com/olhosencharcados/), onde busca construir um ambiente propício para todos os praticantes dos mais diversos suportes artísticos, ao mesmo tempo que divulga seu trabalho. Transpira poesia ainda que autor de prosas e quando não escrevendo, leva uma vida comum de adolescente da Geração Z.
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