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O MENINO QUE VESTIA COR DE ROSA
FLAVIO ALVES DA SILVA

Resumo:
Zezé é um menino que sofre preconceito na escola, por gostar de vestir cor de rosa. Um drama infantil, onde o Zezé é perseguido pela turma do Juquinha. Um texto escrito para reflexão, que o preconceito além de ser uma agressão aos direitos, também é um crime.

O MENINO QUE VESTIA COR DE ROSA

Texto – Flavio Alves

ELENCO

Zezé – Seu Miguel – Dona Natalina
Juquinha – Rafael – Vivi – Leninha
Diretora Rosalina.


Zezé é um menino, que sempre gostou de brincar com brinquedos de meninas, e adora vestir cor de rosa. Isso causa um conflito em família. Zezé, como muitos garotos na sociedade, sofre preconceito pelo seu jeito de ser. O cenário é uma praça. Zezé está sentado em um banco, vestido de rosa, conversando com sua boneca Safira, quando uma voz debocha dele.

VOZ – Mas olha só que vergonha! Um menino vestido de rosa e brincando de boneca. Se fosse meu filho, ele ia ver o que eu seria capaz de fazer.

ZEZÉ – Ainda bem que não sou seu filho, e se eu fosse, eu teria vergonha. Vá cuidar da sua vida e deixe a minha vida em paz. Tá vendo Safira? Até na rua o povo quer mandar na minha vida. Já não basta na escola, que tenho que enfrentar a turma do Juquinha. Olha aqui Safira, o que fizeram comigo. Estou com machucado no braço e o joelho tá ralado também. Eu sai da escola e segui por outro caminho, mas eles me seguiram gritando, e me chamando de mulherzinha. Eu tenho culpa safira, se eu gosto de brincar com você? Não gosto dessas brincadeiras dos meninos, acho umas brincadeiras muito chatas. Prefiro ficar aqui na praça, brincando com você. Ai, ai, ai, meu joelho ralado tá doendo e meu braço também. Eu corri da turma do Juquinha, aí caí e me machuquei. Eles ficaram sorrindo, me xingando e saíram correndo. Não disse nada a minha mãe, pra ela não ir na minha escola falar com a diretora. (Entra, Vivi e Leninha).

VIVI – Êita Zezé! Nem esperou pela gente. Veio pra praça sozinho.

LENINHA – Tá vendo Vivi! Eu bem que falei pra você que o Zezé não era nosso amigo. Eu acho melhor a gente ficar de mal dele. (mostra o dedo cruzado pra Zezé) Pode cortar.

ZEZÉ – Oxe! Que agonia! Pra que tudo isso?

VIVI – Tudo isso não. A Leninha tá certa. Pode cortar também. (Mostra o dedo cruzado para Zezé).

ZEZÉ – Será que eu posso explicar?

LENINHA – Espero que tenha uma boa explicação.

ZEZÉ – Vivi, Leninha, vocês acreditem em mim. Eu não chamei vocês porque eu fui perseguido pela turma do Juquinha. Olha como eu estou, todo machucado. Por causa deles eu cai e ralei o joelho e o braço, e eles correram rindo de mim. Peguei safira e vim aqui pra praça. Estou pensando o que vou dizer a minha mãe quando ela ver meu braço e meu joelho machucado.

VIVI – Ah, Zezé! Desculpa a agente. A gente não sabia. Eu odeio aquela turma do Juquinha.

LENINHA – Eu também. Se eu pudesse, eu dava uma surra naqueles pirralhos.

ZEZÉ – Eu não sei brigar, e não gosto de violência e a única defesa que eu tenho, é correr. Meu Deus! E agora, o que vou dizer a minha mãe?

VIVI – A verdade Zezé, a verdade. Sua mãe tem que saber e fazer alguma coisa. O que não pode é você viver sendo perseguido pela turma do Juquinha.

LENINHA – Pegue seu telefone agora e ligue pra dona Natalina, e diga a sua mãe que você tá com a gente aqui na praça, e já, já, você chega em casa.

VIVI – Liga Zezé. Cadê o seu telefone.

ZEZÉ – Minha mãe tirou de mim por uma semana. Eu estava dormindo muito tarde jogando meus joguinhos, e acordava já pensando no celular.

LENINHA – Eu acho é bom, seu Zezé. Eu mesma não sou uma bestona, que vive a vida só pendurada no celular. A gente tem a escola, e temos que fazer as tarefas de casa. Tem crianças que ficam até sem comer, e isso não pode acontecer.

VIVI – Eu nem posso falar, porque eu passei um tempo viciada, mas graças a Deus me livrei do celular. Era toda hora, todo instante. E uma criança inteligente não pode deixar o celular dominar a sua vida. Sua mãe tá certa, Zezé. Não seja essas crianças abestalhadas e sem limites.

ZEZÉ – Tá bem, minhas amigas. Eu prometo usar meu celular de uma forma adequada, assim como vocês.

LENINHA – Gente, olha só aquele homem. Jogou o papel, e o palito do picolé no chão. Uma lixeira bem ao lado dele. Parece um porco. Que falta de educação!

VIVI – Se ele faz isso na rua, a casa dele deve ser um chiqueiro. Deixa pra lá, depois a gente pega e bota no coletor de lixo.

LENINHA – Mas mudando de assunto. Onde sua mãe comprou essa roupa pra você? Tá lindo!

ZEZÉ – Não foi minha mãe. Eu peguei as minhas economias da mesada, fui na loja e comprei. Mas na hora de provar, percebi que tinha pessoas olhando pra mim e rindo, e até cochichando, mas eu não dei atenção. Afinal o dinheiro era de quem?

VIVI – Um povo besta e cheio de preconceitos. Grande coisa um garoto não poder usar cor de rosa. Cada um usa o que quiser. Eu mesma estou usando roupa azul, e daí? É cor de menino é? Eu uso. Não tinha nada indicando que roupa azul era pra menino e cor de rosa para menina.

LENINHA – A Vivi tem toda razão. Cada um usa a cor que quiser. Olha aí, sua boneca Zezé, Safira é uma menina, e tá vestida de azul.

ZEZÉ – Safira gosta muito de azul e ela não é um menino. Vamos brincar de pular corda?

VIVI – Boa ideia Zezé! Vamos, mas cadê a corda.

ZEZÉ – Tá em casa, preciso ir pegar. Quem vai comigo? Lá eu digo a minha mãe que estou brincando com vocês, pra ela não ficar preocupada,

LENINHA – Tá bem Zezé, eu vou com você.

VIVI – E eu vou também com vocês. (Saem. Entra Juquinha e Rafael).

RAFAEL – Não sei Juquinha, se essa ideia seria correto. Será que a gente não tá pegando pesado com o Zezé?

JUQUINHA – Já vem você, não é seu frouxo. Se não quiser participar da minha turma, é só cair fora. Por que você não vai brincar com a mulherzinha de cor de rosa?

RAFAEL – Pare com isso, viu seu Juquinha! Eu só estou dizendo que essa ideia de sujar a roupa do Zezé de cocô, vai dar confusão.

JUQUINHA – Não vai dar confusão coisa nenhuma. Isso é só uma brincadeira.

RAFAEL – Eu não concordo. Brincadeira é quando a outra pessoa brinca também. E porque as outras pessoas do grupo não participam, e só sobrou pra eu e você?

JUQUINHA – Porque os outros já estão indicados para cumprirem outras tarefas.

RAFAEL – Oxe! E ainda tem mais coisas?

JUQUINHA – (Rindo) Você ainda não viu nada. Eu só fico sossegado quando eu ver aquela mulherzinha usar roupas de homem. Meu pai e minha mãe sempre disse que, rosa é cor para mulher e azul é cor para homem.

RAFAEL – Mas se ele gosta de se vestir desse jeito, o problema é dele, não é nosso.
JUQUINHA – (Zangado) Quer saber de uma coisa. Deixa que eu faço isso sozinho. Você seu Rafael, é um cara molenga. Vou falar com o grupo pra deixar você de fora, e quando for na hora do jogo, você não joga bola no time da gente.

RAFAEL – E por acaso eu disse que não ia fazer? Eu não quero ficar de fora e vou fazer junto com você. Mas como vai ser?

JUQUINHA – Presta atenção. Eu e você faz xixi e cocô, e mistura, botando dentro de uma garrafa pet.

RAFAEL – Eca, que nojeira!

JUQUINHA – É nojento, mas a gente tem que fazer. No final vai ser divertido. Quando ele tiver com a roupa rosa toda suja de cocô, a gente faz um vídeo e bota na internet.

RAFAEL – Meu Deus! Ainda vai botar na internet? Minha mãe e meu pai não vão gostar dessa brincadeira.

JUQUINHA – Seu idiota, seu pai e sua mãe não vão participar. Isso é uma brincadeira nossa. E se você não quiser, é só cair fora. Mas depois não queremos você jogando no nosso time.

RAFAEL – Tá bom, tudo bem. E quando a gente vai fazer isso?

JUQUINHA – A gente vai ficar aguardando um momento, em que ele tiver brincando com as amiguinhas Vivi e Leninha. Aí a gente pega as garrafas pets e suja ele todinho, e a boneca dele também. Ai a gente filma e sai correndo pra casa, pra botar na internet.

RAFAEL – Meu Deus! E depois o que vai acontecer?

JUQUINHA – Se não quiser, pode ficar de fora, eu já falei.

RAFAEL – Não, eu vou. Mas acho que não precisava botar na internet.

JUQUINHA – Deixa de ser um bobão. Precisa botar na internet sim. Agora vamos. (Eles saem. Entra seu Miguel e dona Natalina)

SEU MIGUEL – Eu não sei o que foi que eu fiz, meu Deus! Qual foi o meu pecado?

DONA NATALINA – Para com isso Miguel! Que pecado que nada. Ninguém vem ao mundo escolhendo como quer nascer. Já imaginou antes de nascer, conversar com Deus e dizer, Deus quando eu nascer, eu quero usar só cor de rosa. Então Deus responde. Mas você vai sofrer preconceito, e a pessoa diz, mas a escolha é minha e eu quero usar cor de rosa.

SEU MIGUEL – É verdade, ninguém escolhe o que quer ser. Deus é quem escolhe, e só ele sabe o porquê. Você tem razão. Qual o idiota que gostaria de sofrer bulling ou discriminação por ter escolhido vestir cor de rosa? O meu medo é a maldade que pode acontecer com o nosso filho, Você viu quando ele chegou com o braço e o joelho ferido? Ele diz que foi uma queda, mas na verdade eu acho que essa queda, foi porque ele estava correndo de alguém. Será que tem alguma criança aqui, sabendo o que realmente aconteceu? (Algumas crianças irão interagir contando como o Zezé se machucou).

DONA NATALINA – Muitas crianças estão sabendo, e o nosso defeito é ficar em casa, e nunca ir procurar saber o que acontece na escola. Eu já tentei várias vezes botar roupas de outras cores, sem ser cor de rosa, mas o Zezé não aceita.

SEU MIGUEL – Sabe o que foi que meu pai falou?

DONA NATALINA – O que foi?

SEU MIGUEL – Que se fosse filho dele, ele dava uma surra e acabava com essa palhaçada.

DONA NATALINA – Você não tá nem doido, pensar numa coisa dessa. Olha o seu caso e dos seus irmãos, todos marcados nas costas por cicatrizes. Não é batendo que se resolve as coisas. Nós temos que aceitar nosso filho como ele é, independentemente dessa sociedade escrota.

SEU MIGUEL – Não. Deus me livre eu fazer com o Zezé, o que meu pai fez comigo. E emquanto vida eu tiver, eu vou defender meu filho. Eu acho que a gente devia levar e trazer o Zezé todos os dias na escola.

DONA NATALINA – Eu acho que não, e sei que ele não ia gostar que a gente levasse ele na escola. A verdade é que ele tem que aprender e lidar com a situação. A gente pede pra ele vestir outra cor, pra evitar bulling e discriminação, mas ele não aceita, não nos obedece. Sendo assim, ele tem que enfrentar as consequências. E quando tiver adulto a gente vai ter que controlar as suas atitudes?

SEU MIGUEL – Você tá certa. Vamos pra casa, e depois a gente vai até à escola saber o que realmente aconteceu com o Zezé. É fácil saber, é só sair perguntando a outros alunos, se viram o Zezé cair e se arranhar. (Sai Miguel e Natalina, entra Zezé, Vivi e Leninha).

LENINHA – Pronto, gente. O dia vai ser só nosso. Já fomos à escola, já fizemos nossas tarefas de casa, e agora é só brincar.

VIVI – Mas vamos brincar primeiro de quê?

ZEZÉ – A tarde é muito longa e a gente pode brincar de tudo que a gente quiser.
Por que a gente não começa brincando de boneca? Depois a gente brinca de outras coisas.

LENINHA – Mas é porque eu esqueci a minha boneca.

VIVI – E eu esqueci também, mas a gente pode brincar de pular corda, ou amarelinha. Eu tenho uma corda.

ZEZÉ – Vocês são fogo, esqueceram justamente as bonecas. Eu adoro brincar de bonecas, mas já que vocês esqueceram, a gente pode brincar de amarelinha.

LENINHA – Êita Zezé! Você teve uma boa ideia. Faz tempo que não brinco de amarelinha. Então deixa que eu vou riscar a amarelinha (Ela risca no chão). Mas já vou dizendo logo, eu vou ser a primeira.

ZEZÉ – Não, o primeiro sou eu.

VIVI – Nada disso, a primeira sou eu.

ZEZÉ – Ah! Deixa eu ir primeiro.

LENINHA – Nada disso, primeiro as mulheres.

ZEZÉ – Engraçado, vocês mulheres, só falam em direitos iguais, mas qualquer coisa vai logo dizendo. Primeiro as Mulheres. E onde fica a igualdade no nisso?

LENINHA – Eu não sei, mas hoje eu vou ser a primeira.

VIVI – Tá bom, por mim tá tudo bem.

ZEZÉ – É, por mim também. Pode começar Leninha. (Vão brincando e conversando).

LENINHA – Eu só espero que aqueles meninos chatos, não apareçam aqui, pra infernizar a gente.

VIVI – Aqueles meninos da turma do Juquinha, são umas peste. Eles mexem todo mundo. E o alvo deles, é você Zezé.

ZEZÉ – É porque eu não sei brigar, se não, eu quebrava a cara dele.

LENINHA – E o pior de todos é o chefão, o Juquinha, ele que arma os planos pra infernizar a vida dos outros.

VIVI – Eu tenho pena do Rafael, um menino tão bom, mas vive andando com esses maloqueiros. Acho que a mãe dele nem sabe.

ZEZÉ – É mesmo, ele só acompanha a turma do Juquinha, pra não ser também humilhado. Eu queria um dia conversar com ele, pra ele ser meu amigo.

LENINHA – Nem espere por esse dia, que ele não vai ser seu amigo nunca. Se ele inventar de ser seu amigo, a turma do Juquinha vai tirar onda com a cara dele, dizendo que ele é mulherzinha também.

VIVI – Sabe que a Leninha tem razão. É isso mesmo, é melhor ficar bem longe deles, e brincar com a gente, que somos suas amigas de verdade. (Distante, Juquinha e Rafael estão conversando baixinho, planejando como abordar e sujar Zezé).

JUQUINHA – Tá vendo? A mulherzinha tá brincando com as meninas. Quando eu disser já, a gente corre e derrama cocô sobre ele. Mas muito cuidado pra não sujar as meninas, é pra sujar só o Zezé.

RAFAEL – Meu Deus! Será que isso não vai dar problema, Juquinha? Vamos inventar outra coisa, isso é muito pesado. Sujar o Zezé de cocô isso vai dar o maior problema.

JUQUINHA – Sai, sai, sai, seu molenga. Ninguém tá mandando você fazer nada não, você faz se quiser. E se quiser pegar o beco, o caminho é logo ali. Vai.

RAFAEL – Não, eu já estou aqui, agora eu vou. Mas fique você sabendo, se você não deixar eu jogar no time, você vai ver.

JUQUINHA – Vai ver o quê? Vai ver o quê? Vai me encarar é? Eu não já disse que você faz parte do time?

RAFAEL – Não, eu não vou encarar você, não. E sendo assim tá tudo bem.

JUQUINHA – Pronto, Tive uma ideia melhor. Não precisa você melar ninguém. Eu vou sozinho e faço o serviço. Agora você pega seu celular e filma tudinho, pra a gente botar na internet. Tá bom assim?

RAFAEL – Agora tá bom. Deixa comigo que eu filmo tudinho.

VIVI – Seria melhor a gente brincar de outra coisa. Vamos brincar de pular corda?

LENINHA – Então, você e Zezé balançam a corda, e eu pulo.

VIVI – Não, primeiro quem pula sou eu.

ZEZÉ – Você é muito chata, Vivi, Tudo você tem que ser a primeira. Quem vai morrer primeiro, eu ou você?

VIVI – Você.

LENINHA – E por que você não quer morrer primeiro que o Zezé? Tudo você não tem que ser a primeira?

VIVI – Tá bem, seus chatos. Eu balanço a corda.

ZEZÉ – Eu balanço também, e você pula, Leninha. (Quando eles estão brincando, Juquinha se aproxima e suja o Zezé, enquanto Rafael fica filmando).

JUQUINHA – Pronto, agora eu vou devagarinho e você fica filmando.

RAFAEL – Ok. Vai lá, que eu filmo. (Juquinha se aproxima e joga cocô na cabeça de Zezé).

JUQUINHA – Toma aí sua mulherzinha. Aprende a ser homem, isso é brincadeira de menina. Tenha vergonha na cara.

ZEZÉ – Sai, sai, não faz isso. Me deixa em paz.

LENINHA – Eca! Que horror! Deixa ele Juquinha. E você faça alguma coisa Rafael.

VIVI – Sai daqui, sai. Eu vou contar tudinho pra sua mãe, seu Juquinha. Você vai se lascar. E você também seu Rafael. Para de filmar.

JUQUINHA – Pare não Rafael. Filme, que a gente vai botar nas redes sociais.

ZEZÉ – Nas redes sociais não, por favor, nas redes sociais não. (Zezé descontroladamente chora, e os meninos saem sorrindo).

LENINHA – Calma Juquinha! Vamos pra casa. Você toma um banho se perfuma e vai ficar tudo bem.

ZEZÉ – Não, pra casa eu não vou não. Minha mãe vai reclamar porque eu estava brincando na rua, e vai querer ir na escola falar com a diretora.

VIVI – Então vamos fazer o seguinte. Zezé vamos pra minha casa. Eu estou sozinha. Papai e mamãe, só vão chegar lá pra de noite. É o tempo que você toma um banho, enquanto eu lavo a sua roupa e boto pra enxugar.

ZEZÉ – Mas eu não tenho o que vestir.

VIVI – Eu te dou uma roupa minha e você só fica esperando a sua roupa enxugar. Mas não é roupa cor de rosa. Vamos? (Eles saem. Entra Juquinha e Rafael).

JUQUINHA – Êita! Não vejo a hora, de ver esse vídeo nas redes sociais.

RAFAEL – Vamos botar também nos grupos de Whatsapp?

JUQUINHA – Vamos botar em tudo que a gente tiver direito. Pega o celular e vamos botar agora. Vamos sentar naquele banco.

RAFAEL – Ali eu não vou não, Tá doido é? Ali só fede a cocô. Melhor aqui mesmo.

JUQUINHA – Queria só ver a cara da mulherzinha vestido de cor de rosa, quando chegasse em casa. Queria ver só.

RAFAEL – Será que o pai e a mãe dele, não vão lá na escola, fazer reclamação?

JUQUINHA – Vão nada! Eles não vão pra não expor o filhinho deles.

RAFAEL – Juquinha, a gente já sujou o Zezé de cocô. Você não acha que já tá bom, e é melhor a gente esquecer esse negócio de botar na internet?

JUQUINHA – Tá bom coisa nenhuma. Agora que a brincadeira vai ficar boa. Deixa de falar e vamos começar botando no meu canal do Youtube, depois botamos no Tic Toc e nos grupos de Whatsapp.

RAFAEL – O melhor horário para colocar vídeos, dizem que é de noite.

JUQUINHA – Isso é mentira. Qualquer horário é horário, basta o vídeo ser bom, e o nosso, tenho certeza que vai bombar, você vai ver.

RAFAEL – Eu também estou achando que vai ter muitos comentários e bastante likes. E qual o título do vídeo pra chamar a atenção?

JUQUINHA – Não tem a música, a cabeleira do Zezé?

RAFAEL – Tem sim, mas o que isso tem a ver?

JUQUINHA – A gente bota o título do vídeo. O banho de merda do Zezé. (Eles riem).

RAFAEL – Juquinha, só que tem um problema. A gente tem que ir pra tua casa. O celular está com a bateria muito baixa e vai descarregar.

JUQUINHA – Não tem problema. Então a gente faz a edição do vídeo e publica lá em casa. Vamos lá.

RAFAEL – Vamos sim. (Eles saem, entra Dona Natalina e a Diretora)

DONA NATALINA – Como eu vinha falando, dona Rosalina, é muito difícil ter um filho como o Zezé, porque eu como mãe só quero proteger ele. E muita gente na sociedade tem preconceito. Botaram na cabeça, que menino tem que vestir azul e menina cor de rosa. E eu sempre achei isso um absurdo. O Zezé está com nove anos, já levei ele à psicólogo, mas esse é o jeito dele, e eu não posso ficar repreendendo meu filho. Desde pequenininho que ele sempre adorou a cor rosa, e não foi ninguém que o forçou, e brincar de boneca também. Ele nunca gostou de carrinhos, pipa, pião, bola de gude, nada disso. Muitas vezes meu marido Miguel, comprava brinquedos de menino, mas ele deixava no canto, e inventava as próprias bonecas. E sei que na escola ele vem sofrendo bulling e já foi até agredido fisicamente. A semana passada ele chegou com o joelho e o braço machucado, e sabe o que foi? Correram atrás dele e acabou ele caindo, e chegou todo machucado em casa. E eu acho que a senhora como diretora tem que tomar uma atitude.

DIRETORA ROSALINA – Dona Natalina, eu sei que é muito difícil pra senhora, como também pra mim e os professores, principalmente quando termina as aulas e tem a volta pra casa. Acho que essas briguinhas, geralmente acontecem após o término das aulas. E na rua fica difícil pra todos nós. Dentro da escola, eu não vejo acontecer essas coisas.

DONA NATALINA – Desculpa dona Rosalina. A senhora é diretora e muitas vezes não sabe o que está acontecendo. Quando a senhora fala que o que acontece em relação as agressões ao meu filho, acontece na rua, é como se a senhora dissesse que a partir daquele momento, a escola não tem mais nada a ver. Aí eu discordo, porque a rua é uma extensão da escola. O correto seria pegar esses garotos da turma de um aluno chamado Juquinha, e chamasse os pais dele pra ter uma conversa. Dizem que esse menino junto com a turminha dele, é um verdadeiro terror.

DIRETORA ROSALINA – Essa implicância com o seu filho, é só porque ele só veste cor de rosa. Não daria pra a senhora falar direitinho com o Zezé, pra ele usar somente o uniforme? Veja bem, a senhora sabe que é necessário o uso do uniforme, e ele usa dentro da escola, mas quando termina a aula, imediatamente ele retira o uniforme e já coloca sua roupa cor de rosa pra ir pra casa. Ai os outros garotos ficam implicando com ele. Foi isso que me falaram.

DONA NATALINA – Tá bem diretora. Eu vou falar com o Zezé, pra ele retornar de farda pra casa, pra evitar esses problemas, mas a senhora fique sabendo que o que a escola tem que fazer também, é reunir os pais e falar sobre o comportamento dos filhos. Peço que a senhora chame os pais de Juquinha e tenha uma conversa, porque esse Juquinha é que tá causando tudo isso.

DIRETORA ROSALINA – Tudo bem dona Natalina. Na próxima semana, vou convocar todos os pais, pra a gente debater e resolver este problema.

DONA NATALINA - Obrigada. Desculpa pedir pra a senhora vir conversar comigo aqui na praça. Eu pensei aqui na praça, porque a gente podia ficar mais à vontade, e que também, aqui é o seu caminho. Boa sorte para a senhora.

DIRETORA ROSALINA – Boa sorte pra senhora também. Tchau.

DONA NATALINA – Tchauzinho. (Sai a Diretora Rosalina e entra Seu Miguel)

SEU MIGUEL – E aí querida, falou com a diretora?

DONA NATALINA – Falei, ela saiu daqui agorinha.

SEU MIGUEL – E o que ela resolveu?

DONA NATALINA – Ela disse que ia fazer uma reunião pra semana, com todos os pais, pra resolver esse problema.

SEU MIGUEL – Você não sabe de nada. O nosso filho vai virar piada nas redes sociais e a gente também, porque somos os pais dele.

DONA NATALINA – Cruz credo! Mas por que você está me dizendo isso?

SEU MIGUEL – Já percebi que você não está sabendo mesmo de nada, mas vou te mostrar uma coisa. (Mostra o vídeo no celular). Olha só o que fizeram com nosso filho. Quero sair daqui correndo pra saber como isso aconteceu. Quem fez isso com ele, vai me pagar, se foi outra criança, eu processo os pais.

DONA NATALINA – Mas isso é um absurdo. Meu Jesus, o que é isso? Eu não acredito.

SEU MIGUEL – Pois acredite, que é verdade. Não vou nem esperar essa reunião pra semana, amanhã mesmo vou na escola falar com a diretora, e se ela não resolver, eu resolvo. Tiro o Zezé e boto em outra escola.

DONA NATALINA – Coitado do nosso filho! Acho melhor a gente ir logo pra casa, lá a gente fala com ele. Vamos. (Saem, entra Juquinha e Rafael).

RAFAEL – Não sei o porquê, que a diretora, dona Rosalina, nos chamou até aqui na praça. Será que é por causa do vídeo? Ela deve ter visto na internet.

JUQUINHA – Eu não sei, mas estou achando estranho. Sempre que acontece algo que ela não gosta, ela chama a gente na sala dela.

RAFAEL – Um pic nic é que não é. Com certeza ela vai tirar nosso coro, se prepare. Eu bem que falei que jogar cocô em Zezé e postar o vídeo, não ia dar certo.

JUQUINHA – Fez tá feito. E eu não mandei você fazer nada, você fez porque você quis.

RAFAEL – Nada disso. Eu só filmei, porque você falou. que se eu não filmasse, eu não jogava no time.

JUQUINHA – Então se vire e aguente as consequências. Agora já era.

RAFAEL – Se a diretora for falar sobre isso, eu vou me lascar. Minha mãe vai ficar muito brava comigo. Ela sempre me disse, que quem se junta com porcos, farelo come. E olha só o que aconteceu!

JUQUINHA – Sua mãe é uma louca! Porca é você e ela.

RAFAEL – Eu admito tudo, mas não fale da minha mãe, seu nojento.

JUQUINHA – (Se arma estufando o peito). E o que é que você vai fazer? Vai me encarar é?

RAFAEL – Fique você sabendo que eu não tenho medo da sua valentia, seu bundão.
(Eles se agarram lutando, a diretora entra).

DIRETORA ROSALINA – Parem! Parem! O que está acontecendo?

RAFAEL – Foi ele que começou, diretora. Ele estava esculhambando a minha mãe.

JUQUINHA – Ele falou que a mãe dele me chamou de porco.

DIRETORA ROSALINA – Chega! Parem com isso! Não quero saber nada sobre isso. Eu chamei vocês aqui na praça, pra não chamar a atenção na escola. É desumano, é não ter coração. O que vocês fizeram com o Zezé? Vocês não tem vergonha na cara não, é?

RAFAEL – Eu não joguei cocô no Zezé não, diretora. Quem jogou foi o Juquinha.

DIRETORA ROSALINA – Cale sua boca, que você filmou e tem culpa também. Que vergonha! Ainda não satisfeitos, botaram o vídeo na internet. Exijo como diretora, que vocês imediatamente retirem esse vídeo que está circulando. Outra coisa: só entrarão na escola acompanhados com a mãe e o pai de vocês. A mãe e o pai, e eu não quero nem saber.

JUQUINHA – Foi só uma brincadeirinha diretora. Quem sabe se agora o Zezé passe a usar roupa de homem.

DIRETORA ROSALINA – E qual a roupa de homem, seu Juquinha?

JUQUINHA – Uma roupa azul. Rosa é cor de menina.

DIRETORA ROSALINA – Não me faça vergonha! Se você continuar com seu preconceito e falta de respeito, vou transferir você pra outra escola, bem distante da sua casa. Onde já se viu uma coisa dessas? Cores são cores, e foram deixadas por Deus. Na bíblia não tem escrito, que rosa é para menina e azul para menino. Cada um tem o direito de usar o que quiser, e ser o que quiser. Tomem conta da vida de vocês. Agora vão pra casa de vocês, que eu vou pra minha, e não esqueçam, só entram com os pais. (Entram, Zezé, Vivi e Leninha).

LENINHA – Hora do recreio é só meia hora. Vamos ficar um pouquinho aqui e depois a gente volta pra escola.

VIVI – Eu achei foi bom. A diretora chamou o pai e a mãe do Juquinha e do Rafael, e falou sobre o que aconteceu. Eles ficaram com a cara no chão. Não sabiam que seus filhinhos queridos agiam desse jeito infernizando a vida das pessoas. Ainda fiquei sabendo que a diretora disse que se eles continuassem perseguindo e xingando o Zezé, eles seriam expulsos da escola.

LENINHA – Então é por isso que eles estão, tão caladinho e desconfiados.

ZEZÉ – Eu não contei pra vocês, porque a diretora pediu que eu ficasse calado, pra não criar comentários dentro da escola. A diretora fez uma reunião comigo, Juquinha, os pais de Juquinha, Rafael e os pais dele também.

LENINHA – E o que aconteceu? Me fala.

ZEZÉ – A diretora disse que não estava mais suportando o comportamento de Juquinha dentro da escola, e que ele aprontava com todo mundo, e não ia aceitar isso continuar acontecendo. E se Juquinha aprontasse novamente, ele seria expulso e Rafael também. Rafael chorava muito e tentava se desculpar, mas o pai de Rafael mandava ele calar a boca, e dizia que quando chegasse em casa ia conversar com ele. Eu só sei que os dois ficaram chorando e tiveram que me pedir desculpas.

VIVI – Êita que coisa boa! Como Deus é bom! Ele tarda mas não falha.

ZEZÉ – Mas deixa isso pra lá. Eles não vão mais me ofender. (Entra Rafael).

RAFAEL – Pessoal, bom dia! Eu gostaria de pedir desculpas a vocês, pela péssima brincadeira de mau gosto que fizemos com o Zezé. Juro que eu filmei mas fiquei com a consciência doendo. Eu já exclui o vídeo. Eu queria dizer que só participei de tudo isso, porque se eu não participasse, o Juquinha ia me deixar de fora do time.

LENINHA – Mas Rafael! Por dinheiro nenhum na minha vida, eu faria uma coisa dessas. Foi muito sério o que vocês fizeram. Isso foi muita maldade. Como é que a pessoa suja outra pessoa de cocô pra se divertir e ainda faz um filme e põe na internet. Isso é o cúmulo do absurdo.

RAFAEL – Gente, eu sei. Vocês estão corretos, foi realmente uma falha minha, e por isso estou aqui envergonhado e pedindo minhas desculpas. Eu juro e prometo que não vou mais participar da turma do Juquinha. (Juquinha entra).

JUQUINHA – Não precisa participar não, Rafael. A turma do Juquinha não mais existirá. Na verdade, esses dias estão sendo um inferno na minha vida. As pessoas se afastaram de mim, ninguém quer mais conversar comigo. Depois que postei o vídeo na internet, estou pagando meus pecados. Meu pai tirou tudo que eu gostava. Vou passar seis meses sem jogar meus games e sem sair de casa, só de casa pra escola e da escola pra casa. Já pensei em fazer até besteira. (Juquinha começa a chorar). Desculpa Zezé. Eu errei, eu errei. De hoje em diante pra mim não importa se você vista azul ou rosa. A vida é sua, e eu não tenho nada com isso. Desde pequeno que sempre escuto em casa, azul é pra menino e rosa pra menina. Minha mãe quando ficou grávida do meu irmão caçula ficava dizendo, se for menina vou comprar o enxoval todo cor de rosa, aí meu pai dizia, então vou lhe dar um conselho. Compre azul que meu filho vai ser um cabra macho. Aí eu fiquei com isso na cabeça, que menino veste azul e menina veste rosa.
Ainda levei uns tapas do meu pai, porque eu disse que a culpa era dele.

ZEZÉ – Tenha calma Juquinha, entendo. Os pais as vezes dizem coisas que não deveriam dizer diante dos seus filhos. É o que aconteceu com você. Eles sempre diziam que roupa azul é pra menino e rosa pra menina, e você achou que isso era correto e fez uma brincadeira desagradável comigo, e agora seus pais estão lhe castigando por algo que eles te ensinaram. Mas não se preocupe, foi muito cruel, mas eu já esqueci.

RAFAEL – Graças a Deus, Juquinha. É isso aí. Cada um deve brincar e vestir o que gosta. Até porque não devemos ter preconceito com quem é diferente da gente. E preconceito é crime e pode dar cadeia.

VIVI – Então vamos fazer uma coisa. Já que somos amigos, vamos inventar uma brincadeira, pra a gente brincar todos juntos aqui na praça.

JUQUINHA – Eu gostaria muito, mas infelizmente não vou poder brincar com vocês,

LENINHA – Mas por que Juquinha. Qual o problema?

JUQUINHA – Vocês esqueceram que estou seis meses de castigo. De casa pra escola e da escola pra casa? Infelizmente não posso.

ZEZÉ – Pode sim Juquinha. Eu vou na sua casa pedir pra o seu pai deixar você brincar com a gente.

JUQUINHA – (Se assusta). Não, pelo amor de Deus! Não faça isso. Vocês não entenderam o que eu falei. Meu pai e minha mãe são preconceituosos, eles dizem que não, mas o preconceito está dentro deles. Se você chegar em casa, Zezé, vestido de rosa me chamando pra brincar, o mundo desaba na minha cabeça, não faça isso.

ZEZÉ – Tá bem, eu não irei. Deixa pra lá.

JUQUINHA – Quando passar o meu castigo, eu poderei brincar com vocês aqui na praça. Tá bom assim?

VIVI – Tá bom Juquinha, nós entendemos. Mas vamos retornar à escola que a hora do recreio já acabou. Vamos pessoal.

ZEZÉ – E a gente vai assim, sem se despedir do pessoal? Vamos se despedir. (Eles acenam dando Tchau e mandando beijinhos para o povo da plateia).




Flavio Alves
19/07/2023

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Biografia:
Sou autor de textos de teatro, e poesias em literatura de cordel. Também sou Arte Educador, ensinando crianças e adolescentes, como também, pessoas da terceira idade.
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Outros títulos do mesmo autor

Teatro O MENINO QUE VESTIA COR DE ROSA FLAVIO ALVES DA SILVA

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