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Monotonia
Canton

Resumo:
Cada alma enfrenta a morte de um jeito, espero que a sua não seja tão monótona.

Eu me tornei cada vez mais uma pessoa acomodada. Tinha um emprego considerado regular, herdei a casa dos meus pais após seu acidente, tinha uma coleção invejável de livros e possuía três doces cães. Havia chegado ao meu ponto máximo de estabilidade na vida. Ao contrário da maioria, não optei por construir uma família, essa escolha ordinária era cheia de imprevistos. Já havia me acostumado com minha rotina monótona, o trabalho em um escritório não apresentava grandes dificuldades, na verdade era como se fosse invisível, fazia minhas obrigações, mas ninguém parecia notar. O que era ótimo, assim não era atingido por nenhuma onda de estresse.
Quando retornava para minha casa, tinha minha ordem de afazeres. Dar comida aos cachorros, colocar o congelado no micro-ondas, tomar um banho quente e usufruir do conforto da minha sala de estar até que pegasse no sono. Meu apego por essa rotina era grandioso. Essa segunda-feira não seria diferente, nunca era.
Estacionei o carro na garagem e já conseguia ouvir o rabo de Athos batendo contra o aparador próximo à porta, ele era quem me recepcionava diariamente. Entrei, fui recebido em festa. A parte boa de ter amigos assim é que você se sente amado. Iniciei minha rotina doméstica, mas ao entrar no quarto do andar de baixo reservado aos caninos, não encontrei Pick e Marla. Eles sempre estavam dormindo quando retornava, chamei pelos dois, nenhuma resposta. Desespero, essa é a definição. Após vasculhar toda a casa, presumi que tinham fugido com o pug do vizinho, semana passada o mesmo aconteceu.
Aquele sentimento definido passou, então, coloquei o prato do dia para descongelar e me dirigi ao meu banheiro. Era normal demorar horas, todo aquele vapor me cegando era prazeroso. Estava no meio do enxágue do meu cabelo quando a porta se abriu, dissipando parte do calor acumulado.
- Athos, já conversamos sobre isso. Esse tempo é meu, amigo.
Porém, o contorno que apareceu diante de mim não era canino. Muito pelo contrário, era extremamente familiar e bípede. Assalto, foi a primeira coisa que me veio a cabeça. Desliguei o chuveiro e me enrolei na toalha. Esperava uma investida contra mim. Não houve, aquela figura parecia não se importar com minha presença. Aproximei-me e para minha surpresa estava se despindo, quanta insolência. Uma onda de fúria tomou conta de mim. Derramei insultos sobre o sujeito, que continuava ignorante a situação.
Coloquei-me frente a frente, queria ver o rosto desta pessoa tão desprezível. O medo me arrebatou. Meu pai. Ele estava morto há duas semanas, ao sair para uma viagem com minha mãe, um grave acidente tirou a vida dos dois. Aquilo não podia ser verdade.
Corri para o carro, com a toalha ainda enrolada em minha cintura. Um padre, um pastor, alguém precisava guiar sua alma para o lugar onde ela agora pertencia. A saudade estava começando a apertar, mas isso não era motivo para querer o espirito do meu pai vagando em meu banheiro. Era contra a minha monotonia.
[CONTINUA]


Biografia:
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